O módulo que o trouxe Alion, pousou sem alarde numa clareira cuidadosamente escolhida. Era o tipo de lugar onde nem o Google se arriscava com o Street View. Isolado, discreto e com uma quantidade assustadora de esquilos que, aparentemente, achavam que a nave era uma noz moderna. Luna chegou com o coração acelerado. Era quase surreal vê-lo de novo — dessa vez, sem traje espacial, sem vidro entre eles, sem tempo contado. Era só... ele. Em pé, no meio do mato, com um moletom roxo, calça mostarda e um par de óculos escuros grandes demais para o formato de seu rosto.
— Eu tentei me vestir como um "homem moderno com estilo casual", segundo a base de dados visual que você me mandou.
— Você parece um artista conceitual dos anos 90 que se perdeu a caminho de um festival de jazz.
— Então estou dentro do esperado.
Ela o abraçou com força. O cheiro dele era familiar: um misto de minerais aquecidos, folhas e... algo quase como lavanda cósmica.
— Como foi a viagem?
— Tranquila. Salvo um momento em que meu sistema orgânico de aterrissagem pensou que um tronco era um ponto de apoio. Tenho um arranhão e um novo respeito pelas árvores. — Normal. Aqui na Terra elas também gostam de surpreender a gente.
No caminho até o carro, ele examinava tudo com olhos encantados. Apontou para um poste de iluminação pública:
— Esse ser emite luz noturna. Ele é do clã dos vigias?
— É... algo assim. Ele só ilumina, não te julga.
Chegando ao carro, Alion tentou abrir a porta do lado do motorista, confundindo os lados novamente.
— Ainda estou me adaptando à noção de “direita e esquerda”. No meu planeta usamos referências como “direção do sopro estelar” e “curva do musgo”.
Luna riu alto.
— Na Terra é bem mais confuso, pode acreditar.
Chegaram em casa sem grandes incidentes — exceto pelo momento em que Alion apertou a campainha seis vezes seguidas porque a melodia “era hipnoticamente ritmada”. Luna quase o empurrou para dentro.
— A ideia é não parecer que estamos invadindo o lar, tá?
— Mas o som... parecia me chamar.
Ele olhou o apartamento com olhos fascinados, tocando cada coisa como se fosse arte viva.
— Esta é a sua nave doméstica? Tem uma vibração acolhedora... e cheiro de café e música.
— É meu santuário. Aqui ninguém vai te encontrar. Nem te julgar por escolher essa calça.
Instalado no sofá, Alion pegou o controle remoto com o entusiasmo de quem achou um artefato lendário. Apertou um botão e a TV ligou direto em um reality show culinário.
— Essas pessoas estão discutindo porque o purê de batata está emocionalmente mal resolvido?
— Basicamente. A TV é assim: drama com carboidrato.
Enquanto tomavam chá — que ele virou no colo tentando descobrir “o tempo exato em que ele atinge o ponto de prazer térmico” — Luna suspirou, feliz.
— Você chegou, Alion. Estamos juntos. Na Terra. No meu lar.
Ele sorriu, o rosto azul iluminado pelas luzes suaves da casa.
— E pela primeira vez em ciclos, sinto que estou... onde deveria estar.
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Agora as estrelas estavam do lado de fora da janela. E eles estavam juntos, cercados por travesseiros, livros de cultura terrestre e um gato holográfico que Alion jurava ter adotado sem querer por baixar um aplicativo de meditação.