2 - BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A MELANCOLIA
2.1 - Resumo histórico
A representação da melancolia remonta à Antiguidade greco-latina. No canto VI da Ilíada (vv.200-203), Homero nos descreve o sofrimento de Belerofonte : o coração devorado pela mágoa , esse herói erra solitário entre os homens, vítima “de um exílio imposto por decreto divino” . Sua tristeza decorre de um mal obscuro, cuja causa ele desconhece; “Homero nos oferece uma imagem mítica da melancolia, onde a infelicidade do homem resulta de sua desgraça perante os deuses” . Impossível não ver já aí o nexo arbitrário, aparentemente inexplicável, que na melancolia relaciona a culpa e os atos humanos; Belerofonte não fez nada que justificasse tamanho sofrimento - muito pelo contrário: “ ... suas desventuras, seu primeiro exílio são devidos à sua virtude ...” . Com Hipócrates, a melancolia é associada à bile negra (melaina kole), ou atrabile , um dos componentes dos quatro humores presentes no organismo - sendo os outros o sangue, a bile amarela e a pituíta. Segundo o esculápio grego, a saúde consiste no equilíbrio entre essas substâncias; havendo o desequilíbrio, rompida a crase, manifesta-se a doença. Se a discrasia afeta a bile negra, o resultado é a “melancolia”, termo que designa tanto o humor presente em condições normais quanto a patologia decorrente de um tal desarranjo. O mal, pois, não é a bile negra, presente naturalmente no organismo - mas o seu excesso. Aristóteles é o primeiro a destacar os efeitos positivos desse humor, relacionando-o com o talento dos artistas e a reflexão dos filósofos. Para o estagirita, o humor negro é responsável pela tristeza, mas também o é pela inquietação que leva o indivíduo a criar. Mesmo na desordem, rompido o equilíbrio humoral, a atrabile não é de todo maléfica; essa desordem “... não ocorre sem vantagem; ela confere a superioridade de espírito, ela acompanha as vocações heróicas, o gênio poético ou filosófico.” Equilibrada pelo gênio, “...(a melancolia) é co-extensiva à inquietação do homem no Ser” . Retomando a teoria dos humores de Hipócrates, Galeno “...fixa a descrição e a definição da melancolia que farão escola...” por um longo tempo. Para ele, de acordo com a proveniência e a localização, a bile negra provoca diferentes sintomas ou tipos de melancolia: ela pode se localizar diretamente no encéfalo; pode atingi-lo indiretamente, pela disseminação em todo o organismo; ou pode incidir nos hipocôndrios, afetando o cérebro por exalações e vapores. A essas três possibilidades, Burton “... em 1621, (acrescenta) a melancolia amorosa (...) e a melancolia religiosa, doença mais moderna” . Por estas últimas designações, vemos que a teoria dos humores não descarta a possibilidade de uma etiologia psicológica - ou mais propriamente moral - da melancolia. Há casos para o médico e casos, mais brandos, para o filósofo, cabendo ao primeiro distinguir a natureza das manifestações e proceder ao encaminhamento adequado. É inútil apelar para as sangrias e para os banhos quando o mal afeta, primeiro, a alma. Nesses casos, de maior valia são as exortações morais e as consolações levadas a efeito pelo “psicoterapeuta” da época - o filósofo. Jean Starobinski transcreve uma das receitas ministradas por Sêneca ao seu amigo Quintus Serenus, vítima da insatisfação e da inquietude próprias do taedium vitae:
o mal que nos acomete não se encontra nos lugares onde estamos, ele reside em nós. Nós não temos forças para suportar seja o que for; somos incapazes de sofrer, impotentes para usufruir do prazer, impacientes com tudo. Quanta gente, após haver tentado mudar e retomando sempre às mesmas sensações, deseja a morte por não poder sentir nada de novo - e no seio mesmo das delícias gritam: Qual! Sempre a mesma coisa! .
