Luna nunca achou que calçaria um “tênis bioluminescente”, mas ali estava ela, seguindo Alion por um corredor de pedras lisas que pareciam piscar sob seus pés. A trilha, escondida atrás de uma das paredes da caverna-base, só aparecia quando tocada com um som específico. No caso, Alion cantarolou três notas afinadas como um sino de cristal.
— Esse lugar não consta no mapa da missão, certo?
— perguntou Luna, já sabendo a resposta.
— Claro que não. Tecnicamente, ele só existe quando alguém deseja realmente compartilhar algo íntimo.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Isso foi uma cantada metafísica?
— Sim. E funcionou?
— Infelizmente, sim.
Os dois riram, e seguiram pela passagem sinuosa até que ela se abriu para um espaço natural de tirar o fôlego: um jardim subterrâneo.
Flores de luz suave flutuavam no ar, parecendo respirar. No chão, raízes cintilavam sob uma camada fina de água translúcida, e o som ambiente era como se o planeta inteiro estivesse sussurrando em harmonia.
— Isso aqui é real?
— Sim. E vivo. Essas plantas fazem parte da nossa história. Tudo aqui pulsa com memórias — explicou Alion, tocando uma flor que emitiu uma nota suave. — Elas crescem com os sentimentos dos que passam. Cada cor, cada som, é uma lembrança cristalizada.
Luna se abaixou para tocar uma pétala que parecia feita de luz líquida.
— E o que você quer me mostrar aqui?
Alion apontou para o centro do jardim. Um tipo de cristal flutuava, envolvido por raízes que pareciam proteger seu brilho interno. Ao se aproximarem, o cristal mudou de cor, refletindo tons de azul e dourado — exatamente os tons dos olhos dela e da pele dele.
— Isso… isso é novo, não é?
— Sim. Ele se formou depois que você chegou. Ela ficou em silêncio. Havia algo de mágico ali. Uma espécie de poesia viva que nem mesmo sua mente engenheira conseguia decifrar. Então ele continuou:
— Esse lugar é um santuário. Marcianos costumavam vir aqui para declarar vínculos profundos. Não há casamentos como vocês fazem. É mais… uma conexão ancestral.
— E você me trouxe aqui porque…?
— Porque minha conexão com você já está enraizada aqui. Literalmente.
Luna sorriu, tocando a base do cristal. Ele emitiu uma nota suave — e desafinou.
— Ops! — ela disse, rindo. — Acho que minha mão está com interferência emocional. Talvez seja o frio. Ou a vontade de te beijar de novo.
Alion arregalou os olhos por trás dos óculos.
— Por favor, use essa desculpa sempre que quiser. E ali, no centro de um jardim secreto e vibrante, com raízes de luz e memórias pairando no ar, os dois se beijaram novamente — como se o planeta inteiro respirasse com eles.