Afinal, o que é uma lenda e o que o tornaria lendário? Como diferem-se natural e sobrenatural e o que assim os separa e define?
Sendo um dos “Chamados para o Sobrenatural”, que a lendária grandiosidade de seus atos assim alcançados há tantos milênios remanesce, permanecendo, mesmo em nossos dias de um futuro tão distante, sua imagem transfigurada, como uma das representações mais conhecidas e reverenciadas em diversas tradições, O Último Dragão, O abençoado pelo Sagrado Poder Divino, está como o símbolo da prosperidade, da vitória Divinamente alcançada e do domínio sobrenatural.
Prosperidade, vitória e domínio. Em si, dádivas presentes mesmo em nossos dias, contudo, aquele que tornou-se lendário, as recebeu, em proporções sobrenaturais. Ou seria, em proporções além ao usualmente concedido... Enfim, fugindo ao habitual, por muitos sendo considerado então só uma lenda, e, somente uma lenda. Ao menos quanto ao fato de haver em sua história algo de extraordinário, ninguém pode negar, do contrário, não estaria ele entre as ainda hoje conhecidas “Lendas“, que nem o tempo, nem as futuras gerações, puderam apagar. Um Ser além à humanidade, o último Dragão a passar por esta Terra até hoje.
No início, antes da Lenda tornar-se lenda, diz a lenda que o último dos Dragões aqui esteve como um líder. Porém, mesmo enquanto indivíduo nesta Terra, por sua própria natureza, de maiores pretensões. Hait, termo em Rariar que em nosso idioma se aproximaria de “Governante", do Alto Kaisen, vindo da primeira reunificação de todos os Clãs de Kaisen segundo o Alto Ideal, se estendendo desde os Clãs de PedraMontanha, aos Clãs das misteriosas terras de Sal e Fogo, que dividiam as terras de Kaisen, Draker KaisenHait, já de aparência, força e inteligência diferenciadas, se comparado aos povos de todos os Clãs, contudo, mortal, assim permaneceria, apesar de alcançada uma gloriosa reunificação sem precedentes e, das vitórias, por ele já conquistadas nas campanhas contra as invasões do inimigo, até a maior batalha que travaria contra esses vorazes invasores, chamados Terrários de Couvu. Os Povos de Areia, vindos do arquipélago das Grandes Ilhas de Areia, situado próximo ao continente de Kaisen, que aos seus pretendiam levar à ruína e à escravidão.
A denominada Grande Batalha, travada entre os Clãs de Draker KaisenHait e os invasores Terrários de Couvu, durante a Grande Invasão Terrária, iria muito além dos embates anteriores, pois o inimigo, obstinado, desejando cada vez mais Kaisen a medida que o conhecia em suas invasões, com o objetivo de agora não apenas invadir e saquear, como anteriormente, mas, invadir e se estabelecer nessas terras, traria dessa vez toda a sua frota naval, com boa parte de seu exército, como nunca antes havia feito, para de Kaisen não mais voltar. Analisando os números de ambos os exércitos, a guerra contra a invasão Terrária aparentava ser uma guerra perdida, na qual as circunstâncias de forma alguma indicariam a vitória para Kaisen e seu exército, sistematicamente enfraquecido, desde pelos anteriores séculos de conflito entre os Clãs, conflitos esses por vezes fundados em pequenos motivos, e, por muitas vezes, criados ou alimentados pelas manipulações dos Irmãos Auxiliadores, fosse por divergências entre os Irmãos Auxiliadores de cada Clã, fosse objetivando enfraquecer e fragmentar cada vez mais os governos dos Clãs para obterem mais poder e controle sobre a população, ou pela ocorrência de um eventual conflito de alguma outra forma os beneficiar, que mantinham, em maior ou menor proporção, as defesas e as cidades de cada Clã sempre enfraquecidas, e, as agora frequentes invasões dos Terrários. Enquanto os Terrários de Couvu, há muito tempo sem enfrentar longas guerras internas, contavam com um exército muitas vezes maior.
Conta-se que durante a Grande Batalha, travada no ápice da invasão Terrária, o exército na capital de Kaisen já quase cercado pelo avanço do mar de inimigos vindo das Ilhas de Areia, pouco antes do momento em que se tornaria de fato o Dragão, em seu presumido fim, início de sua lendária história, com os inimigos em cada vez maior vantagem, Draker, como se motivado por uma vaga, no entanto crescente convicção, buscava de igual modo ganhar mais tempo. Não apenas por medo, mas pelo ímpeto de ainda vencer a luta pelo Ideal do qual compartilha, e a luta pela continuidade dos assim seus nesta Terra. Desse modo, Draker deixou a guerra em direção ao Caminho Sagrado. Um lugar intocado pela humanidade, no qual, oculta entre duas grandes montanhas, em seu início uma longa trilha estreita, erguia-se uma densa floresta, onde, segundo a Fé Dos Auxiliadores, uma religião, há muito, em boa parte sustentada pelo implantado medo de alegadas punições eternas, e regras forjadas com objetivos tão somente limitantes, afastando os indivíduos de, por sua compreensão, buscar vivenciarem a crença na qual realmente acreditassem, espalhadas pelos Irmãos Auxiliadores, nome dado aos sacerdotes dessa religião, com o objetivo de manipular para obterem vantagens e controle sobre a população, “fé” essa na qual ele mesmo jamais acreditou, distinta sempre foi sua crença, nenhum de nós, meros Seres presentes neste plano, deveria pisar, em nome de um medo, maior do que o da própria morte: O de atrair sobre si a eterna condenação Divina.