A caracterização feita por Galeno atravessa toda a Idade Média, atinge o Renascimento e vai além; “... quase toda patologia mental foi relacionada, até o século XVIII, com a hipotética atrabile” . Na Renascença, o ponto de vista sobre a bile negra reproduz o pensamento da Antiguidade; ela tanto é responsável pelos desarranjos e fantasias do espírito, quanto - um reflexo da posição de Aristóteles - se constitui em condimento nobre, tempero das altas realizações intelectuais. É certo que as ocorrências da melancolia não se limitam a essa dupla possibilidade, que se refere ou ao exagero, ou à medida exata, natural, do humor negro; existem os casos limite, inexplicáveis pela teoria da bife negra, e que, segundo a crença do povo, decorrem de causas misteriosas, sobrenaturais. Nesse contexto os temores, manipulados por interesses da Igreja e sobretudo do Estado , interferem no julgamento da doença; há quem veja então na melancolia a influência do demônio, cuja semente “fria e negra” se teria instalado na alma dos heréticos. A ação positiva, nobre, da atrabile é defendida na Renascença por Marsílio Ficino. Aos argumentos de Aristóteles ele acrescenta explicações astrológicas, herdadas da Idade Média, as quais apontam as influências de Mercúrio e de Saturno sobre o melancólico. A certa altura do seu De triplici vite, justifica Ficino: ... Mercúrio, que nos convida às investigações eruditas, assim como Saturno, que nos permite prosseguir e conservar nossas descobertas, participam no dizer dos astrônomos do frio e da secura (...); ora, tal é, segundo os médicos, a natureza melancólica. Além da causa astrológica, concorrem para a tristeza dos intelectuais duas outras - segundo Ficino: a natural e a humana. A primeira se relaciona com a própria natureza da bile negra, que “... não cessa de chamar a alma à coesão, à imobilização, à contemplação” . Quanto à causa humana, ela decorre de um complexo mecanismo envolvendo o dessecamento do cérebro, a rarefação do sangue e o posterior acúmulo de atrabile - tudo consequente à excessiva investigação intelectual. Devido a isso, “ ... o corpo dos filósofos só está vivo pela metade, por assim dizer, e se torna melancólico” . Entre os séculos XVI e XVII, emerge o sentido - e o sentimento - moderno da melancolia. Após o abalo do Renascimento, desfeitas as crenças que estruturavam o edifício medieval, “ ... a língua perde suas referências ontológicas ...” ; “... A questão pela qual se assinala a fissura é: Aonde foi o pai? Como ela permanecerá eternamente sem resposta, nós só podemos simular que habitamos o mundo” . No mundo como simulacro, as construções dão lugar às ruínas e se esfumam os contornos do sujeito: impossibilitado de ser, ele se limita a olhar as formas decompostas , confundindo-se com essa decomposição. Neste contexto, “... Ser é Ver. Na falta de consistência ontológica, de referente primeiro, o mundo oscila entre aparência e aparição”. Em tal cenário, a partir dele, é que se apresenta ao melancólico o recurso à forma artística - pois a beleza, constituindo uma espécie de coesão, de ultrapassagem e transcendência, funciona como antídoto à ruína geral. No século XVII, ainda ecoa o ponto de vista hipocrático a respeito da melancolia. Discute-se então o estatuto - físico ou psicológico - da bile negra, que, quando em excesso, é relacionada com o fanatismo religioso. Também não se descarta a opinião de Aristóteles; em discreta quantidade, a atrabile “... permite saborear os delicados prazeres da alma e dos sentidos.” . Os autores do Século das Luzes parecem aplicar ao problema a máxima, cara ao racionalismo grego, segundo a qual “a virtude está no meio”. Alguma tristeza, sim, mas sem exagero; no excesso de melancolia, eles reconhecem a obsessão com o castigo, com a falta, a qual pode bloquear a sensibilidade humana . Com o Romantismo, a tristeza se transforma em nostalgia, evocação dolorida, incurável, de um tempo e de um espaço perdidos. O escritor romântico persegue uma infância imaginária, ideal, cujos contornos se entrelaçam com a imagem da mãe-natureza. Domina-o a inquietação ante o sentimento de alguma coisa