As coisas deram errado de um jeito tão rápido e técnico que Luna quase achou bonito. O tipo de colapso que só engenheiros entendem: uma falha pequena que vira uma cascata de sistemas se sabotando. Um erro de 0,002 segundos no tempo de resposta. Uma partícula que não devia estar ali.
Resultado? Uma engenheira flutuando sozinha em uma cápsula de emergência, em rota de colisão suave com o planeta vermelho.
— Inacreditável. Estudei vinte anos, sobrevivi a seis simulações de desastre orbital e é um grão de poeira que me derruba. — disse, encarando a tela que agora só mostrava o símbolo universal de “se vire”.
Do lado de fora, Marte se aproximava devagar. E ao mesmo tempo, rápido demais.
Luna acionou os sistemas manuais, ajustou a rotação e desacelerou a cápsula com um suspiro. Os sensores indicam aterrissagem forçada, mas é possível. Ela manteve a calma.
“Problemas são só equações disfarçadas.” — era o lema que seu antigo professor de propulsão repetia.
Ela sempre achou isso ridículo. Mas naquele momento, fazia um pouco de sentido.
A cápsula tocou o solo marciano com um tranco seco, sacudindo tudo — incluindo o resto do café que ela ainda não tinha bebido. Silêncio. Depois, só o som sutil da sua respiração no capacete.
Luna verificou os danos: estrutura comprometida, comunicação instável, oxigênio suficiente para semanas, e nenhuma resposta da Odyssey-9.
— Parece que ganhei um retiro não programado. Com Wi-Fi zero e vista para o deserto.
Ela saiu da cápsula com cuidado, os pés afundando levemente na poeira vermelha. O traje resistia bem. O solo era seco, quebradiço, e ao longe havia elevações que talvez escondessem abrigo. Ou mais nada.
— Bom… se é para ficar presa em Marte, que pelo menos tenha uma boa iluminação. — E de fato, o céu laranja banhado por dois sóis parecia saído de uma pintura.
Com sua mochila de suprimentos, ferramentas e um pequeno dispositivo portátil de escaneamento, Luna deu o primeiro passo no planeta. Um pequeno passo para a humanidade… e um enorme para uma mulher que só queria consertar coisas em paz e ouvir música dançante no volume máximo.
Mal sabia ela que aquele planeta não era tão deserto quanto parecia.