Ao entrar, e mesmo antes de entrar, reconhecia, superior é o Poder que ali explicitamente governa. O local, muito maior do que aparentava o estreito início de seu caminho entre as pedras, logo se revelava de incomparável esplendor, por sua perfeição seria o bastante para a muitos petrificar em perplexidade. Magnífico, porém, intocável. Sublime, porém, distante. No céu, uma estrela prateada como nenhuma outra, sua luz formava oito raios ao seu redor. A leve brisa noturna e sempre noturna, uma vez que o local permanecia desde os primórdios intocado pela luz da Terra, após sua chegada se intensificava a cada instante. Passados alguns minutos, a brisa, como um vendaval, agora varria o chão coberto de folhas escuras e flores vermelhas, arrancando ainda aquelas presas às árvores, juntamente lançando-as no lago de águas cristalinas, até não restar nenhuma fora dali.
As folhas e flores flutuavam sobre as águas, “enterrando” o que houvesse abaixo da superfície. Draker, percebendo, segundo a força dos ventos, a presença dos Anhengers, os espíritos guardiões, supostamente designados para afogar aqueles que aos domínios Sagrados profanassem com suas presenças, evitando então ser mais um arrastado pelo “vento”, voluntariamente entrou no lago, sua questão não era com os Anhengers. Enquanto aguardava ”tudo” terminar, disse:
- Nos resta tentar fugir, viver como presos, escondidos, humilhados, enquanto eles dominam?
Por qual motivo hoje eles merecem minha derrota, quando outrora eu merecia a deles? Se sou o mesmo...
Durante todo o meu tempo, o tempo que me concedeu, segundo minha razão me determina, segui o caminho ao qual fui destinado. Não fiz senão isso, pelo que me concedeu, com tudo o que me concedeu!
Minha vitória e minha derrota, devo a uma única causa. Se venci, foi concedido o necessário para tanto. Se não...
Antes favoreceu o nosso Kaisen, unificado em nome do Alto Ideal, como hoje favoreceria eles? Se antes me chamou... Como agora aquele Couvu Terrário? Por quê? Não. Independente do que aconteça, eu “sei” que não.
Eu só sei que é esse o meu pedido, e por isso eu peço.
O “vento” respondeu regressando à brisa, e nada aconteceu. Draker mergulhou nas águas, se distanciando da superfície o máximo, o máximo para quem não pretenderia voltar.
Voltando à superfície, ao sair das águas, Divinamente abençoado com as habilidades sobrenaturais de domínio, seu poder não mais pertencia à natureza terrena, ao menos não ao plano entendido como natural. Agora capaz de transfigurar-se em uma grandiosa criatura, de implacável poder. Com imensas asas de finas lâminas negras, envoltas em chamas escuras, estreladas de labaredas escarlate. Seu fogo, capaz de derreter mais do que rochas. Um Ser em realidade indescritível. Suas asas lembravam as de uma grande águia. A Águia de Fogo, ou como chamado na maior parte das versões atualmente conhecidas da lenda, O Dragão.
A Águia KaisenHait, ou o Dragão KaisenHait, regressou à batalha, espalhando pavor ao voar em direção aos exércitos. Quando visto voando próximo ao solo, estraçalhando os inimigos com as milhares de lâminas de suas asas e os queimando, em grande parte da resistência na capital de Kaisen, já cercada pelos inimigos, despertou-lhes um misto de pavor, curiosidade e até mesmo satisfação. Enquanto os vorazes Terrários, horrorizados, agora se dispersavam, fugindo desesperadamente.
No final daquele dia, não sobrou sequer um invasor Terrário em Kaisen. Não foi somente o Dragão que cassou os inimigos, mas o exército e toda a população que ali estivesse. Os inimigos deixaram aquelas terras como cinzas levadas pelo vento. Se desde o início da reunificação alguns afirmavam, em nome do acontecido no fim da guerra, todos os Clãs concordaram: Aquele indivíduo, foi presenteado pelo próprio Sagrado Poder Divino com um vislumbre de sua Dádiva. Um ínfimo vislumbre, suficiente para torná-lo, em toda a Terra, o Ser além à humanidade, A Lenda.
Não se sabe por quanto tempo Draker governou Kaisen, porém o Dragão novamente sobrevoaria esta Terra. Muito tempo depois da Grande Batalha, quando o Alto Kaisen já consolidado como a maior civilização de seu tempo, conta-se que os remanescentes dos Terrários que permaneceram nas Ilhas de Areia haviam se restabelecido, e organizavam-se para novamente atacar. Mesmo que seu exército agora fosse o bastante para enfrentar muito mais do que os Terrários, ou qualquer outro povo, dessa vez os inimigos nem em Kaisen pisariam. O Dragão queimou toda a frota Terrária ainda no mar, à beira da praia. Depois, voou em direção às Ilhas de Areia, destruindo tudo que ali estivesse. Esse foi o fim do arquipélago das Grandes Ilhas de Areia de Couvu. Após o Dragão as incendiar, tudo tornou-se rocha, como se a terra tivesse sido consumida por uma erupção vulcânica de proporções inéditas. Se restou no mundo algum Terrário, as lendas não dizem, mas todas as suas cidades nas Ilhas de Areia se tornaram o novo chão petrificado dessas ilhas.
Ao longo do tempo, o Alto Kaisen de Draker KaisenHait, a maior civilização da Terra em sua era, tanto em razão, beleza e grandiosidade, quanto em progresso e força, a maioria de seu povo seguidores, pela própria razão convictos, do Alto Ideal, livres das manipulações dos Irmãos Auxiliadores, que quase desapareceram devido à população não mais convencer, assim se manteve ainda por mais de quatro milênios. Após Draker, todos os Haits que governaram Kaisen durante seu ápice, nesses distantes milênios do Alto Império, passaram a se intitular Draker. Enquanto somente seu primeiro Imperador, foi, de fato, Dragão.