Luna acordou com um cheiro delicioso. O que era, exatamente, ela não sabia. Tinha um leve toque adocicado, uma pitada de especiarias e algo que lembrava… torradas com personalidade. — Alion? — ela chamou, saindo do quarto improvisado da base, ainda com os cabelos emaranhados como se tivesse brigado com o travesseiro e perdido.
— Bom dia! — disse ele, surgindo da cozinha como um chef intergaláctico, usando um avental feito de uma fibra orgânica que mudava de cor de acordo com a temperatura. Estava rosa-claro.
— Preparei o que acredito ser o equivalente marciano a um brunch de domingo. Baseado, é claro, em 217 vídeos culinários humanos e na sua expressão de alegria ao mencionar “panquecas com café forte”.
— Você é um gênio. Levemente assustador, mas, um gênio.
A mesa estava posta com cuidado exagerado. Pequenas frutas de cor violeta pulavam levemente no prato, como se estivessem dançando de empolgação (ou tentando fugir do destino). Havia uma bebida fumegante num copo que parecia ter sido esculpido por bolhas de sabão solidificadas.
— Isso é seguro? — ela perguntou, apontando para o líquido cintilante.
— Estatisticamente, apenas 3% das pessoas apresentam efeitos colaterais temporários. Como leve telepatia ou voz de soprano por meia hora. Mas... é bem gostoso.
Luna riu e decidiu arriscar.
— Por você, alienígena charmoso, eu aceito até falar em falsete.
A primeira garfada foi uma experiência sensorial. A segunda foi interrompida por um acidente digno de um filme mudo: Alion, ao tentar servir mais da bebida, esbarrou no recipiente, que tombou com elegância diretamente no colo de Luna.
— Ah não! Eu juro que fiz o cálculo da estabilidade da mesa!
— Sim, mas esqueceu de incluir sua própria trapalhada na equação kkk.
Ela levantou, pegajosa, mas rindo. O líquido começava a emitir um som suave, como um pequeno coral cantando “oops”.
— Alion, sua bebida está me pedindo desculpas?
— É parte da composição. Vibra em arrependimento quando derramada.
— Isso é... brilhante. Quero uma dessas para a minha mesa de trabalho quando eu voltar à Terra.
Depois de um banho rápido (com direito a uma ducha de névoa cintilante que secava sozinha em 7 segundos), Luna voltou à sala onde Alion tocava um instrumento marciano que parecia uma mistura de harpa e polvo.
— Você estava tentando tocar “Garota de Marte”?
— Eu estava improvisando com base no seu humor vibracional. Mas agora parece que você está... animada?
— Estou. É um domingo em Marte, fui batizada por uma bebida que canta e meu namorado intergaláctico é um desastre culinário adorável.
— Namorado? — ele perguntou, olhando por cima dos óculos tortos.
Ela parou por um segundo. Sorriu.
— Bom... se quiser o cargo, está oficialmente convidado.
Alion pensou por um segundo e respondeu com um leve tom de seriedade dramática:
— Aceito. Mas exijo cláusulas interplanetárias de cafuné obrigatório e permissão para cometer erros com elegância.
— Fechado. Com adendo: o cafuné é diário. E o charme atrapalhado é cláusula irrevogável.
Riram juntos, naquele domingo leve e brilhante, em um planeta que parecia inóspito para todos — menos para dois corações que, teimosamente, tinham encontrado um ritmo só deles.