Luna e Alion caminhavam pelo terreno marciano como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo — uma engenheira terráquea e um ser azul, de óculos e leve propensão a tropeços, trocando ideias como colegas de longa data.
O céu em tons queimados projetava sombras longas e alaranjadas no solo, e a conversa entre eles flutuava tão naturalmente quanto a poeira fina sob seus pés.
— Então, me explica isso de novo — disse Luna, tentando conter o riso —, essa sua... mochila viva?
Alion tirou das costas uma estrutura que parecia feita de fibras vegetais entrelaçadas, com pulsações suaves. A coisa parecia respirar.
— É um repositório de vibrações. Armazena frequências, traduz padrões... também faz chá.
— Faz chá?
— De vibração. Relaxa as sinapses.
Luna observou enquanto ele apertava levemente a lateral do objeto. Uma nota musical suave — algo entre harpa e baleia — ecoou no ar.
— Vocês fazem tudo... cantando?
— Quase tudo. Exceto manobras de pouso. Muito arriscado. Preferimos o silêncio.
Ela riu.
— Você sabe, na Terra, a gente chama isso de tecnologia orgânica. Mas aqui, parece... vivo.
— Porque é. Não produzimos. Cultivamos.
Luna tocou a borda do "repositório" e sentiu uma vibração quente percorrer seus dedos.
— Isso explica por que tudo ao seu redor parece saído de um spa alienígena. Agora, sobre essa coisa que você disse mais cedo... “flerte”? O que é exatamente?
Ela piscou.
— Você ouviu essa palavra onde?
— No seu diário de voz. Você disse que “se alguém me encontrar aqui, que seja um alien charmoso que saiba flertar melhor que humanos no Tinder”.
Ela cobriu o rosto.
— Alion! Você ouviu isso?
— Eu tenho bom alcance auditivo. E curiosidade. O que é “Tinder”? E “flertar”? São armas?
— Não, são... são estratégias de acasalamento humanas.
Ele pareceu pensar por um segundo.
— Ah. Ritual de aproximação. Como o “giro de folhas brilhantes” dos Rynox da quarta lua.
— Mais ou menos. Mas, com menos folhas e mais vergonha alheia.
— Você tem vergonha? Agora?
— Não — ela disse, ainda com o rosto meio corado. — Um pouco. Ok. Segue a conversa. Alion sorriu, como se tivesse vencido um jogo interplanetário de lógica emocional.
— Gosto de aprender com você, Luna. Você tem muitas palavras. Algumas confusas. Como “miga sua loka”. É um insulto?
Ela gargalhou.
— Depende do tom. Pode ser afeto. Pode ser alerta. Pode ser os dois ao mesmo tempo.
Ele assentiu lentamente, como quem processava uma equação emocional de 12 linhas.
— Humanos são complexos.
— E vocês são... fascinantes.
Eles se sentaram perto de uma rocha que emitia uma vibração grave e ritmada. Luna percebeu que aquilo também fazia parte dos instrumentos naturais de Alion: uma espécie de banco que se comunicava com o solo, transformando os ventos finos de Marte em música de fundo.
— Isso aqui é tipo sua trilha sonora pessoal?
— Sim. Ambiente, influência pensamento. Música ajuda a sentir melhor.
— Parece poesia.
— Parece você.
Ela olhou para ele. Por um instante, o tempo pareceu suspenso. Não havia resgate. Não havia planeta. Só o som do banco vibrando e os olhos grandes e curiosos daquele ser azul à sua frente.
— Você é bom com palavras, Alion.
— Só as que aprendo com você.