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INCOMPLETO
Tomando fôlego da vida cotidiana, um jovem e simpático casal decidiu aproveitar aquele lindo dia de primavera para conhecer melhor a região centro do Rio Grande do Sul.
Buscavam uma alternativa mais empolgante do que os mesmos shoppings, parques e restaurantes encontrados na cidade. Não que fossem ruins, nada disso. Entretanto, a rotina desperta esse desejo de um fim de semana diferente, algo excitante, quem sabe até inesquecível. E bom… conseguiram.
Dadas as limitações financeiras para custear a aventura, o namorado reuniu toda sua capacidade de agente de turismo, que era nenhuma, e montou um roteiro para viajarem gastando pouco mais que nada. Com o carro emprestado do pai, poucas notas no bolso e muito espírito aventureiro, rumaram ao desconhecido.
Ele havia pesquisado no Google sobre eventos gratuitos nas cidades em torno de Santa Maria, onde moravam. No entanto, por ser fim de semana, todos os locais indicados estavam fechados. Além das atrações Municipais, sugeridas como turísticas, que estavam em reforma há meses e só descobriram isso ao chegarem nos locais. Ao que parecia, o desconhecido continuaria desconhecido.
Independente das ruas vazias, lojas fechadas e do crescente número de placas das prefeituras indicando reformas, esforçavam-se em aproveitar ao máximo o dia juntos. O namorado tentando tirar o melhor lado das situações, achando o resultado negativo de todo planejamento até engraçado, um dia para ser lembrado e contado para os amigos. Opinião não compartilhada pela namorada que, apesar de tentar com todas as forças, não conseguia nutrir bom humor com tudo o que estava acontecendo até aquele momento.
Um dos locais indicados pela internet para ser visitado era o porto de Dona Francisca. Não havia fotos no site, então tudo que descobrissem lá seria total surpresa. Como nunca haviam visitado um porto, estavam curiosos para saber se aquele local salvaria todo o passeio. Com certeza, a visão de pessoas entrando e saindo de barcos, de jet skis, observar os pescadores e as ondas do Rio batendo na orla, animariam o dia.
Após cruzarem a cidade, admirando a bela arquitetura colonial das janelas e portas fechadas, com o ânimo tão vibrante quanto o carro passando pelas ruas de paralelepípedo, seguiram as placas de indicação para chegar ao dito porto. E, para surpresa de ninguém, era tão sem graça quanto o resto da viagem. A esperança guardada no coração agora se resumia em frustração e incredulidade. Checaram no Maps duas ou três vezes para confirmar se aquela grande rampa de concreto, larga, cujo fim se encontrava submerso na água, era realmente o lugar onde deviam chegar. Mesmo perplexos com o que o destino reservou, após um pequeno debate, concluíram que seria bom investigar se aquele local ocultava uma recompensa pelo esforço de irem até ali.
— Ah! O ar puro — exclamou ele ao sair do veículo e dar alguns passos em direção ao rio. — E não dá para dizer que não é um lugar bonito.
Em contraste com a construção humana, que desse lado da margem era somente o concreto e poucas árvores mirradas, a obra da natureza encantava quem estivesse disposto a admirar. A rua acabava em um rio muito largo e de corrente forte. De um lado, onde eles estavam, era a cidade e na outra margem havia uma floresta fechada cheia de árvores de mata atlântica. O brilho do sol forte refletia nas pequenas ondas que se formavam pela corrente, proporcionando uma bela imagem.
— Hora da foto — disse ele sorrindo enquanto puxava o celular do bolso ao notar que ela, exteriorizando o seu mau humor, balançava a cabeça em negação e apoiava uma das mãos na cintura.
— Bah! A pesquisa nos enganou bonito — falou ela, mantendo a pose, enquanto ele admirava a foto que certamente geraria mais divertimento depois.
— Sei que não é o ideal, amor. Mas, pelo menos, estamos aproveitando o fim de semana juntos. Vem tirar uma selfie! — pediu ele dando uma risadinha marota, tentando abraçá-la desviando do cotovelo perigosamente posicionado.
Dinâmica como uma estátua, ela se dignou apenas a mexer os olhos em direção à câmera. Seu esforço de formar um sorriso foi tanto que suas bochechas tremiam, gerando uma risada solta do namorado.
— Desculpa, meu amor! — falou ela, mudando finalmente a pose, decidindo ceder ao abraço e curtir o momento. — Só estava pensando em algo diferente para a gente aproveitar o dia.
— Sim, eu sei. Logo as coisas vão melhorar, e um dia conseguiremos ir para Florianópolis como a gente sempre quis. Por enquanto vamos aproveitar a vista das águas do rio Jacuí.
— Realmente é muito lindo — elogiou, conseguindo enfim admirar a natureza em sua frente. — É muito bom estar aqui contigo. Mas precisava ter trazido o seu irmão mais novo junto?
Olharam para trás e lá estava o adolescente com um boné apoiado levemente torto na cabeça, camiseta larga e calça caqui. Após jogar pedrinhas no rio para assustar os pequenos peixes que estavam próximos da parede íngreme, vinha na direção do casal.
— Ele está sempre trancado no quarto, jogando. Queria aproveitar para tirar ele um pouco de casa, e para vocês se conhecerem melhor também.
— Obrigado por me trazerem junto! — agradeceu o irmão ao se aproximar deles. — Essa viagem vai ser inesquecível.
— Mesmo sendo horrível?
— Não disse que ia ser uma lembrança boa — respondeu.
Todos riram, lembrando e fazendo piada dos fracassos que passaram durante a viagem.
— Ei, o que é aquilo?
A conversa dos três foi interrompida por uma visão aterradora: escondida entre pedras e lama, havia uma pessoa de bruços onde a água encontrava a estrada. A metade inferior de seu corpo estava mergulhada, e movia-se debilmente como se estivesse boiando quase sem forças. Os três se aproximaram com cautela, tentando chamar a atenção da estranha, perguntando se ela precisava de ajuda. Sem resposta, seus corações bateram mais forte. Perceberam que, na verdade, ela não se movia, parecia desmaiada, balançando com as pequenas ondas que batiam em seu corpo. Preocupados, agarraram suas mãos inertes e a puxaram para fora da água, temendo que estivesse se afogando.
Os três caíram no chão frio e úmido do porto, esfolando as mãos na brita exposta pelas ondas. Fizeram um esforço desproporcional ao puxá-la, e, junto a isso, levaram um susto ao notar o porquê do corpo parecer mais leve do que deveria. Da cintura para baixo, havia apenas um espaço vazio.
O casal e o adolescente olhavam aturdidos o rosto de uma bela jovem que se revelou ao virarem o corpo sem querer. Os cabelos bastante lisos, negros como as águas do rio, agora se emaranhavam na face e torso nu. O rosto transbordava tanta beleza que os olhos pálidos, ostentando a morte, pouco assustavam. O que realmente despertava o anseio de fugir daquele local era o corpo incompleto. No lugar dos quadris via-se apenas resto de músculos e ossos expostos, como se ela tivesse sido atacada por um monstro do rio ou sido abandonada lá após um espetáculo de mágica malsucedido.
— Pronto! — falou o irmão mais novo, de olhos arregalados. — Estou traumatizado! Devia ter ficado em casa jogando Team Fortress!