O céu de Marte parecia mais limpo naquela manhã. Talvez fosse só impressão de Luna, ou talvez o planeta soubesse que era o último dia dela ali — pelo menos, por um tempo. As rochas brilhavam com uma luz suave, e até as pedras vibratórias, normalmente aleatórias, pareciam emitir uma harmonia delicada. Tipo um “tchau” silencioso.
Ela olhava para o pequeno módulo de resgate que havia sido enviado dias antes pela missão terrestre. Estava camuflado em uma cratera próxima, esperando o momento exato para acioná-lo. Tudo estava cronometrado, calculado e tecnicamente perfeito. Exceto, talvez, seu coração.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntou Alion, parado ao lado dela com as mãos atrás das costas.
— Voltar para casa ou te deixar aqui parecendo um figurante de videoclipe dos anos 90?
— Ambas as coisas.
Luna sorriu, virando-se para encará-lo. Ele estava vestindo as roupas humanas “oficiais” — jeans, tênis e uma camisa que dizia “I need space”, que ela havia achado hilária no contexto. O boné da NASA estava levemente torto, e ele não tinha percebido.
— A missão está completa. Eu preciso reportar. Se eu sumir por mais tempo, a NASA vai achar que fui abduzida.
— Tecnicamente, você foi.
— Detalhes — respondeu ela, rindo. Ele estendeu a mão, revelando um pequeno objeto. Parecia uma pedra polida, mas emitia uma vibração sutil e musical.
— Isso é um tradutor orgânico. Vai manter nossa comunicação mesmo a longas distâncias. E serve de pingente também. Humanos gostam de acessórios simbólicos, certo?
— Só os que têm bom gosto. Eu adorei.
Ela o colocou no pescoço, e no instante em que o cristal tocou sua pele, ele emitiu uma nota suave. Parecia um "até logo" cantado.
— Você vai conseguir manter segredo? — ele perguntou, sério agora.
— Vou. Mas... e você? Vai conseguir se manter longe das câmeras de segurança?
— Já estou treinando meu lado esquerdo. Ele é menos fotogênico.
Ela riu, emocionada. O tempo parecia correr mais rápido agora, como se Marte estivesse empurrando delicadamente seus ombros, sussurrando: vai, mas volta.
— A missão de resgate começa em menos de uma hora. Eu tenho que ir.
— Eu sei. — Ele hesitou. — Posso acompanhar até a entrada da cratera?
— Claro. Só não tropece em nenhuma planta orgânica no caminho. Não quero que você se despedace como um vaso de cerâmica no fim.
— Se isso acontecer, minha última palavra será: estiloso.
O caminho até a cratera foi curto, mas cheio de pequenas memórias. Ela olhava ao redor e se lembrava dos passeios, das conversas, da primeira vez que ele tentou cozinhar algo e acidentalmente criou um tipo de mousse que... cantava.
Na entrada da cápsula, ela virou-se para ele. O silêncio entre os dois era denso, mas não triste. Era como a pausa entre duas músicas boas. — Você vai vir mesmo? — ela perguntou.
— Claro. Mas não como Alion Monteverde ainda. Preciso preparar minha “carta de apresentação”.
— E identidade falsa, CPF, conta em banco...
— Já entendi que ser humano é muito mais burocrático do que pensei.
Ela sorriu, inclinou-se e encostou os lábios nos dele. Foi um beijo calmo, cheio de promessas silenciosas e vibrações quase musicais ao redor. As pedras próximas reagiram com uma melodia discreta, como se o planeta inteiro aprovasse.
— Até logo, senhor Monteverde.
— Até breve, engenheira dançante.
Luna entrou na cápsula, respirou fundo e deu o último aceno. A porta se fechou com um som suave. Pela pequena janela, ela ainda o viu tropeçar em uma raiz viva e fingir que era parte da coreografia. Claro que ele faria isso.
Enquanto a cápsula decolava e se afastava da superfície, Luna não sentia que estava indo embora. Sentia que estava começando a próxima etapa de algo... extraordinário.
E do outro lado do universo, um alienígena azul de olhos atentos já começava a planejar sua visita à Terra.