Luna nunca imaginou que um planeta árido, silencioso e majoritariamente monocromático pudesse oferecer uma rotina tão... peculiarmente deliciosa.
Todas as manhãs, ela acordava com a suave vibração sonora do banco-orgânico que Alion “afinava” de acordo com seu humor — naquele dia estava em Ré menor brincalhão, segundo ele. Uma espécie de “bom dia musical com potencial de dança leve”.
Alion era pontual em seus encontros, embora quase sempre esbarrasse em alguma rocha no caminho. Luna começava a suspeitar que o tropeço matinal fazia parte do charme.
Enquanto dividiam um suco de raízes fermentadas (que tinha gosto de terra com final cítrico), Luna aproveitou para fazer uma pergunta que já martelava sua mente havia dias.
— Alion… por que vocês evitam contato com a Terra? Quero dizer, se vocês têm toda essa tecnologia viva, essa inteligência absurda, essa... música em tudo. Por que se esconder?
Alion ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o céu marciano que naquele momento lembrava uma pintura empoeirada.
— Nós evoluímos demais. Rápido demais. Construímos, criamos, acumulamos... e destruímos juntos. Como vocês fazem, às vezes. — Ele a olhou, não como quem julga, mas como quem reconhece o espelho. — Nossa natureza quase foi engolida pelas nossas invenções.
Luna ficou quieta. O som do banco pulsava baixinho, como se também escutasse.
— Então... vocês decidiram sumir?
— Decidimos pausar. Reaprender. Desacelerar. — Ele passou a mão pelo solo. — Agora, tentamos evoluir sem dominar. Crescer sem engolir. Ser inteligentes... sem esquecer de sermos vivos.
Luna sentiu um nó suave no peito. Aquilo era bonito. E um pouco triste.
— É quase um aviso, né?
— Ou um lembrete. Humanos são jovens. Mas ainda podem escolher.
Ela assentiu lentamente.
— Vocês são mesmo bons com finais dramáticos de fala.
Alion sorriu.
— Assistimos muito seus filmes.
— Eu sabia!
O momento sério se dissolveu em mais uma conversa sobre filmes terráqueos mal interpretados (“O que é um ‘Rápido e Furioso’? São títulos nobres?”), piadas sobre como Marte não tem filas nem políticos, e um pequeno passeio onde Alion mostrou um novo objeto vivo: uma espécie de pulseira vegetal que mudava de cor e emitia tons sutis de acordo com o humor da pessoa que a usava.
Luna a colocou no pulso. Ela imediatamente brilhou num tom quente e dançou numa melodia suave.
— E essa música quer dizer o quê? — perguntou ela, curiosa.
Alion olhou para a pulseira, depois para ela, e respondeu:
— Quer dizer que você está exatamente onde gostaria de estar.
Ela sorriu, sem responder. Porque, pela primeira vez em muitos dias — talvez anos — ela estava mesmo.