Prólogo O Cheiro da Chuva · Capítulo 1 de 15
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Prólogo

A chuva caía fina, insistente, como se o céu soubesse de algo que eu ainda não entendia. O hospital estava como sempre: luzes brancas, corredores frios, vozes abafadas e cheiro de álcool. Era o meu terceiro plantão da semana e, como sempre, eu dava o meu melhor. Salvar vidas era o que eu sabia fazer.

Era a minha âncora, a minha única certeza em um mundo feito de diagnósticos e exatidões. Eu lidava com a ciência, com o que podia ser visto em um raio-X ou medido em um monitor cardíaco.

Para mim, o invisível não existia... Ou pelo menos era isso que eu acreditava.

Naquela noite, o relógio marcava pouco depois das duas da manhã quando uma tempestade começou a ganhar força lá fora. Os trovões ecoavam distantes, fazendo as janelas vibrarem levemente. O pronto-socorro estava relativamente tranquilo, algo raro para uma madrugada. Foi quando fui buscar um café. Com a caneca quente entre as mãos, notei uma figura parada no final do corredor.

E, por mais absurdo que pareça agora, ninguém além de mim pareceu notar sua presença... Ele era alto, vestido inteiramente de preto, e permanecia imóvel.

Por um instante, pensei que fosse um familiar aguardando notícias de um paciente. Mas havia algo errado. Algo que fez um arrepio subir lentamente pela minha espinha.

Ele não parecia pertencer àquele lugar.

Os cabelos escuros estavam levemente úmidos, como se tivesse caminhado sob a chuva durante horas. Seu rosto permanecia parcialmente escondido pelas sombras, mas seus olhos... Seus olhos estavam fixos em mim, como se me conhecessem, como se estivessem me esperando. Piscar não ajudou, ele continuou ali. Uma sensação estranha apertou meu peito.

Então o monitor cardíaco de um dos quartos disparou. Corri imediatamente para atender à emergência. Foram apenas alguns segundos, mas, quando voltei a olhar para o corredor, ele havia desaparecido. Nenhuma câmera registrou sua passagem, nenhum funcionário o viu e nenhum paciente relatou sua presença.

E, ainda assim, durante horas não consegui esquecer a cena daquele homem parado no corredor. Tentei me convencer de que o cansaço havia pregado uma peça na minha mente. Mas a lembrança daquele homem estava inquietando meus pensamentos sempre que eu me permitia ficar em silêncio.

Não sabia que aquele seria o início da ruína de todas as certezas que construí ao longo da vida. Não sabia que algumas tempestades não trazem apenas chuva. Elas anunciam destinos, e o meu já estava caminhando em minha direção, vestido de preto e esperando nas sombras.

Lá fora, a tempestade começou a perder força. A escuridão da madrugada deu lugar aos primeiros tons acinzentados do amanhecer, filtrando-se pelas janelas do hospital.

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