O cheiro do café recém passado se misturava ao som abafado de conversas e risadas vindas da pequena agência publicitária no centro de Balneário Camboriú. Fabiana Bella Klenski olhava pela última vez para a janela de vidro fosco, onde o logotipo da empresa que trabalhava há quase sete anos refletiu discretamente a luz da manhã.
Ali dentro, ela aprendeu muita coisa tanto profissional como pessoal que nunca iria esquecer, principalmente as amizades sinceras que fez lá dentro. Com o coração triste, ela se despediu de uma fase da vida que, embora confortável, há muito tempo deixou de ser desafiadora.
— Você tem certeza de que vai encarar isso sozinha? — perguntou Mariana, sua colega de equipe e melhor amiga, com os olhos marejados.
— Tenho. Se eu não for agora, talvez nunca vá — respondeu Fabiana, tentando disfarçar o nó na garganta com um sorriso seguro. — É só por dois anos... e talvez eu volte com uma boa proposta de trabalho, ou pelo menos com histórias incríveis para contar a todos.
— Falando nisso, vê se não esquece de pegar autógrafo com algum ator famoso quando aparecer na sua frente. Já que vai morar lá, é o mínimo que pode fazer por mim — murmurou a diretora de criação dando um suspiro triste.
— Você fala como se isso fosse fácil de acontecer. Acredito que nenhum ator coreano vai esbarrar comigo na faculdade. Sou muito fã de dorama, mas não vou ficar correndo atrás de nenhum ator favorito — retrucou revirando os olhos.
— Vai que você dá sorte, ninguém sabe o que vai acontecer no futuro.
— Lá vem você de novo com esse papo louco sobre destino — falou Fabiana se levantando da cadeira e indo até a cafeteira pegar mais um pouco de café.
— Mas é verdade, viu? Você que não acredita muito nisso.
— Claro que acredito, mas não de uma forma cega. A vida não é um dorama, amiga, não acredito que vou encontrar um ator coreano famoso por acaso na rua ou na faculdade. Tem certas coisas que sou muito pé no chão.
— Que pena! É muito triste essa sua falta de fé. A propósito… e seus pais como reagiram com sua ida repentina para a Coreia?
— Bem… a minha mãe não gostou muito, ela ficou super preocupada, pois estarei sozinha lá, sem parentes e amigos por perto. Eu até a entendo. Meu pai ficou feliz quando soube e disse que eu podia contar com ele, me ofereceu até uma boa mesada por mês.
— Nossa! Seus pais são bem diferentes. E sobre a mesada você deveria aceitar, pois vi um pessoal comentando na internet que a vida na Coreia não é barata.
— Amiga, só vou aceitar o dinheiro do meu pai em último caso, primeiro vou tentar arrumar algum emprego de meio período, já que falo coreano quase fluente e também leio e escrevo. Aquelas aulas que fiz por quase três anos vão me ajudar bastante. Caso eu não arrume nada, daí sim vou aceitar a ajuda do meu pai.
De repente a conversa entre as amigas foi interrompida pela chegada dos outros membros da agência que trouxeram um bolo e salgadinhos para a festa de despedida. O clima ali era de orgulho misturado à saudade antecipada.
Fabiana não era do tipo impulsiva, mas algo naquela oportunidade de realizar o mestrado em publicidade com foco no cinema, na Universidade Nacional de Seul lhe pareceu ser mais do que apenas um degrau na carreira.
Era como se algo maior a esperasse do outro lado do mundo, que ela ainda não conseguia nomear.
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Horas depois, no avião, enquanto observava as nuvens pela janelinha, Fabiana pensava em como tudo tinha acontecido tão rápido. A inscrição no programa, o aceite, a bolsa parcial, o aluguel de uma quitinete em Seul e a liberação da herança deixada por sua avó, que iria ajudá-la a se manter por um bom tempo, além da ajuda que seu pai poderia lhe fornecer, caso precisasse.
Suspirou enquanto sentia seu coração acelerar e as mãos suarem. Não era exatamente medo, mas uma sensação esquisita, como se uma parte dela soubesse que aquela viagem mudaria a forma de como ela via o mundo.
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Quando chegou ao Aeroporto Internacional de Incheon, o contraste foi imediato. Placas em hangul, pessoas correndo com mochilas e malas, anúncios em vários idiomas. A Coreia era moderna, organizada, e completamente diferente de tudo que ela conhecia.
No táxi até o seu novo endereço, ela observava a cidade pela janela: luzes neon, prédios altos, ruas movimentadas mesmo à noite. Seul parecia viva e ligeiramente assustadora.
O motorista falava um pouco de inglês, e sorriu quando ela mostrou o endereço do prédio onde tinha alugado a quitinete, que era no bairro de Hongdae, conhecido pela arte e cultura jovem. Era nesse lugar agitado e moderno que sua nova vida começaria.
