PRÓLOGO
Os dois homens já terminavam os trabalhos. A noite não estava intensamente fria, mas o ar ribeirinho fazia subir um calafrio pela espinha até eriçar os pelos dos braços do mais jovem. A lua imperava, ofuscando as estrelas com o brilho de seu disco completamente iluminado. Aqui no chão, porém, a escuridão das águas do rio Jacuí absorviam qualquer raio prateado que pudesse clarear os afazeres daqueles pescadores. As lanternas de cabeça, com LEDs baratos e baterias fracas, tampouco ajudavam. Ainda assim, molhados, atrasados para o jantar e cansados, carregavam sorrisos no rosto.
— Conseguimos uma grandona hoje, né seu Antônio?
O velho não respondeu. Andava pelo pequeno deque de madeiras úmidas e escuras que dava acesso à margem, e juntava os restos da pesca que não seriam usados em um grande saco preto de lixo.
O jovem deu de ombros pela falta de diálogo e deixou Antônio com seu trabalho pesado. Precisava desvendar como colocaria aquele tanto de carne e escamas de um metro de comprimento na caixa de isopor, que já esperava com sal e gelo em seu interior. Estava tudo limpo e preparado, entretanto, era alguns centímetros maior que a caixa. Se cortasse o excedente poderia perder um pouco do valor.
— Ah! Já é o suficiente — pensou alto, encostando a lâmina no pedaço que não caberia. Hesitou em continuar o movimento sem confirmar com o seu parceiro de empreitada mais velho.
Antes que pudesse virar em direção ao Antônio, que estava atrás de si, um braço bateu nas madeiras bem ao lado dos seus pés. O movimento e o baque do braço no piso do deque quase fez seu coração parar. Olhou rápido para o Antônio e por um segundo ficou petrificado.
— Impossível!
A lanterna fraca acompanhou Antônio que escorregava pelas tábuas. Arranhava a madeira onde tentava se agarrar em desespero. A boca dele escancarada, gesticulava palavras incompreensíveis. O saco de lixo que ainda segurava foi jogado no rio, liberando a mão para ajudar a se prender na última tábua antes que fosse puxado para as águas.
O jovem viu apenas o brilho amarelado dos olhos da criatura que rasgava a roupa de Antônio por onde passava as garras, enquanto tentava arrastá-lo para a escuridão. Ele, já sentindo a fraqueza da idade, não conseguia firmar-se. Os braços cediam àquela força descomunal que o puxava.
Sem pensar muito, o aprendiz se lançou na direção de Antônio, com a faca em punho, visando afastar a criatura e salvar o amigo. Após alguns chutes e golpes de faca que não atingiram aquele ser, tentou trazer Antônio, que já estava metade mergulhado, para fora daquele breu. No entanto, a criatura era mais forte e adaptada às águas, em um último esforço arrancou Antônio do deque e levou junto seu jovem amigo para dentro do rio.