O tempo em Marte não corria — ele deslizava. Como uma melodia suave, com pausas no lugar certo, silêncios cheios de significado e notas inesperadas que faziam o coração bater fora do compasso.
Luna e Alion agora compartilhavam uma rotina quase absurdamente encantadora. Ele improvisava pratos com vegetais que pareciam ter saído de um livro de botânica futurista. Ela dançava sozinha pela base, ao som das playlists que ainda guardava no módulo, misturando ritmos alegres com um toque de improviso.
— Essa dança tem nome? — Alion perguntou certa noite, tentando imitar um passo com as pernas um pouco descoordenadas.
— Se chama “dança de estar viva”, senhor marciano. Muito popular entre os que sobreviveram a missões interestelares.
Ele riu, ajeitando os óculos, como sempre meio tortos.
Mas naquela noite, havia algo diferente. Alion a convidou para um lugar que ela ainda não conhecia — um pequeno platô que ele chamava de “Varanda do Céu Cantante”. A tradução, segundo ele, era completamente verdadeira.
Subiram juntos por uma trilha iluminada por pequenos cristais naturais que vibravam suavemente ao toque, emitindo sons harmônicos, como se o chão cantasse discretamente a cada passo.
Quando chegaram ao topo, Luna ficou em silêncio. O céu se estendia acima deles, limpo, estrelado, com um brilho cristalino. As constelações pareciam dançar lentamente, como se estivessem participando da cena.
No centro da clareira, cercada por rochas translúcidas, havia uma estrutura viva — uma flor de luz, crescendo de um casulo orgânico, pulsando com tons dourados e azulados, e um campo de oxigênio puro onde Luna podia respirar.
— O que é isso? — ela perguntou, encantada.
— É um presente. E um lugar especial. Os cristais vibram com a energia de momentos únicos. Este lugar armazena memórias... e sentimentos.
Luna se aproximou. As vibrações pareciam entrar em sintonia com seu próprio ritmo. Era como ouvir sua emoção traduzida em som.
— Achei que hoje seria... apropriado — disse Alion. — Uma noite perfeita para guardar algo especial.
Ele estendeu a mão. Ela aceitou.
Os dois ficaram de pé no centro da formação cristalina. Sons suaves começaram a emergir ao redor — uma melodia construída com fragmentos da risada dela, o som de passos, e os tons que seus encontros haviam produzido até então. Como uma trilha sonora feita de lembranças.
— Luna, há um padrão em tudo o que observo. Frequências, ritmos, repetições... Mas, com você, nada é previsível. E ainda assim, tudo faz sentido.
Ela sorriu, olhos marejados.
— Isso foi... muito bonito. E meio matemático-romântico, se é que isso existe.
— Aqui, existe.
As vibrações aumentaram levemente, como um coro delicado que surgia de todas as direções.
— Eu não entendo tudo sobre o seu mundo, mas sei que sua presença aqui alterou tudo o que conheço. E se um sentimento pode sobreviver fora da atmosfera, então... talvez isso seja amor. Luna riu baixinho, emocionada.
— Alion... você tem o pior timing para ser incrivelmente encantador.
Ele deu um passo para mais perto. As luzes ao redor pareceram acompanhar, vibrando em tons quentes e acolhedores.
E então, sem mais palavras, ele a beijou.
Foi um beijo suave, como a primeira nota de uma canção dançante que se ouve antes de reconhecer a melodia. A estrutura viva pulsou ao redor deles, criando um brilho dourado, como se Marte estivesse sorrindo.
Quando os lábios se afastaram, Luna encostou a testa na dele.
— Isso foi mágico.
— Eu ajustei os cristais — respondeu ele, sem disfarçar o orgulho.
— Não. Você foi mágico.
Por um instante, não existia Terra, nem tempo, nem regras.
Só dois seres de mundos diferentes, dançando no compasso mais antigo do universo: o do encontro entre dois corações em perfeita sintonia.