Os primeiros dias foram uma mistura de engenharia de
emergência e solidão. Luna sempre gostou de estar sozinha
— sozinha com suas ideias, suas ferramentas, sua música. Mas
essa era uma solidão diferente. Silenciosa demais até para o
jazz.
Ela usou partes da cápsula danificada para montar um abrigo
improvisado. Conectou painéis solares, regulou a pressão
interna, montou um cantinho para dormir, outro para
trabalhar, e um pequeno espaço onde podia dançar sozinha
ouvindo Samara Joy em um dos últimos arquivos ainda
funcionais do tablet.
O cronômetro do traje marcava cinco dias desde a queda.
Cinco dias sem qualquer sinal da Odyssey-9.
Cinco dias com Marte parecendo mais um quadro imóvel do
que um planeta vivo.
Até que... alguma coisa mudou.
Na manhã do sexto dia, enquanto coletava amostras de solo
perto de uma cratera, Luna notou algo que não era poeira,
nem pedra, nem paranóia: pegadas. Mas não as dela. Eram
diferentes. Alongadas. Profundas. Simétricas demais.
Ela parou, os olhos fixos nas marcas como se fossem uma
equação impossível.
— Certo… isso definitivamente não fui eu. E se fui, ou estava
muito bêbada, ou sonâmbula com pés de pato.
Seguiu as marcas até uma pedra alta. Lá, elas simplesmente…
sumiam. Nenhum sinal claro de onde vieram ou para onde
foram. Ela tentou ativar o scanner térmico, mas o
equipamento falhou — o que não era tão raro, considerando
o estado do traje e a interferência atmosférica marciana.
Ela olhou ao redor. Silêncio absoluto. Céu âmbar. Vento seco
e lento. Nada, e ao mesmo tempo… tudo.
E então, decidiu: não contar nada para ninguém.
Se alguém — ou alguma coisa — estivesse ali, ela não queria
correr o risco de entregar. Talvez fosse só sua cabeça lidando
com o isolamento. Talvez não. Mas se existia algo mais neste
planeta, ela sentia que sera melhor manter em segredo. Por
enquanto.
Naquela noite, ao deitar-se dentro do abrigo improvisado, ela
olhou para cima e sussurrou:
— Se você estiver aí fora… não precisa se esconder. Eu não
mordo. Só conserto.
E lá fora, na escuridão sutil de Marte, alguém realmente a
ouviu.