Dia seguinte
Já estava amanhecendo no meu reino, nesse palácio enorme que construímos. Dá até pavor morar sozinho aqui.
Foi então que tive uma brilhante ideia: chamar meu amigo Alfredo para morar comigo.
Coloquei uma roupa e fui até a casa dele. Toquei a campainha e bati na porta.
— Alfredo! Alfredo, você está aí? — chamei.
Nenhuma resposta. Deve estar de ressaca, depois de tanto que bebeu, pensei.
Enquanto esperava, lembrei do que ele havia me dito ontem. O que será que ele sabe e eu não sei? Pelo jeito, é algum segredo sujo da família dele.
De repente, a porta se abriu e Alfredo apareceu, com o rosto abatido.
— Entre, Heitor. Precisamos ter uma conversa séria — disse ele, abrindo espaço.
Entrei um pouco apreensivo.
— Alfredo, você vai voltar para o reino do seu irmão? — perguntei.
— Não, amigo, não posso voltar lá — respondeu ele, cabisbaixo. — Meu irmão fez uma coisa terrível para tomar o trono e colocou a culpa em mim. Para fugir dos guardas, vim para cá. Eles ainda estão à minha procura… não quero morrer naquele lugar. Uma vez visitei as prisões de lá… eles até batem nos detentos.
— Alfredo, você precisa me dizer o que seu irmão fez e por que te culpou. Eu prometo que vou te proteger — insisti.
Ele respirou fundo e começou a contar:
— O Arthur, aquele que todos acreditavam ser meu irmão… na verdade, não é.
— Como assim, não é seu irmão? — perguntei, surpreso.
— Arthur era um recém-nascido quando o deixaram na porta do palácio onde cresceu comigo e com os meus pais. Era inverno, temperaturas abaixo de zero. Ninguém sabia desse segredo da nossa família. Até que, um dia, Arthur descobriu e ficou furioso.
Ele fez uma pausa e continuou, com voz embargada:
— Era uma noite de verão. Arthur sempre amou brigas. Ele ouviu meu pai conversando com minha mãe. Ela queria revelar o segredo, mas meu pai, que já conhecia o temperamento de Arthur, não deixou.
— E o que aconteceu? — perguntei, já desconfiando.
— Arthur faria de tudo para conseguir o trono… até sujar as próprias mãos de sangue. Naquela noite, ele ouviu tudo. Avançou contra meu pai… e o matou. Depois, matou também minha mãe.
Fiquei chocado.
— Alfredo, isso é muito sério!
— Pois é. E, para conseguir o trono, Arthur espalhou que eu tinha matado nossos pais. Mas quem fez isso foi ele. E, se os moradores descobrirem, ele perde tudo. Por isso, corro sérios riscos. Você sabe qual é o destino de quem comete assassinato…
— Sim. A forca ou a fogueira — confirmei. — Mas não vou deixar que façam isso com você. Eu vou te proteger, é por isso que estou aqui.
— Do que você está falando, Heitor? — ele quis saber.
— Você sabe que sou dono de um palácio enorme e tenho uma guarda forte. Quero que você se mude para lá comigo. Farei uma reunião com os guardas para garantir sua segurança. Desconhecidos não entrarão.
— Mas, Heitor… alguém já sabe que eu vim para o seu reino? — perguntou, hesitante.
— O Arthur sabe — respondeu, após um silêncio.
— Como ele sabe?! — questionei.
— Heitor, somos amigos, esqueceu? Ele queria acabar com tudo, inclusive com você. Porque eu vi o que ele fez com meus pais e o ameacei de contar a verdade aos moradores. Ele não deixou… e me ameaçou. Nem ao velório de meus pais pude ir. Sou um foragido de um crime que não cometi.
— Alfredo, tive uma ideia — falei, após refletir um pouco.
— Qual ideia, Heitor? — ele perguntou.
— Tenho parentes que vivem em um reino distante. Você vai viajar à noite.
— O que você está planejando? — quis saber.
— Um dos meus guardas vai te levar até o reino dos meus familiares. Quando ele voltar, daremos início ao plano.
— Que plano, Heitor? Do que você está falando?
— Confia em mim, meu amigo. Não posso revelar agora. Apenas faça o que eu disser. Quando o plano der certo, iremos te buscar.
Chamei meus guardas, convoquei uma reunião e escrevi uma carta para meus tios, contando tudo.