6 - CONCLUSÃO
A hipótese de um luto não realizado do objeto perdido - que, segundo a psicanálise, serve de fundamento à melancolia - alarga as possibilidades de interpretação da poesia de Augusto dos Anjos. A partir desse luto inultrapassado, e considerando-se os elementos que se articulam na afecção melancólica, torna-se possível interpretar toda uma imagística ligada ao sentimento de culpa e à retração da sexualidade - como a do “peso”, do “olhar”, do “castigo”, da “prostituta” e do “sátiro”. A culpa e a retração sexual testemunham o efeito mortífero de um superego tirânico; como o excesso de culpa leva à morte, é pela virulência do superego que se justificam, em Eu e outras poesias, as imagens de destruição ou decomposição, simbolizadas no trabalho do verme. A perspectiva da culpa ou, mais propriamente, da falta, cujo elo com a morbidez tivemos ocasião de referir, justifica ainda as representações ligadas à doença - como, por exemplo, as da morfeia e da tuberculose. Pela doença, reproduzem-se no corpo os traços da perversão original do homem, ligada à “peçonha inicial” de onde ele veio. Metáfora orgânica dessa transgressão, a doença é uma marca do ser humano, cuja diferença em relação às outras espécies se evidencia pela linguagem. Daí porque outro grupamento de imagens que são justificados pela culpa é o que se refere à tensão entre a linguagem e a “mudez”- entre o privilégio do homem, que tem a fala, e o enorme “débito” por ele contraído com as espécies inferiores, que mudas esperam a desforra. Concebido como efeito da pulsão de morte, o desejo de destruição comporta no entanto um impulso alternativo, de recomeço. O eu lírico não persegue a destruição total, definitiva; embala-o o sonho criacionista, ou antes recriacionista, de ver surgir outro mundo, outro Homem, outro cosmo - cuja vibração ele adivinha, ou escuta, na potencialidade do perdão e do silêncio. Se concebemos a escuta como atenção ao desejo, e o perdão como escuta que compreende, vemos que, na articulação desses dois impulsos, traduz-se uma conciliação entre o cristão e o psicanalítico, resumida no gesto maior de “compreender o desejo” - escutando-o, deixando-o sair do “rudimentarismo”, perdoá-lo. Nada mais coerente, para quem se pretende um “Cristo a redimir um mundo vário”, do que reconhecer no perdão - implícito na escuta pré-ética, que não julga - a possibilidade de renovar o homem. Aos elementos do pathos melancólico, em Augusto dos Anjos, correspondem escolhas retórico-poéticas nas quais se percebe a preocupação em privilegiar o antinômico, o cerebral, o segmentado - em traduzir, pela dissociação da matéria, as contradições e as carências do ser, em grande parte decorrentes do sentimento da falta. As escolhas retórico-poéticas constituem também estratégias sublimadas, idealizantes, que remetem à abdicação do prazer carnal. Da insuficiência conseqüente à falta parece decorrer, como num impulso de compensação em outro plano, a tendência ao exagero expressivo, à redundância formal, ao excesso de representação fonossemântica, mediante o qual o melancólico, um tanto barrocamente, procura ultrapassar o vazio da Coisa perdida.