ATO I: A mata chama pelo primeiro nome
Naquele início de tarde, Lucas saiu de casa às pressas, o coração batendo como se carregasse um segredo. Encontraria Marcos e Gabriel no cruzamento da estrada velha, de onde seguiriam juntos até o acampamento às margens do Rio das Rochas; um lugar que, segundo os moradores, devia continuar esquecido.
As enchentes recentes haviam engolido trilhas, arrancado árvores e deixado marcas nas pedras, como se unhas gigantes tivessem tentado escalar as rochas e sair das profundezas das águas.
Mas nenhum deles se importou com os alertas. Só queriam uma noite de diversão longe dos olhares dos adultos.
Tudo estava saindo como o combinado. Cada um contou uma mentira diferente para escapar da vigilância dos pais. Gabriel disse que dormiria na casa de Lucas; Marcos nem precisou pedir, apenas deixou um bilhete avisando que passaria o fim de semana estudando na casa de Gabriel; e Lucas, o mais ousado, garantiu aos pais que ficaria na casa de Marcos.
Nenhum adulto desconfiou, e o plano parecia perfeito.
Após seguirem pela estrada de chão deserta, empurrando-se mutuamente, os três entraram por uma abertura na mata que levava à trilha.
Caminharam por mais alguns minutos até encontrar um local perfeito para acamparem: longe o bastante da estrada para se sentirem livres, perto o suficiente do rio para ouvir a correnteza e não tão fundo na mata a ponto de se perderem.
Enquanto Lucas e Marcos montavam a barraca e riam ao lembrar da última festa de Halloween na casa da Mariana, um cheiro úmido de terra e o som pesado do rio lá embaixo se misturavam no ar, dando àquela tarde um pressentimento estranho.
Gabriel, o mais impaciente dos três, levantou-se com um olhar distraído, como quem preferia não participar daquele assunto. Pegou o canivete e disse que iria buscar gravetos para acender a fogueira.
O jovem mal havia entrado pela trilha e sumiu entre as árvores, o som dos passos sendo lentamente engolido pela mata.
Por um tempo, Lucas e Marcos ainda ouviram o estalar de galhos lá dentro.
— O Gab deve estar morrendo de medo de ficar sozinho — comentou Marcos, rindo feito uma hiena.
Ao poucos, porém, o eco dos passos do jovem se distanciou até desaparecer.
Então o silêncio tomou conta do ambiente. Só se ouviam as folhas balançando ao vento, nem os pássaros ousavam cantar naquela área.
Os dois continuaram trabalhando na barraca, rindo e resmungando por causa do vento frio, sem perceber que a conversa começava a soar fora de lugar.
Pouco a pouco, o riso se apagou.
A quietude se adensava na floresta, ocupando cada fenda de ar, cada respiração.
A escuridão descia devagar, tingindo o céu de um azul sujo.
Lucas olhou para o relógio. O ponteiro parecia preso; o tempo, anestesiado. Depois olhou para a trilha, preocupado.
— Ele tá demorando, né? — disse Marcos, tentando rir, mas o som que saiu de sua boca pareceu morrer antes de se formar.
— Deve ter se enfiado lá no meio — respondeu Lucas, embora sua voz já soasse distante de qualquer calma.
Os dois se entreolharam, um gesto breve, mas suficiente para entenderem o que o outro pensava.
Pegaram a lanterna na barraca e caminharam até a entrada da trilha.
Ali, pararam.
O vento sussurrava entre as folhas e a mata parecia prender a respiração.
Chamaram por Gabriel… uma, duas, três vezes.
O som do nome correu pelos galhos e voltou em pedaços, como se o eco também tivesse receio de atravessar o escuro.
Nenhuma resposta.
Um vento frio soprou das entranhas da mata, trazendo consigo um cheiro de madeira verde queimada.
O farfalhar das folhas se misturava a um rumor distante, talvez troncos arrastados pela correnteza... talvez algo mais.
No mesmo instante, os dois se entreolharam e compreenderam, sem dizer palavra, o que precisavam fazer. Entraram na trilha, e a luz da lanterna abria fendas estreitas entre os troncos, como se rasgasse o escuro à força.
A cada passo, o silêncio parecia tomar forma, respirando, escondido entre as árvores.
Foi então que o estrondo veio. Um som seco, profundo, que rompeu o ar como se a floresta inteira tivesse batido o coração ao mesmo tempo.
Lucas, que seguia à frente, ergueu a lanterna num gesto instintivo, procurando uma direção, qualquer direção.
Marcos, trêmulo, gritou para que Gabriel parasse, ainda certo de que o amigo lhes pregava uma peça.
Mas a luz vacilou. A lanterna pulsou fraca entre os dedos de Lucas, como se o ar ao redor lhe sugasse a energia. Piscou uma vez, depois outra, e apagou de vez.
O escuro caiu sobre ele de forma súbita: um pano pesado, abafando até o som do vento. O jovem sacudiu o objeto, bateu contra a palma da mão, e a luz retornou em um clarão breve, o suficiente para revelar o vazio à sua volta.
Agora nem mesmo Marcos estava mais ali.
Assustado, por estar sozinho, girou o facho de luz em todas as direções, chamando pelos amigos. A própria voz voltou diluída, misturada ao ruído do mato, sem origem certa.
Ele correu alguns passos, tropeçando em raízes, o coração em ritmo desgovernado, mas o caminho parecia diferente: estreito, torto, como se tivesse se movido quando a escuridão o cobriu.
Gritou de novo. A lanterna falhou mais uma vez e, por um instante, ele acreditou ouvir passos atrás de si. Eram leves, compassados, imitando os seus.
Virou depressa. Nada.
A luz voltou do nada, e o vazio pareceu mais vivo.
A cabeça latejava de dor, os tropeços nas raízes o haviam atordoado. Tentou respirar fundo, porém, sentiu um cheiro estranho no ar. Parecia pele sendo queimada ou cabelo sendo queimado.
Deu mais um passo, desesperado e gritou por Gabriel e Marcos, mas o barulho da água cresceu ocultando seus gritos.