ATO II: O círculo deve ser fechado
Marcos abriu os olhos. O corpo pesava, e por um instante ele não soube onde estava. A visão custava a se ajustar à penumbra. O som do rio batendo nas pedras chegava nítido e próximo, como se ele tivesse adormecido à beira da correnteza. Piscou algumas vezes, a cabeça girando, tentando recobrar os sentidos. Chamou por Lucas, mas a voz saiu fraca, engolida pelo zumbido dos insetos. O frio o estremeceu.
Lentamente, percebeu estar sozinho, e que o silêncio ali parecia escutar mais do que ele próprio podia dizer.
Pelo cheiro úmido da terra e o rumor da água, deduziu que o rio estava próximo. Precisava alcançá-lo, mas não tinha nenhuma luz. Mesmo com o brilho fraco da lua, temeu se perder ainda mais se avançasse.
Foi então que ouviu o farfalhar de folhas e galhos atrás de si. Virou-se rápido, o coração subindo à garganta. Entre os troncos, uma claridade pálida tremulava. Reconheceu o cheiro: fumaça.
— Não pode ser o Lucas, ele jamais conseguiria acender fogo sozinho — sussurrou.
Mesmo hesitante, começou a caminhar. Os pés se moviam mais rápido do que a razão permitia. A cada passo, o brilho se intensificava até revelar o fogo à frente.
Aproximou-se devagar, e entendeu que não era uma fogueira comum. As chamas pareciam vivas, imóveis, queimando sem crepitar, e não soltavam fumaça. Embora o ar inteiro cheirasse.
Ao redor dela, um círculo traçado com algo branco, talvez areia… ou sal. Brilhava sob o reflexo alaranjado das labaredas. Do lado de fora, três pequenos montes de pedras ornamentadas formavam um triângulo perfeito, guardando o fogo como sentinelas antigas.
A poucos centímetros dali algo sob as folhas refletiu a luz. Marcos se aproximou, hesitante. Abaixou-se e afastou as folhas com a ponta dos dedos.
Era o canivete de Gabriel. A lâmina estava úmida, coberta de sangue fresco.
O coração martelava no seu peito. Ele arregalou os olhos e soltou o objeto, que caiu com um estalo seco. Tentou respirar, mas o ar parecia grosso, pesado. Estava prestes a correr quando ouviu um som de murmúrios atrás de si. Eram vozes, sussurros, ou talvez apenas o vento.
Virou-se de súbito. Diante dele, um espelho de moldura antiga surgia entre as árvores, como se sempre tivesse estado ali. A madeira era escura, entalhada com flores e folhas retorcidas. Marcos aproximou-se devagar, tomado por uma curiosidade involuntária.
Mas o espelho não refletia sua imagem. Apenas as labaredas e o vazio da mata.
Confuso, olhou por sobre o ombro, certificando-se de que não havia nada atrás dele. Quando voltou a olhar, o espelho devolvia uma figura: Gabriel, imóvel, parado no lugar de seu reflexo.
A respiração de Marcos falhou. A mão trêmula se ergueu, tocando o vidro. Do outro lado, a imagem repetiu o gesto.
As mãos dele tremiam tanto que o espelho pareceu vibrar. O medo cresceu, descontrolado, até os olhos se encherem de lágrimas.
Então, a imagem começou a mudar. Gabriel se desfazia, dissolvendo-se num brilho enevoado. No lugar, o próprio reflexo de Marcos se formava, mas não era um reflexo comum. A figura no espelho movia-se de forma independente, viva, contorcida, como se respirasse em outra frequência.
A superfície se agitou e, de repente, cenas familiares começaram a se projetar.
Era a festa de Halloween na casa da Mariana. Marcos reconheceu o som da música, as luzes coloridas... e as risadas. Tentou chamar alguém, mas ninguém parecia ouvi-lo. Então ouviu uma voz, alguém gritando: “Faltam quinze minutos para as onze”.
E ele se viu: Ele, Lucas e uma garota subindo as escadas.
O reflexo o conduzia pelo corredor até o quarto. A porta se fechava, e sons abafados tomavam o ar. Uma mistura de risadas, gemidos e as súplicas da garota. Marcos sentiu o estômago virar, ao escutá-la gritar para parar. O peso da culpa o esmagou de dentro para fora.
Uma força o puxou pelas pernas, e o chão o engoliu.
Marcos abriu os olhos, com o corpo em choque, deparou-se com Lucas sobre ele, sacudindo-lhe os ombros.
— Ei! Precisamos sair daqui — o outro sussurrou, com a voz firme. — Precisamos ir.
Ele piscou, desorientado, e assentiu:
— E o Gabriel? — ele murmurou, tentando se levantar.
— Não sei. Acho que ele… está morto.
— O quê?
— Eu não sei o que está acontecendo, mas achei a camiseta dele cheia de sangue ― disse Lucas , mostrando as mãos ensanguentadas.
Marcos o fitou, a respiração descompassada.
— O canivete dele estava aqui — disse, apontando para o chão.
Olhou ao redor: o objeto havia desaparecido. Tentou contar sobre o espelho, mas Lucas o interrompeu, incrédulo.
— Vamos sair daqui agora. Daí chamamos a polícia, nossos pais… e eles procuram pelo Gab.
