Na Terra, o café resolvia tudo. Em Marte, Luna se virava com goles de água reciclada e uma boa dose de ironia silenciosa.
Na manhã do sétimo dia, ela estava ajustando uma antena improvisada feita com peças da cápsula, fita térmica e o tipo de esperança que só engenheiros otimistas cultivam, quando algo piscou no canto do visor.
— Se for alucinação, tomara que pelo menos tenha bom gosto musical.
Mas não era. Havia movimento. Uma silhueta pequena, lá longe, no horizonte esbranquiçado de poeira. Se movia com cautela, como se o chão fosse feito de segredo.
Luna franziu o cenho.
— Isso definitivamente não é uma rocha. A menos que as rochas tenham aprendido a dar passinhos de dança tímidos.
Ela observou, curiosa. Não havia pressa no gesto. Era... quase gentil. Como se quem quer que fosse, soubesse que ela estava olhando e decidisse não assustar.
Mais tarde, sentada perto do abrigo, com uma caneca vazia entre as mãos — puro teatro, já que o café havia acabado no terceiro dia — ela viu de novo. O mesmo movimento. Agora, mais próximo. A mesma delicadeza. A mesma hesitação. Ela sorriu para si mesma.
— Ok, Marte. Ou você está me enviando um novo tipo de criatura pacífica, ou finalmente está tentando me fazer companhia.
A noite caiu devagar, tingindo o céu com um tom entre o dourado e o cobre escuro. O silêncio, que antes pesava, agora parecia... atento. Como se algo além da poeira estivesse esperando pelo momento certo.
Luna olhou para a escuridão do deserto marciano e disse, com uma voz suave, quase musical:
— Você pode chegar mais perto, se quiser. Eu prometo que não vou me assustar fácil.
Lá fora, uma pedrinha rolou. Um movimento quase imperceptível. E por um instante, Luna teve certeza: não estava sozinha.
Ela deitou-se no abrigo com o coração um pouco mais leve. Curiosa. Atenta. E, pela primeira vez desde que caiu ali, estranhamente… acompanhada. Ca