O bairro onde Izadora aprendeu a soletrar o mundo não tinha nome na placa. Uma breve nesga de asfalto que morria no céu sem horizonte. Nos fundos da casa, a avó Sônia pendurava roupa como se desfiasse um rosário: cada peça ao vento era um credo, uma prece para que o tempo não corresse tão depressa.
— Corpo ocioso enferruja, menina. Mente vazia, então, pode virar pó.
A frase batia no tanquinho como segundo coração. Entre a escola (três quarteirões do meio da tarde) e a mercearia (dois de saudade de um doce), Iza crescia sob o ritmo lento de quem sabe que o mundo é grande demais para caber num mapa dobrado.
Pais: dois turnos, um só sonho: que a filha nunca usasse o sobrenome para pedir esmola. Mãe: Sandra Regina, contadora de moedas e de dias. Guardava as fitas VHS como quem esconde uma lâmina afiad.
— Só quando tiver idade para não se cortar. Pai: Sebastião, operário de chão de fábrica, trazia em casa o cheiro de óleo que nunca saía das unhas. Perfume de homem que faz o futuro com as mãos.
Aos quatorze, a chave do cofre. Sábado de pipoca na bacia de alumínio, cheirando a margarina barata e a liberdade. Dona Sônia apertou PLAY com a mesma reverência de quem acende vela para Nossa Senhora:
— Escolhe, Iza, minha neta. Mas escolhe com jeito, que filme vira cicatriz.
Iza apontou para a capa azul-celeste com casal de costas: Um Lugar Chamado Notting Hill. O videocassete ronronou. Meio resmungão pelo peso dos anos, eficiente para o que servia. Na tela de tubo, Hugh Grant tropeçou em si mesmo, e Iza sentiu o corpo inteiro dar um passo à frente.
Saiu do sofá, atravessou o Atlântico, pisou em calçada molhada de chuva londrina. Rebobinaram três vezes. Na terceira, ela decorou o tom exato de “I’m just a girl, standing in front of a boy…”. A frase ficou morando debaixo da língua, aluguel pago em suspiros.
Começou a coleção de Londres dentro do guarda-roupa: um pôster rasgado de revista (a porta azul desbotada); um atlas de bolso com a página 37 sempre aberta; um caderno de capa dura onde escrevia contos que terminavam em Big Ben.
As amigas namoravam, tiravam selfies de língua de fora. Iza namorava palavras: thames, borough, underground, bookshop. Cada sílaba era beijo roubado.
A universidade chegou como quem bate a porta: de cara, sem pedir licença. Letras, escolha que gerou sermão de tio em churrasco: Vai ganhar quanto, filha? Em moeda ou em poesia? Dona Sônia deu o veredito final:
— Mais vale morrer de amor que viver de desgosto.
Ela foi. Quatro anos de bolsa, de dormir no beliche, de sopa instantânea que parecia lágrima desidratada. Mas também: quatro invernos de ler Shakespeare em voz alta para o espelho embaciado, fingindo que o reflexo era a Rainha.
O câncer chegou sem aviso, sem um míseo sinal. Dona Sônia fumava desde os quinze, dizia que o cigarro era o únivo homem que nunca a traiu. A doença foi o traidor que não lhe faltou. Ainda assim, sentada na cadeira de rodas com oxigênio no nariz, ela viu a neta receber o canudo:
— Vai, coração. Voa baixinho, mas voa longe.
Morreu três meses depois, num domingo de céu sem nuvens, como se até o céu estivesse de portas abertas a espera de um anjo.
Mestrado. CNPq. Concurso. Sala de aula. Rotina de professora: corrigir, ensinar, sonhar em off. Até que o e-mail: Grande Prêmio Literário: Londres é Logo Ali. O título era tão exato que doeu. Ela escreveu o conto em três noites, digitais sangrando café, ouvindo trilha sonora do filme em loop. Enviou. Esqueceu.
Segundo lugar: um ano de livros grátis. Sorriu, bebeu chá verde, aceitou o destino como quem aceita bala de troco. Mas o destino voltou: Plágio do vencedor. Desclassificação. Primeiro lugar: Izadora Nascimento. O copo de cerveja escorregou da mão, fez espuma no chão como maré.
Licença. Passaporte. Voo TP-123, Londres-Gatwick. A cidade recebeu ela com chuva fina. Batismo sem encomenda. No hostel de Camden, dividiu quarto com uma australiana que nunca ouvira falar de Hugh Grant. Iza explicou, mostrou a capa do DVD no celular, chorou de novo.
Dia D: Pinewood Studios. Ônibus cheio de fãs japoneses, todos com capa de Star Wars, nenhum com Notting Hill. Ela sozinha, vestido verde-musgo, coração batendo em 35 mm. O guia Mr. Jones, sotaque de Yorkshire, olho de quem já viu deusas chorando, conduziu pelo corredor de madeira até a réplica da porta azul.
Toque: madeira fria, tinta lascada, número 142 em metal gasto. Dentro, cheiro de papel antigo e de set fechado. Iza respirou: era o pulmão da infância.
Surpresa. Porta lateral. Luz baixa. Ele. Hugh Grant. Cabelos mais claros que a memória, rugas de filme independente, mas o mesmo sorriso de quem tropeça no próprio encanto.
— So, you’re the girl who wrote us back to life?
Inglês que ela entendeu perfeitamente, mesmo com os tímpanos em fogo. Conversa. Risos. Ele assina o roteiro original, página 47, a cena da banca de frutas. Na despedida, abraço. Aquele tipo que grava na coluna vertebral.
Iza segura o roteiro contra o peito, sente o coração bater em outro idioma. Sai do estúdio. Lá fora, o sol despenca atrás dos galpões, tingindo tudo de dourado-velho como filme que nunca quis créditos.
Noite. Senta-se no banco de Notting Hill, o de verdade, na esquina da Portobello Road. Abre o caderno. Escreve: “Londres é logo ali, disse um dia, vovó. Hoje entendi: ali é onde a gente decide começar.”
Fecha. Acima, a lua parece grande o bastante para fazer parte de um bom roteiro. Iza sorri.
O próximo capítulo começa agora.
Desta vez ela é autora, protagonista, diretora e plateia.