Luna acordou naquela manhã marciana com a sensação de que algo estava diferente.
Nada tropeçando. Nada cantando. Nenhuma piadinha sobre como humanos têm "baixa eficiência energética antes do café". Alion não estava no lugar de sempre.
Ela caminhou pela trilha que criaram juntos — marcada por pedrinhas que emitiam sons suaves ao serem pisadas. Trilha sonora personalizada, ele dizia. Para que os caminhos também cantem.
Quando chegou à clareira onde costumavam passar as tardes, ela parou. Arregalou os olhos.
Uma espécie de estrutura orgânica, feita de folhas luminescentes e cipós vivos, se erguia no centro da clareira. Era como se a vegetação tivesse sido treinada por um arquiteto romântico com uma queda por jazz. A forma lembrava um pequeno palco, com fios pulsantes como cordas de instrumentos, formando uma espécie de harpa viva ao fundo.
Alion estava ali, com os óculos meio tortos, o cabelo azul (ou era musgo?) bagunçado, e uma expressão entre nervoso e determinado. Ele segurava uma pequena esfera feita de seiva cristalizada.
— Você chegou. — E você construiu... um jardim de música?
— Mais ou menos. É um K’saorn. Antiga tradição marciana. Usamos para comunicações profundas. Ou... declarações.
Luna levantou uma sobrancelha.
— Isso é um "evento"? Você disse que não fazia cerimônias.
— Mentira diplomática.
Ele riu sem jeito. A esfera em sua mão começou a vibrar levemente.
— Isso é uma memória sonora — disse ele. — Recolhi fragmentos dos nossos dias. Sua risada quando você caiu na areia. Sua voz tentando explicar “tretas”... ainda não entendi essa.
— Nem a gente entende muito bem. Continue.
— Suas músicas... seu jeito de andar, como se estivesse dançando com o planeta, mesmo quando ele não tem ritmo. Tudo isso... está aqui.
Ele colocou a esfera no centro da estrutura. Sons suaves começaram a emergir: a voz dela em eco risonho, misturada com pequenas melodias marcianas. O som parecia se mover no ar como uma dança invisível.
— Luna... eu não sabia que era possível sentir falta de alguém... enquanto estava com ela. Mas acontece quando você sorri. E quando você dorme. E até quando você me chama de “tonto azul”.
Ela riu. Estava com as mãos no rosto. A harpa viva começou a acompanhar o ritmo do coração dela — literalmente — cada batida era transformada em luz e som.
— Eu sou feito de lógica e absorção — disse ele —, mas você me ensinou a duvidar. E eu... gosto disso. Quero mais disso. Quero você.
Luna respirou fundo. A clareira parecia vibrar com a intensidade do momento. Ela caminhou até ele, olhos brilhando. — Isso foi a declaração mais... marciana que já ouvi. E eu amei cada segundo dela.
— Então... você também sente?
Ela tocou o rosto dele com delicadeza. O azul da pele de Alion pareceu cintilar com o toque.
— Eu sinto. Desde o dia em que você tropeçou no meu módulo como se fosse o carteiro do espaço.
— Ah, sim. Grande entrada.
— A melhor possível.
Eles se abraçaram sob a sinfonia orgânica do K’saorn. E por alguns minutos, Marte não era um planeta frio e solitário, mas o palco da mais inesperada — e extraordinária — história de amor já registrada (ou não, porque Luna, obviamente, jamais poderia contar isso a ninguém).