perdida, de um vazio a ser preenchido. Como o que se perdeu não retorna, o romântico assume e trata mesmo de evidenciar o luto; no Romantismo, a melancolia “ ... designa (ou representa) uma forma escolhida de estar no mundo; ( ... ) ela não é mais uma doença sofrida, porém eleita.” . Eleita por cada um, que vive a perda das referências - no rastro da morte de um Nome, “o nome completo de Deus” ou do Pai - à sua maneira. No fundo dessa hecatombe individual, o que vigora não é tanto o desespero quanto a perplexidade, e também a esperança, estimulada pelo enigma de outro mundo, outro homem . A ciência e a filosofia positiva trazem novos recursos para a representação do afeto melancólico - conforme aliás testemunha, em larga escala, a poesia de Augusto dos Anjos. O materialismo e o mecanicismo, de um lado, e a anatomia e a fisiologia do outro, tanto concorrem para a intensificação do sentimento de errância, exílio espiritual - quanto para a constituição do corpo no alvo privilegiado dos processos destrutivos. Sob a inspiração dos novos conceitos, e da nova terminologia, define-se o palco - o corpo, a matéria - onde se encenam ou se reproduzem os conflitos de ordem moral. De nosso particular interesse é o ponto de vista da psicanálise sobre o assunto. A teoria psicanalítica não descarta a explicação mítico-filosófica, cara por exemplo aos românticos, e patente no reconhecimento desse vazio a ser preenchido - vazio consequente a uma perda. Mas a isto associa a preocupação de estabelecer a gênese e a dinâmica do processo, que envolve um particular jogo de deslocamento e fixação da energia desejante - conforme veremos a seguir.
2.2 - O ponto de vista psicanalítico É no Rascunho G dos “Extratos dirigidos a Fliess” que Freud faz uma das primeiras referências à melancolia. Depois de afirmar as “notáveis correlações” existentes entre ela e a anestesia, ele acentua o parentesco que há entre a melancolia e o luto: “O afeto correspondente à melancolia é o do luto” . Em ambos ocorre a reação a uma perda; na melancolia, contudo, a perda ocorre na vida pulsional; ela “consiste em luto por perda da libido” . Em “Luto e melancolia” encontramos, detalhada, a discriminação entre os dois: 1 - o luto é devido à perda de um objeto amado. Na melancolia também ocorre uma perda; esta no entanto é “de natureza mais ideal. O objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor” . 2 - no luto a perda do objeto é consciente. Na melancolia, ela é “retirada da consciência ” , ou seja, o indivíduo não se dá conta de quem ou de o quê perdeu; 3 - no luto, enfim, não existe perda da autoestima. Por sua vez, o melancólico “exibe (...) uma diminuição extraordinária de sua autoestima, um empobrecimento do seu ego em grande escala.” . A esse empobrecimento do ego corresponde o autodesprezo no plano moral. Freud ressalta que, na melancolia, “a insatisfação com o ego constitui, por motivos de ordem moral (grifo nosso), a característica mais marcante . A chave clínica da melancolia está na identificação do ego com o objeto perdido. Não conseguindo, após a perda, ligar sua libido a outros objetos, o ego incorpora o objeto perdido a si. Passa então a tratar a si mesmo como esse objeto, e suas autorrecriminações são na verdade dirigidas a ele, que o abandonou. Freud resume o processo na seguinte imagem: “A sombra do objeto caiu sobre o ego” . A seguir lembra que, por efeito da identificação, “este (o ego) pôde, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado.” Esse agente especial é o superego. A censura e o ressentimento devido à perda objetal explicam a severidade com que o superego pune o ego do melancólico. Castigando-o, ele em verdade castiga o outro com quem o ego, e razão do narcisismo, está identificado. Por causa dessa identificação, o ego pode chegar ao suicídio - uma forma de, matando-se, destruir o objeto perdido. Freud lembra a propósito que
nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em impulsos assassinos contra outros, que ele volta contra si mesmo (...); o ego só pode matar se, devido ao retorno a catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um objeto.
