Na manhã do oitavo dia em Marte, Luna acordou com o som de algo caindo. Não era metálico. Não era o tipo de som que sua nave fazia quando ameaçava desabar. Era… mais como uma pedra tropeçando.
Ela piscou. Estava sonhando?
Outro som. Um tipo de “ai” abafado, seguido por algo que só podia ser traduzido como o barulho universal de alguém tentando parecer que não caiu.
Ela pulou da cama improvisada, pegou o capacete e, com a curiosidade fervendo no estômago, espiou pela escotilha do abrigo.
Lá estava.
Alto. Com a pele azulada em um tom elegante entre cobalto e céu do entardecer. Traços definidos. Óculos com armação clara pousados no nariz com um certo charme nerd involuntário. E, claramente, zero noção de discrição: ele estava tentando se esconder atrás de uma rocha… com o dobro da sua altura visível acima dela.
Luna saiu devagar. Não com medo. E sim com a energia de alguém que finalmente viu algo mais interessante que poeira e painéis solares. — É agora que descubro se estou maluca ou se acabei de conhecer um modelo da Calvin Klein versão galáctica.
O ser virou-se com um leve susto e tentou se levantar. Tentou. Porque ao fazer isso, tropeçou no próprio pé — e caiu sentado, com um som abafado, como se dissesse "oops" em outro idioma.
Luna não conseguiu segurar o riso.
Ele ergueu uma das mãos — dedos longos, finos, elegantes — em um gesto amistoso. Depois, em um inglês com sotaque musical, disse:
— Não era… para cair. Planejava… entrada mais impressionante.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Olha, como primeira impressão, já ganhou pontos por sinceridade.
Ele se levantou, limpando a roupa marciana de forma um tanto exagerada. Depois apontou para si e disse com clareza:
— Alion. Observava você.
Luna cruzou os braços, divertida.
— Você é meu stalker marciano?
— Não. Observação científica. Metodológica. Ética. — Ele pareceu confuso por um segundo. — Com… admiração.
Ela riu de novo. Havia algo encantador na mistura de formalidade e trapalhada.
— Eu sou Luna.
— Eu sei. Você canta quando pensa que está sozinha. Dança mal, mas com entusiasmo. Gosta de jazz e... odeia seu alarme matinal.
Luna ficou de boca aberta. — Espionagem musical?
— Pesquisa cultural. Nosso povo aprende rápido. Nós absorvemos informação com base na vibração… som… comportamento.
— Então você me analisou como um podcast ambulante?
Alion sorriu. Era um sorriso calmo, levemente torto, que revelava um tipo de humor escondido atrás da lógica.
— E gostei. Muito.
Ele se aproximou um pouco. Sem pressa. Com o tipo de cuidado de quem sabe que, apesar da curiosidade, ainda é um desconhecido. Em sua mão havia uma pequena esfera azulada que parecia conter um redemoinho em miniatura.
— Presente. Para... selar confiança.
Luna pegou com delicadeza.
— Que bonito. Isso faz alguma coisa?
— Sim. Pisca quando você pensa em dançar de novo. Brincadeira. Só brilha. Tranquiliza.
Ela apertou a esfera com um sorriso.
— Obrigada, Alion. Sério. Isso tudo é... muito estranho. Mas, um estranho bom.
— Estranho bom… é meu tipo favorito.
Eles ficaram ali, olhando um para o outro sob o céu alaranjado de Marte. Um silêncio confortável surgiu entre os dois. Alion deu um leve passo à frente e, então — como já era de se esperar — tropeçou de novo. Mas, dessa vez conseguiu se equilibrar com uma graça inesperada.
— Ah. Estou melhorando.
Luna riu e ofereceu a mão.
— Vamos andar um pouco. Me conta mais do que aprendeu. Mas olha, aviso logo: nem tudo que você ouviu sobre humanos é verdade. Especialmente sobre nossos cafés da manhã.
Alion aceitou a mão, curioso.
— Eu tenho muitas perguntas. E uma dúvida: o que é um “rebolado no ritmo do groove”?
Ela deu uma gargalhada enquanto caminhavam lado a lado.
— Isso, meu amigo azul, vai exigir uma aula prática.