— Ok, vamos começar do início — disse Luna, cruzando os braços com expressão séria. — Nome?
— Alion.
— E sobrenome? Você precisa de um. Humano.
Alion franziu a testa, pensativo. Olhou ao redor como se buscasse inspiração nas pedras vibrantes e na luz alaranjada do céu marciano. Então, com um leve sorriso no rosto, respondeu:
— Alion Monteverde.
Luna piscou, surpresa com a sonoridade inesperadamente charmosa.
— Uau. Isso foi... surpreendentemente bom. De onde tirou?
— “Monte” vem das elevações naturais da Terra. E “verde” porque é sua cor favorita. Pelo menos é o que suas roupas indicam.
— Você repara nas minhas roupas?
— Reparo em tudo em você, Luna. Inclusive nos padrões de escolha de meias.
Ela riu e balançou a cabeça, sem conseguir decidir se estava mais encantada ou impressionada.
— Ok, senhor Monteverde. Agora... o sotaque.
— Certo. O que é um... sotaque?
Luna suspirou com paciência fingida e pegou o tablet improvisado que Alion havia construído com cristais orgânicos e uma tela gelatinosa.
— É o jeito como se fala. Algumas pessoas puxam mais as vogais, outras falam rápido, outras cantam as palavras... tipo você, às vezes.
— Ah, como quando eu disse que “vibraria o alimento para digestão emocional”?
— Isso. Era sopa, Alion.
— Ainda acho que vibrar sopa é mais poético.
Começou então o treinamento intensivo. Ela mostrava vídeos curtos, gravados antes do acidente da missão, e fazia Alion repetir frases populares.
— Repete comigo: “E aí, beleza?”
— “E aí, be-le-zaaaa?”
— Ok, parece que você está vendendo perfume em uma rádio dos anos 50. Tenta de novo, menos entonação de novela mexicana.
Ele tentou mais duas vezes, falhou com classe, e terminou dizendo “beleza” como se fosse um ritual místico. Luna precisou respirar fundo para não rir tão alto que acordasse as rochas ao redor.
Quando chegou a hora das roupas humanas, a situação piorou — ou melhorou, se o objetivo fosse montar uma comédia.
Luna havia trazido algumas peças da missão original: camisas largas, calças jeans e até um boné da NASA.
— Isso vai me disfarçar?
— Vai te fazer parecer um turista perdido em São Paulo nos anos 2000. O que é ótimo, porque ninguém suspeita de um turista perdido.
Alion tentou vestir a calça pela cabeça. Depois, ficou com os dois braços presos nas mangas de uma camisa e só conseguiu se livrar depois de derrubar uma xícara orgânica que começou a cantar “desculpa” em tons menores.
— Isso é desconfortável. Parece que minhas pernas estão sendo julgadas.
— Seja bem-vindo à moda terráquea.
Após um desfile improvisado — que envolveu um boné usado ao contrário, um par de meias nos cotovelos e um momento em que ele tentou entender o propósito de um zíper —, Luna declarou:
— Ainda falta muito, mas você seria um ótimo figurante de série indie.
— Quer dizer que estou pronto?
— Quase. Ainda temos que trabalhar no contato visual, parar de cumprimentar plantas e não chamar a comida de “matéria emocional ingerível”.
— Posso dizer que sou artista. Isso explica muita coisa.
— Incontestável.
Sentaram-se sobre uma pedra que vibrava baixinho, como se estivesse rindo com eles. O céu de Marte piscava em tons suaves. Era absurdo, improvável, lindo.
— Vamos dar um jeito — disse Luna, apoiando a cabeça no ombro dele.
— Missão: Alienígena Secreto na Terra?
— Em andamento.
E ali, entre tropeços em roupas terráqueas, frases fora de contexto e gargalhadas contidas, o impossível começava a parecer... simplesmente possível.