O céu marciano parecia mais estrelado naquela noite. Talvez fosse o clima, talvez fosse o peso no peito de Luna. Sentada ao lado de Alion sobre uma pedra lisa que vibrava suavemente sob eles, ela segurava uma xícara orgânica que emitia um som parecido com uma batida de coração. A bebida no interior mudava de cor conforme seu humor.
— Azul arroxeado — comentou Alion, espiando o líquido.
— Você está pensativa. — Ou com vontade de chocolate.
Ele riu, mas depois ficou em silêncio. O tipo de silêncio que vem acompanhado de um “a gente precisa conversar”.
— Faltam dois meses para o resgate — ela disse, mexendo na bebida com o dedo. — Meus colegas devem estar preparando a missão de volta. E eu ainda não decidi o que vou dizer.
— Sobre mim?
— Sobre tudo. Mas principalmente sobre você.
Ele olhou para o céu.
— Já imaginou o quanto vai ser difícil esconder um alienígena azul de porte atlético e tendências atrapalhadas?
— Já. E ainda assim... não consigo pensar em te deixar aqui como se isso tudo fosse só uma experiência científica.
— Seria um ótimo nome para um romance: “Experiência Científica nº 482 – Como Me Apaixonei por Um Extraterrestre”.
Luna sorriu com uma pontinha de tristeza.
— Alion… já pensou em ir para a Terra?
Ele coçou a cabeça, um hábito que havia aprendido com ela, e respondeu:
— Várias vezes. Mas sempre tive medo de parecer... inadequado. Vocês têm regras estranhas. Tipo, usar calças apertadas. E usar "biscoito" e "bolacha" para brigar por nada.
— Isso é parte do charme.
— E se eu não conseguir me encaixar?
— Você se encaixou aqui — ela disse, tocando o ombro dele.
— Comigo. No meio do caos que é minha vida. Acho que o mundo pode lidar com você, Alion. Desde que venha com um disfarce convincente.
— Algo como... um professor estrangeiro de música experimental com problemas de coordenação motora?
— Perfeito. Desde que não derrube café em ninguém na primeira semana.
— Prometo nada.
Os dois riram, mas havia verdade no fundo da conversa. A ideia de Alion na Terra parecia absurda... e ao mesmo tempo tão possível quanto o fato de eles estarem juntos ali, em Marte.
— Podemos começar a planejar — ela disse por fim. — Pensar em um jeito de te levar sem que ninguém perceba.
— Você quer mesmo me levar?
— Alion… eu já te levo comigo desde o primeiro “oi” desafinado. Ele olhou para ela com um sorriso lento, daquele tipo que se instala sem pressa, como quem sabe que o futuro está chegando — mas não tem pressa, porque o presente já é mágico o suficiente.
— Então tá decidido. Missão: Alienígena Secreto na Terra começa agora.
E enquanto planejavam a coisa mais absurda e doce de todas, uma estrela cadente riscou o céu. Luna fechou os olhos e fez um pedido simples:
Que esse plano maluco funcione.