— Vi uma coisa quando entrei num tipo de transe — insistiu Marcos. — Vi a festa da Mariana… vi o que a gente fez…
— Cala a boca! — cortou Lucas, os olhos arregalados. — A gente não fez nada. Aquela garota estava bêbada, eu só…
Ele engasgou com as próprias palavras. A chama da fogueira subiu, de repente, como se reagisse.
— Lu-Lucas… — gaguejou Marcos, apontando para trás dele.
Lucas se virou devagar. O espelho estava ali, erguido entre as sombras.
Não havia reflexo algum. Nenhum dos dois aparecia.
— Viu? Eu te disse! — gritou Marcos, aos prantos, empurrando o amigo.
— Como isso veio parar aqui? — balbuciou Lucas, tremendo.
— Não sei se era real, mas vi o Gabriel dentro dele ― ele respondeu, apavorado.
Um clarão varreu o vidro. O espelho se incendiou de luz, revelando o rosto de Gabriel com um corte profundo no pescoço.
Os dois recuaram, ofegantes.
— Lucas — murmurou Marcos, com a voz embargada — a avó daquela garota era uma bruxa. E se…
— Para com isso! — gritou o outro, tentando se convencer. — Isso é coisa da nossa cabeça!
— Olha o que está acontecendo!
Tentaram correr, mas algo entre o medo ou uma força maior, os manteve presos ao chão.
— É esse lugar… — balbuciou Lucas.
— Eu não deveria ter vindo!
— Nem eu! Minha mãe sempre dizia que essa área era amaldiçoada…
― Sei! Agora você acredita em fantasma?
― Cara, só quero ir embora daqui ― respondeu chorando.
― Talvez, se a gente ir à delegacia e confessar o que fizemos.
― Já mandei você calar a boca! Isso não tem nada a ver com aquilo que fizemos!
— Mas olha para essa fogueira… parece um ritual de bruxaria… pode ter sido aquela velha, como vingança… — respondeu Marcos, sem coragem de olhar para trás.
— Não! Aquela velha não é bruxa de verdade e você sabe disso! O Gabriel nem estava com a gente naquela noite, e mesmo assim desapareceu.
— Sei lá! Vai que ela achou que ele sabia… ou sei lá! Isso é bruxaria — Marcos disse, apontando para a fogueira.
Lucas não respondeu.
As chamas se contorciam dentro do círculo, e o reflexo do fogo dançava sobre o espelho como se tivesse vida própria.
De repente, algo atravessou a mente dos dois. Não eram lembranças comuns, mas imagens empurradas de volta, como se uma força antiga as arrancasse do fundo do esquecimento.
Lucas se viu novamente na festa de Halloween, como se a memória o tivesse puxado à força para dentro dela.
O som das risadas e da música ecoava distante, abafado, como se viesse debaixo d’água. Gabriel estava ao seu lado, sorrindo, falando sobre a garota por quem estava apaixonado. Depois, o via se afastar, sussurrando que a encontraria na praça.
Lucas lembrou de ter ficado na sala por alguns instantes, até que uma ideia tola o fez sair.
No pátio, sob a luz fraca dos enfeites alaranjados, chamara Ester, colega de turma e neta da velha conhecida como a Bruxa. Ela se virou, assustada. Lucas riu, dizendo que queria mostrar uma coisa.
Mas, na lembrança, o próprio riso soava estranho, como se pertencesse a outra pessoa.
Havia algo dissonante ali, algo que o espelho parecia querer devolver inteiro, sem o disfarce das memórias.
O fogo se moveu dentro do círculo, as labaredas curvando-se como se respondessem ao que viam.
O espelho estalou, e a mata pareceu respirar de novo, um suspiro lento, úmido, profundo.
A cena seguinte explodiu dentro da cabeça do jovem, que soltou a lanterna no chão.
Lucas e Marcos levavam Ester para o quarto. A porta se fechava atrás deles, e a maçaneta girava com um estalo seco.
Ele viu o que fez.
O corpo da garota resistia, os gritos se misturavam às súplicas, mas eles continuavam, cegos, rindo, como se o mal não tivesse peso.
Agora, diante do espelho, Lucas via a si mesmo e sentia enjoo. Aquilo que antes lhe parecera um momento distante, agora o devorava de dentro para fora.
Um puxão súbito o arrancou do chão. Marcos jazia ao seu lado, imóvel. Lucas tentou ajudá-lo, mas o corpo do amigo começou a se erguer, como puxado por cordas invisíveis.
Os olhos de Marcos tornaram-se brancos, e o corpo se contorceu em ângulos impossíveis.
Os estalos dos ossos quebrando ecoaram como galhos secos sob o peso de uma força invisível. Lucas não conseguiu gritar. Nem correr.
Marcos caiu de uma vez, o corpo desfeito no chão.
Um sussurro veio do espelho, baixo e arrastado.
Lucas virou-se, e algo frio passou por sua garganta.
A mão foi instintiva ao pescoço, e os dedos voltaram cobertos de sangue.
O reflexo, pela primeira vez mostrava sua imagem.
A visão ficou turva. Deu dois passos atrás, cambaleando, e caiu sobre a fogueira.
O cheiro de cabelo e pele queimando subiu como fumaça negra. Não pôde gritar, mas sentia a dor viva das chamas devorando cada parte de si.
Debatia-se, até que o corpo parou de se mover.
O silêncio que se seguiu pesava o ar.
O fogo se apagou, lentamente, e a mata mergulhou em um escuro absoluto.