Luna nunca foi do tipo que sonhava com contos de fadas. Desde pequena, preferia desmontar os brinquedos para entender como funcionavam, e montar naves de papelão com sistemas de propulsão improvisados com ventiladores velhos. Décadas depois, lá estava ela: engenheira-chefe de sistemas a bordo da nave Odyssey-9, em rota para Marte.
— Aposto que nenhuma princesa da Disney saberia recalibrar um propulsor em 37 segundos — murmurou, enquanto digitava comandos no painel central com um café gelado flutuando perto do ombro.
A missão era grandiosa: uma estadia técnica de seis meses para coletar dados e montar parte do primeiro habitat semi-autônomo em solo marciano. Mas, para Luna, tudo se resumia à curiosidade. E talvez, um pouco, à vontade de escapar do barulho da Terra — não o barulho literal, mas o das pessoas, das promessas sem sentido, das cobranças sutis por uma vida mais "normal".
Ela sempre foi fora do padrão. Curta, direta, com humor afiado e trilhas sonoras cuidadosamente selecionadas para cada momento da vida. Naquela manhã, era jazz dançante com um toque eletrônico. Estava em “modo elegância cósmica”, como gostava de dizer.
Quando o painel deu o primeiro aviso de anomalia, Luna quase riu.
— Sério? Já? Nem aterrissamos ainda. Mas a risada foi curta. A nave tremia. Alarmes começaram a piscar. Ela digitou comandos tentando controlar a falha no sistema de estabilização secundário, mas, era tarde. A Odyssey-9 entrou em protocolo de emergência. As cápsulas de escape começaram a ser ejetadas automaticamente.
A tripulação se separou. Um clarão. Um impacto.
Escuridão.
Quando Luna acordou, a cápsula de emergência estava parcialmente enterrada numa duna vermelha. Sem sinal da nave-mãe. Sem comunicação com os outros.
Ela levantou devagar, conferiu os sinais vitais, respirou fundo. O traje estava intacto. O oxigênio, dentro do esperado. O humor... intacto também.
— Marte, meu caro... você tem gosto duvidoso para recepção.
Ela abriu a escotilha da cápsula e saiu.
Tudo estava quieto. Céu âmbar. Horizonte infinito. Nenhum sinal de vida — ainda.
— Bom — disse, ajeitando o capacete — se eu tiver que ficar presa num planeta desconhecido... pelo menos que a trilha sonora seja boa.
E com isso, a engenheira que cresceu montando naves de papelão começou a caminhar sobre Marte. Sozinha, sim — mas com o mesmo brilho nos olhos de quem sabia que aventuras de verdade não começam com “era uma vez”, e sim com uma falha no sistema e uma boa dose de jazz.