ATO III: O que resta da noite
De repente, a lanterna no chão voltou a acender, projetando um facho fraco sobre o vazio.
Nem Lucas, nem Marcos estavam mais ali.
O solo parecia ter engolido tudo.
No lugar onde as barracas haviam sido montadas, restava apenas o silêncio, quebrado pelo som de passos vindo da trilha.
Gabriel surgiu entre as árvores, com as roupas rasgadas e o corpo coberto de sangue.
Seus olhos tinham um brilho confuso, de terror e descrença. Avançou cambaleante, olhou ao redor, e fugiu.
Correu sem olhar para trás. Atravessou a mata, caiu e levantou inúmeras vezes, até que a luz fria do asfalto surgiu à frente.
Na beira da rodovia, acenou desesperado para um caminhoneiro.
Pouco depois, sua família e a dos amigos chegaram, acompanhadas da polícia.
No hospital, Gabriel mal conseguia falar.
As palavras saíam truncadas, incoerentes, e os policiais atribuíram tudo ao trauma.
Disse apenas que haviam ido acampar escondidos, que se perdera, e que algo os perseguira na floresta.
Nada fazia sentido. Nenhum vestígio dos rapazes foi encontrado.
Duas semanas depois, as buscas por Marcos e Lucas foram encerradas. Enquanto Gabriel recebeu alta do hospital.
Na manhã de sua saída, uma visita inesperada apareceu na porta de seu quarto.
— Laura — disse, abrindo um sorriso cansado.
— Oi. Quis vir antes, mas meus pais não deixaram.
— Eles acham que eu fiquei louco?
— Não. Só havia repórteres por todo lado.
— Nem me fale — suspirou. — Só quero esquecer.
Ela segurou sua mão.
— Eu vim aqui para te agradecer.
— Pelo quê?
— Você sabe. Por provar que você não era igual a eles.
Gabriel abaixou o olhar.
— O que eles fizeram com sua prima... a Ester... não teve perdão — disse, com voz baixa. — Mesmo sendo meus amigos, agiram como monstros.
— E agora? — perguntou ela.
Gabriel aproximou-se. Abriu a palma da mão e mostrou uma marca em forma de corte, ainda recente.
— Quando fiz o ritual e invoquei o demônio, como combinamos, prometi entregar duas almas — sussurrou. — E entreguei. Acabou.
Os dois se entreolharam em silêncio.
E ali, entre o som distante dos passos no corredor e o cheiro de desinfetante, selaram um pacto.
Um pacto de silêncio.
Ambos juraram guardar o segredo até o fim dos tempos, um pacto selado não apenas com palavras, mas com o peso do próprio destino.