A sala dos professores ainda cheirava a café requentado quando Lívia viu o bilhete.
Dobrado com precisão quase ritual, deixado no centro da carteira, bem onde a pulseira da gratidão costumava descansar durante o recreio. Papel bege, caneta preta, letra curva demais pra ser de aluno.
“Você ri alto demais. É como se quisesse se exibir.”
Ela parou. Ficou ali por um instante, bilhete nas mãos. Entre o bule encardido e os murais coloridos de cartolina, sorriu, um daqueles sorrisos automáticos de quem não sabe se foi elogiada ou atacada.
“Deve ser piada...” murmurou. Mas sentiu o peito gelar.
Por um momento, a sala pareceu respirar junto com ela. O relógio marcava 9h10, e cada tique ecoava mais forte do que o normal. A caneca esquecida no canto, a cortina amarelada, o murmúrio dos alunos do outro lado da parede — tudo parecia distante, como se o mundo tivesse se recolhido para observar sua reação.
Lívia era o tipo de professora que os alunos abraçavam na hora da saída. Não porque ela dava balinha, mas porque fazia a vida parecer menos pesada. Tinha um guarda-chuva florido e risada escandalosa. Toda sexta, usava um broche diferente no jaleco branco: no último mês, foram uma abelha, uma estrela e uma caveirinha de crochê.
Às vezes, pensava que aquele exagero de cor e riso era uma forma de resistência. O mundo podia ser cruel com mulheres felizes demais. E ela sabia disso. Ainda assim, continuava rindo alto, porque calar era o que o mundo esperava dela.
Era divorciada há quatro anos, mas mantinha uma relação harmoniosa com o ex-marido, Daniel. Uma relação que confundia até os mais românticos, não pelo drama, mas justamente pela ausência dele. Eles se respeitavam, conversavam diariamente sobre a rotina das crianças e dividiam os cuidados com maturidade.
Tinha dois filhos. O mais velho, Rafael, era fruto de um relacionamento anterior. Era um menino curioso, negro como a avó materna, com olhos que guardavam perguntas maiores que sua idade. O mais novo, Enzo, era filho biológico de Daniel. Autista, falava pouco mas comunicava mundos inteiros com o olhar.
Daniel nunca fez distinção entre eles. Rafael o chamava de pai desde os dois anos, e ele jamais corrigiu isso. No coração de Daniel, não havia diferença. Na prática, muito menos. Levava Enzo a todas as terapias com paciência e presença, aproveitando a flexibilidade que seu trabalho como médico permitia. Mas também era quem ficava na arquibancada do futsal gritando o nome de Rafael como se ele fosse o camisa 10 da Seleção.
Quando alguém, por ignorância ou insensibilidade, perguntava se Rafael era mesmo seu filho, Daniel se incomodava visivelmente. Respondia com firmeza:
“Sou o pai, sim. Por quê?”
E sustentava o silêncio da pergunta com o peso de um olhar que dispensava explicações.
Lívia sabia que sua vida, vista de fora, parecia bonita. Colorida. Equilibrada.
Mas também sabia: há quem não suporte ver de perto o que não consegue ter. Principalmente quando a alegria vem de uma mulher que não pede desculpas por ser feliz.
Por alguns segundos, ficou olhando o bilhete, como se ele pudesse mudar se fosse lido mais devagar. E sentiu algo novo: não era medo, ainda. Era uma sensação parecida com quando a luz pisca antes de acabar, o instante em que o corpo percebe o silêncio antes que ele aconteça.
Dobrou o papel devagar e o guardou dentro do estojo. O papel parecia pulsar ali dentro, vivo, inquieto.
Ao redor, o murmúrio da escola continuava igual, o som de risadas e passos misturado ao cheiro de café e giz. Mas, dentro dela, algo tinha se calado.
Um silêncio novo.
Um silêncio que parecia querer dizer alguma coisa.