Já na Terra.
Porto Alegre era uma cidade movimentada, cheia de carros apressados e pessoas apressadas. O problema? Eu ainda não sabia exatamente quem deveria flechar.
Foi então que os avistei. Meus alvos estavam se aproximando: um atravessava a rua de um lado, enquanto o outro vinha na direção oposta. Era minha chance perfeita.
Puxei duas flechas e, num único movimento, as disparei ao mesmo tempo.
Mas o que eu não esperava aconteceu: o sinal fechou abruptamente, e um caminhão de lixo, em alta velocidade, atropelou a garota bem no momento em que a flecha ia atingi-la. O outro alvo, o rapaz que deveria se apaixonar por ela, correu para ajudá-la.
Desci até eles, tentando entender o estrago que causei. A garota estava caída no chão, meio atordoada, mas consciente. Quando nossos olhares se cruzaram, ela sorriu e disse, com a voz fraca:
— Amor, vamos para casa.
Eu franzi o cenho.
— Eu não sou seu amor e, definitivamente, não vou para casa com você. — respondi de imediato. — O amor da sua vida é ele. — Apontei para o rapaz que eu havia flechado.
Ele me encarou, confuso.
— Eu?!
— Sim, você. — afirmei.
— Mas eu não gosto dela. Nem sei quem ela é.
Suspirei, tentando manter a calma.
— E você, garota, gosta dele?
Ela franziu o nariz e negou com a cabeça.
— Não... eu gosto de você.
Silêncio.
— VOCÊ SÓ PODE ESTAR TIRANDO UMA COM A MINHA CARA! — exclamei, desesperado.
Os dois caíram na risada, como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo.
— Olha, tem um pequeno detalhe: eu não posso ser o amor da sua vida.
— E por que não?
— Porque meu nome é Noah, e eu sou o cupido de vocês. Cupidos não se apaixonam! — tentei explicar, começando a me preocupar de verdade com a situação.
Ela me olhou, piscando devagar, e depois sorriu de novo.
— Noah, acho que a batida te deixou lelé da cuca.
Eu deveria estar irritado, mas, por algum motivo, algo nela me prendia. Me fazia sentir diferente.
Será que... eu estava me apaixonando por ela?!
Como isso aconteceu?
Pior: além de estar colocando a missão em risco mais uma vez, eu mesmo havia me tornado a bagunça que deveria evitar.
Eu ia ser rebaixado.
Na verdade, seria expulso do Céu sem direito a apelação.
Foi quando o rapaz, que ainda observava tudo, arregalou os olhos.
— Noah... você está com duas flechas cravadas em você!
Gelei.
— Garoto, você só pode estar de brincadeira comigo! — falei, já sem paciência.
— Não estou! Olha pra você!
Me apalpei de cima a baixo, tentando sentir algo.
— Mas eu não estou sentindo nada...
Nesse instante, o motorista do caminhão, que ainda estava ali, resolveu intervir.
— Eu vi tudo! — disse, coçando a cabeça. — Duas flechas passaram bem na frente do caminhão. Quando tentei desviar, acabei atropelando a garota. Mas, no processo, as flechas voltaram e acertaram você.
Minha mente deu um nó.
— CARAMBA! COMO EU TIRO ISSO DE MIM E CANCELO ESSA MERDA QUE EU MESMO COMECEI?!
Então, uma voz ecoou do nada, me arrepiando dos pés à cabeça.
— Cupido Noah, não tem como cancelar a cagada em que você se meteu.
Engoli em seco.
— Então... me apaixonei pelos dois alvos?!
— Sim, Noah. E fique por aí, porque aqui no Céu ninguém quer mais saber de você.
Meu coração afundou no peito.
Eu tinha me lascado. Bonito.
E, como se não bastasse, ouvi um sussurro conhecido perto do meu ouvido.
— Meu amigo... tudo que está ruim ainda pode piorar. Você conseguiu estragar tudo na sua última missão.
Suspirei pesadamente.
O pior cupido da história.
Demitido, expulso e, aparentemente, fadado a viver na Terra sem direito a nada.
A pergunta agora era: o que diabos eu ia fazer da minha vida?