Depois do beijo — aquele beijo que parecia ter sido coreografado por constelações e aprovado por cristais vibrantes — o tempo ganhou um novo peso. Não mais leve como antes, mas também não opressor. Era mais como uma ampulheta invertida, onde cada grão de areia vinha com um sorriso, um toque, uma conversa que ela nunca teria imaginado ter... com um marciano.
Luna, como boa engenheira, começou a calcular os dias restantes. Ainda faltavam quase quatro meses para o resgate, mas agora cada dia parecia mais precioso. E, de algum jeito, também mais curto.
Alion, por outro lado, parecia determinado a fazer com que cada momento fosse único.
— Você sabia que já consigo entender 87% do que você fala? — disse ele, uma manhã, enquanto servia a ela uma infusão feita de folhas que lembravam hortelã... se hortelã brilhasse no escuro.
— Só 87%? Poxa, estou claramente sendo subestimada.
— É que as gírias confundem. Ontem, você disse que algo era “top”. Preciso de contexto. Era uma montanha?
Ela riu, quase cuspindo a bebida.
— Não, Alion. Era só uma forma humana de dizer que algo é muito bom.
— Estranho. Na minha língua, dizemos "zel'ak'nor". Literalmente: “que pulsa acima das expectativas sensoriais”.
— Ok, ponto para você. Isso foi muito mais poético.
Eles passaram a registrar, mentalmente, pequenos marcos: a vez em que ela ensinou a ele como assobiar (com resultados catastróficos e engraçadíssimos); ou quando ele mostrou um mapa holográfico orgânico que respondia à voz e emitia sons suaves conforme o humor de quem o tocava.
— Isso muda de acordo com o sentimento da pessoa? — Luna perguntou, fascinada.
— Sim. É um reflexo da intenção. Aqui, tudo se comunica por vibração.
— Incluindo... a gente?
Ele apenas sorriu.
Mas nem tudo era só leveza. Uma noite, enquanto observavam o céu novamente, Luna soltou uma pergunta que vinha martelando:
— Por que vocês se escondem? Por que não deixam que a Terra saiba que vocês existem?
Alion ficou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que pesa mais do que mil palavras.
— Porque já cometemos erros demais. Avançamos rápido. Usamos demais. Criamos mais do que conseguimos sustentar. Já fomos barulhentos como os humanos são hoje. E um dia... paramos. Antes que Marte virasse apenas pó e culpa.
Ela ficou em silêncio também. O som dos cristais vibrava baixinho ao redor, quase como uma canção triste.
— Então vocês se reinventaram?
— Ainda estamos tentando. E é por isso que é tão perigoso sermos descobertos. Não estamos prontos para repetir os erros... nem para vê-los acontecer de novo.
Luna assentiu. Seus olhos se perderam nas estrelas por um instante. Depois, virou-se para ele com um sorriso suave:
— Mas você... você me encontrou. Mesmo com tanto silêncio ao redor.
— E você me escutou — ele respondeu.
A conexão entre os dois parecia mais forte a cada dia. Mas também mais frágil diante do inevitável.
Ainda havia tempo, é claro. Mas pela primeira vez, eles começaram a guardar momentos como quem recolhe estrelas num frasco.
E lá, em meio às batidas suaves, cristais pulsantes e palavras inventadas, o amor deles ia tomando forma — não como um cometa que passa e se vai, mas como uma nova órbita, em construção.