Luna estava sentada na sacada, pés descalços, café na mão, o céu começando a escurecer. Um daqueles entardeceres mágicos em que o azul desmaia em rosa e a cidade parece suspirar junto. Ela balançava o pé no ritmo de uma música pop dançante que tocava baixinho no celular. E foi aí que Alion entrou pela porta da varanda com uma expressão que misturava nervosismo, concentração e... purpurina?
— O que você aprontou? — ela perguntou, desconfiada.
— Eu estive... arquitetando. Algo importante. Precisei da ajuda de três drones, duas plantas sensoriais e um vendedor de balões.
— Isso está soando perigosamente como algo que termina com a gente explicando tudo para os bombeiros.
Ele respirou fundo. Ou fez o que, na fisiologia dele, equivalia a isso. Tocou um pequeno objeto orgânico no pulso e, em segundos, a sacada se transformou.
Cristais translúcidos emergiram discretamente nos cantos, emitindo uma luz suave que mudava com o tom do céu. Pequenos globos flutuantes (claramente orgânicos — tinham textura de pétalas e uma curiosa tendência a ronronar) começaram a emitir vibrações musicais. Uma trilha delicada e dançante, com ritmo de coração apaixonado.
— Uau... isso é...
— Ainda não acabou — disse ele, agora claramente suando (ou transpirando luz, como ele chamava). Com um movimento teatral, ele fez surgir um pequeno cubo iridescente flutuante.
— Essa é a caixa? — Luna perguntou. — Você vai me pedir em casamento com um dado mágico?
— Não é um dado mágico. É um emulador de atmosferas sentimentais. Quando você tocar, ele mostrará momentos nossos... registrados através da minha percepção orgânica.
Luna, com o coração já derretido, tocou o cubo.
Imagens etéreas começaram a se formar no ar. O primeiro olhar entre eles, o momento do primeiro chá, a noite do primeiro beijo sob os cristais... e, é claro, o jantar com os amigos em que Alion quase destruiu um copo com uma faca voadora.
Quando a sequência terminou, o cubo se abriu, revelando um anel feito de um metal que parecia líquido congelado — com um pequeno cristal azul pulsando como uma batida.
Alion se ajoelhou. De verdade. Mesmo com um joelho visivelmente incômodo por causa da “dobradiça sensível”. — Luna... Engenheira do impossível, dançarina de jazz solar, mulher que me fez rir até emitir sons vergonhosos pela narina secundária... Você aceita se casar comigo?
Ela arregalou os olhos, depois mordeu o lábio. Queria responder com graça, mas tudo o que saiu foi:
— Você... você ensaiou isso?
— Por três semanas. Inclusive com o gato holográfico.
Ela riu. Riu com o corpo todo. E então disse, com um sorriso que parecia uma explosão de constelações:
— Sim, Alion. Sim, mil vezes sim.
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Naquela noite, enquanto o céu acima piscava cúmplice e os cristais vibravam um dueto romântico, Luna e Alion se abraçaram com força. Ele derrubou o chá no processo. Ela limpou com um riso. E, como sempre, estavam perfeitamente imperfeitos. O amor deles era isso: um desastre leve, dançante, e completamente fora de órbita.