Nas pesquisas que Fabiana havia feito pela internet, o preço do aluguel ali era mais em conta do que no bairro Seocho-gu, onde ficava o Campus da Universidade que iria estudar. Ela levaria cerca de 30 a 40 minutos para chegar lá caso pegasse o metrô. Estava tão mergulhada em seus pensamentos, que só percebeu que tinha chegado ao endereço quando o motorista parou e falou com ela.
Assim que desembarcou do táxi com suas coisas, Fabiana avistou do outro lado da rua, a pequena imobiliária que tinha alugado o imóvel para ela. Com as bagagens em mãos caminhou até o lugar e foi recepcionada por uma moça.
— Oi, me chamo Fabiana e sou do Brasil, aluguei uma quitinete com vocês. Por acaso, você é Lee Yuna-jin? — perguntou em Coreano.
— Sim, sou eu sim. Por favor, me acompanhe até minha mesa. Preciso de seu passaporte, do contrato de aluguel impresso e do cartão de registo de estrangeiro, assim como sua matrícula na faculdade — replicou atenciosa.
Fabiana como já sabia que precisaria daquela papelada, deixou tudo separado numa pastinha, que guardou dentro da mochila. Ao sentar-se pegou o que foi pedido e apresentou à corretora, que verificou tudo e deu a chave da quitinete para ela.
— Seja muito bem-vinda a Coreia, qualquer dúvida ou problema com o apartamento pode me procurar. A propósito, eu tomei a liberdade e comprei algumas coisas para você. Deixei dentro da geladeira e no balcão em cima da pia da cozinha. E se faltar algo, você pode comprar no mercadinho do bairro, que fica aqui na esquina perto da lanchonete.
— Muito obrigada, por sua atenção e cuidado — agradeceu a publicitária ao mesmo tempo que levantava e saia da imobiliária.
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Quando Fabiana ingressou no prédio da quitinete, percebeu que a entrada era bem organizada e iluminada. Sem demora, ela subiu a escadaria até o terceiro andar e logo abriu a porta, acendeu a luz e entrou. Para a sua felicidade, o local era exatamente como tinha visto nas fotos, antes de alugar.
Deixou as malas num cantinho ao lado do guarda-roupa e sentou-se num pequeno sofá próximo a janela e puxou o celular e ligou para os pais para avisar que tinha chegado bem e mandou mensagem para a amiga.
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No dia seguinte, Fabiana acordou entusiasmada, pois conheceria os professores do mestrado e também o seu orientador. Pensando nisso, ela demorou um pouco no banho.
Assim que abriu a porta do banheiro foi até a mala e pegou uma saia, um blazer e uma blusa branca.
Depois de arrumada, Fabiana bebeu um chá de hortelã e comeu algumas bolachas que haviam sido dadas pela corretora de imóveis. Logo em seguida, pegou sua mochila e saiu do apartamento.
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Ao chegar no local onde iria estudar, a brasileira se deparou com um Campus amplo, cercado de árvores, com uma arquitetura moderna que mesclava vidro e concreto. Estudantes de várias nacionalidades caminhavam apressados com cafés nas mãos, tablets e fones de ouvido.
Fabiana se sentiu animada e ao mesmo tempo um tanto deslocada, então antes de ir para a sala da coordenadora, ela comprou um café quentinho numa lanchonete próxima da escadaria, e subiu bebendo.
Caminhou em passos lentos, à procura de uma placa que indicasse onde estava a coordenação, não demorou muito tempo para encontrá-la no final do corredor.
A porta de vidro estava encostada, dava de ver tudo lá dentro, inclusive a secretária que digitava no notebook, compenetrada no que escrevia. Fabiana observou o ambiente por mais alguns segundos, antes de empurrar a porta e entrar.
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Já na recepção da coordenação, Fabiana sentiu um cheiro gostoso de perfume amadeirado, o que a fez procurar de onde estava vindo, no entanto, logo sua investigação foi interrompida pela voz da secretária.
— Como posso ajudá-la?
— Oi, me chamo Fabiana Bella Klenski e sou aluna do mestrado que veio do Brasil. A coordenadora está me esperando…
— Ah sim! A senhora Park Ji-yeon está lhe aguardando. Meu nome é Lim Soo-min, sou a secretária do centro de artes, cinema e publicidade, qualquer coisa que precisar estou à sua disposição — replicou se levantando.
— Muito obrigada!
— Me siga, vou levá-la até ela — murmurou enquanto caminhava até um corredor longo com duas portas à direita e três à esquerda ao mesmo tempo que digitava no celular uma mensagem.
Fabiana seguiu a secretária de meia idade e durante a trajetória observou que as paredes ao lado das portas eram decoradas com fotos de alunos formados e ao fundo do corredor havia um mural com avisos.
De repente, Soo-min parou de frente à terceira porta do lado esquerdo, que tinha uma plaquinha com o nome da coordenadora.
— É só entrar, já avisei por mensagem que você está aqui.
— Mais uma vez, obrigada!
Fabiana agradeceu fazendo uma rápida reverência e entrou na sala.