— Alion... respira. São só meus amigos. Seres humanos normais, com estômagos, sorrisos e um péssimo gosto musical.
— Isso não tranquiliza.
Luna arrumava a gola da camisa dele. Uma peça social escolhida com extremo cuidado após uma análise de três dias dos catálogos de moda humana. Ele ainda parecia um modelo escandinavo vindo de uma conferência sobre sustentabilidade emocional — mas o importante era: passar por humano.
— Lembre-se: você se chama Alion Camaleone agora. Troquei o sobrenome nos seus documentos.
— Certo. Camaleone. Adaptável. Relevante. E soa como... um prato com molho.
— Vai encaixar perfeitamente.
O jantar era na casa de Paula, amiga de Luna desde os tempos de faculdade. Ambiente descontraído, luzes baixas, música ao fundo e uma mesa cheia de gente pronta para julgar — discretamente, claro. A trupe incluía:
Paula, chef e especialista em microexpressões;
Jonas, apaixonado por ficção científica (irônico, considerando...);
E Carla, que sempre achava que “já viu aquela pessoa em algum lugar”. Logo ao chegar, Alion fez uma reverência leve e disse:
— Boa noite, habitantes adoráveis deste núcleo social.
Luna riu nervosa. Paula piscou. Jonas pareceu confuso. E Carla inclinou a cabeça.
— Você é de onde mesmo?
— Da região montanhosa ao norte da península... do sul — respondeu ele, com convicção suficiente para enganar até um detector de mentiras.
Na hora de sentar, Alion tropeçou levemente na cadeira, quase derrubando a salada.
— Gravidade instável neste setor — murmurou, antes de sorrir como se tudo fosse ensaiado.
Durante o jantar, Jonas não resistiu.
— Você parece bem informado... o que acha das teorias sobre vida inteligente em outros planetas?
Alion apertou os lábios.
— Inteligente é relativo. Mas se existirem, espero que saibam fazer um bom chá.
Luna chutou de leve sua perna sob a mesa. Ele piscou em resposta, como se isso fizesse parte de um protocolo secreto.
Mais tarde, ao tentar cortar um pedaço de carne com a faca invertida, o talher escorregou, voou da mão dele e caiu direto no copo de Carla, que estava — claro — cheio.
— Ótimo. Agora sou uma aquarela de vinho tinto — disse Carla, resignada.
— No meu planeta isso seria visto como um sinal de sorte e renovação emocional — improvisou Alion, oferecendo um guardanapo com extrema gentileza.
No fim, entre a leve catástrofe líquida e algumas metáforas sobre batatas assadas que “revelam sua verdadeira identidade no calor”, Alion conseguiu conquistar todos. Especialmente Jonas, que terminou a noite dizendo:
— Cara, você é... único. Tipo, mesmo. Sinto que a gente ainda vai descobrir algo grande sobre você. Luna quase engasgou com o vinho. Alion apenas sorriu e respondeu:
— Espero que seja algo... encantador.
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Mais tarde, em casa, ele deitou no sofá e suspirou.
— Missão social completada. Índice de gafes: médio. Aceitação: alta. Talheres: traiçoeiros.
— Você foi perfeito. E agora todos acham que você é um artista alternativo em reabilitação espiritual.
— Excelente disfarce. Posso manter? — Por quanto tempo quiser.
Eles riram juntos, enrolados em uma manta, enquanto o mundo dormia — sem saber que, naquela sala, havia um alienígena tomando chá com sua amada e se perguntando como a Terra conseguia ser tão confusa... e tão linda ao mesmo tempo.