O retorno do investimento objetal, via narcisismo, explica por que, na melancolia, o ego se volta contra si mesmo. Mas o que justifica a inclemência do superego? Ela se justifica pelo próprio caráter pulsional deste, em função de que ele abriga em si, fundidos, elementos eróticos e elementos destrutivos. Na melancolia ocorre a desfusão pela qual os últimos, representados pelo sadismo, prevalecem em larga escala sobre os primeiros; nela a regressão destrói o componente protetor do superego, deixando apenas o destrutivo . Daí a tirania que se exerce contra o ego. Segundo Paul Ricoeur, nesse contexto a impressão que se tem é a de que “o superego se apoderou de todo o sadismo disponível, que o componente destruidor se protegeu no superego e se voltou contra o ego.” . Para figurar a intensidade dessa carga destrutiva, Freud afirma que “o que reina agora no superego é, dir-se-ia, uma cultura pura da pulsão de morte ” . Importante para o nosso trabalho é a consideração de que, ao lado desse primeiro tipo de melancolia, caracterizado pela perda real ou ideal de um objeto, existe “ ... outra modalidade de depressão ...” - a melancolia narcísica. O melancólico narcísico está de luto não de um simples objeto, mas da Coisa (das Ding). E o que vem a ser a Coisa? Por meio desse conceito, ou dessa palavra, a psicanálise procura traduzir antes o sentimento que a ideia do Objeto enquanto falta primordial; a Coisa é esse Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar.” Indeterminada e inapreensível, “no máximo, a reencontramos como saudade ” . Daí a nostalgia que acomete o melancólico narcísico, às voltas com essa ferida arcaica que lhe provoca um sentimento vasto, aparentemente irremissível, de incompletude. Sentindo-se privado de um bem essencial, ele procura a Coisa em objetos substitutivos, que por isto jamais irão satisfazê-lo. Mesmo porque, segundo a psicanálise, a Coisa é um “fora do significado” , um vazio “em torno do qual se organizam as representações” . Ela é não simbolizável, constituindo-se antes na possibilidade, na matriz, do processo de simbolização. Uma vitória precária sobre o vazio da Coisa é propiciada pela forma artística - mais propriamente, pela “forma ( ... ) poética” . Por meio da prosódia, da polissemia, das alusões, o melancólico transpõe o abismo e nomeia esse indizível instalado dentro de si. A forma poética é corpo, concreção, coerência, e se constitui no “continente': sublimado através do qual um possível sentido se inaugura. Para o que nos interessa, importa ressaltar a ligação existente, na melancolia, entre o vazio decorrente da perda do Objeto e a exacerbação da consciência moral, expressa no sentimento de culpa. Importa-nos também a constatação de que existe “uma estranha cumplicidade” entre os vícios dessa consciência e a pulsão de morte ; são manifestações interligadas, uma como que se alimentando da outra. Pois quanto mais o ego renuncia ao instinto, por força da moralidade, mais é fortificado o papel do superego. A renúncia instintual realimenta a consciência, e o reforço desta compele o ego à destruição. Importa-nos também ressaltar, a partir da nostalgia da Coisa perdida, a tarefa ao mesmo tempo arqueológica e prospectiva que se põe ao melancólico, em sua busca de um preenchimento e de um sentido. O sentimento de culpa e a pulsão de morte, que a melancolia privilegiadamente articula, desempenham uma função importante nessa busca: o primeiro, por refletir as renúncias que, ao longo do tempo, se impuseram ao homem por efeito da civilização - a genealogia da culpa nos reenvia ao problema das origens. E a pulsão de morte, por atuar como crítica rigorosa, sugerindo vias alternativas ao cansaço, à velhice, à mesmidade.
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