O Quarto 402 O Cheiro da Chuva · Capítulo 3 de 15
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O Quarto 402

O despertador tocou às 4h. Sofie esticou o braço para desligá-lo, o corpo protestando contra a hora ingrata, mas a mente já alerta. O ritual matinal era sagrado, uma coreografia que a preparava para o caos do hospital. Ela caminhou descalça pelo piso de madeira aquecido até a cozinha. O aroma forte e terroso do café preto começou a preencher o ar enquanto a máquina trabalhava. Ela serviu uma xícara fumegante, segurando-a com as duas mãos, deixando o calor penetrar em seus dedos antes de dar o primeiro gole amargo e revigorante, junto de seu omelete.

O banho foi rápido e deliberadamente gelado. A água fria atingiu sua pele alva, arrancando um suspiro curto e fazendo seu coração acelerar, despertando cada célula de seu corpo esguio e curvilíneo. Era a única forma de garantir que estaria cem por cento presente para seus pacientes. De volta ao quarto, diante do espelho do banheiro, ela iniciou a transformação na "Doutora Bergan". Começou pelo cabelo; os fios longos e pretos, ainda úmidos, foram escovados com vigor e, em seguida, habilmente trançados e presos em um coque baixo e firme, sem deixar um único fio rebelde solto. O penteado era prático e severo, emoldurando seu rosto de traços marcantes. Ela finalizou com o batom nude, sua marca registrada, um toque sutil de cor que definia seus lábios sem chamar atenção excessiva.

O inverno norueguês lá fora exigia camadas de proteção. Ela vestiu uma blusa térmica de manga comprida, de tecido tecnológico preto, que aderiu ao seu corpo como uma segunda pele. Por cima, colocou uma malha de algodão merino cinza-chumbo, gola alta e mangas ajustadas. Sob todas aquelas camadas de tecido, escondidas do mundo e do ambiente asséptico do hospital, estavam as tatuagens de Sofie. Elas se espalhavam por suas costas, costelas, braços e pernas, mas agora estavam perfeitamente ocultas.

As tatuagens em tinta preta eram intrincadas: nós rúnicos que se entrelaçavam, símbolos de proteção como o Aegishjalmur e linhas geométricas que narravam a resistência dos antigos povos do norte contra o inverno eterno. Eram marcas de linhagem, de uma Noruega selvagem que ela escondia. Cada linha, cada ponto, era uma lembrança de quem ela era fora daquele uniforme branco.

Naquele momento, no entanto, Sofie trancou essa parte de si mesma, deixando apenas a médica racional e focada emergir. Ao sair de casa e entrar em seu carro, a eletricidade latente que Alana mencionou na noite anterior ainda vibrava sob sua pele, mas estava contida, mascarada pela rotina pesada do hospital que a esperava. Ela estava pronta para o dia, ignorando que o maior desafio não seria uma cirurgia complexa, mas o encontro iminente.

Chegando ao hospital, Sofie deslizou os braços pelas mangas do jaleco branco impecável, abotoando-o até o pescoço. Cumpriu suas obrigações diárias; às 7h30 da manhã, foi até o quarto de Philip para a segunda visita, trazendo consigo os resultados dos exames. Ela bateu de leve e entrou. O sol de inverno entrava pelas frestas da persiana em feixes dourados, criando listras de luz que dançavam sobre a pele bronzeada de Philip e destacavam o relevo dos músculos do peito. As tatuagens escuras pareciam ganhar vida sob aquela iluminação cinematográfica enquanto ele permanecia sentado, observando cada movimento de Sofie com uma atenção que beirava o predatório.

Sofie sentia a boca secar e o ritmo do coração se perder em batidas desordenadas. Ela tentava se concentrar nos resultados dos exames, mas a visão daquele homem seminu e poderoso, mesmo com as marcas do acidente, era um convite constante para que sua postura profissional desmoronasse ali mesmo. Ela se aproximou o suficiente para que o calor emanado pelo corpo de Philip envolvesse seus sentidos, o perfume dele misturado ao cheiro da própria pele era uma armadilha, então ela voltou à realidade.

— Voltei com os resultados — ela disse, tentando manter a voz profissional, embora o coração estivesse em um ritmo diferente. — Está tudo limpo, Philip. Sem sangramentos, sem traumas internos graves.

— Isso é uma notícia excelente, não é? — Ele disse, mas não olhava para os papéis, olhava para ela.

— É sim. Vou apenas checar os pontos da escoriação no seu ombro e trocar o curativo, antes de assinar sua alta de amanhã.

Quando seus dedos finalmente tocaram o ombro dele para trocar o curativo, a descarga elétrica foi tão violenta que ela precisou segurar o

fôlego para não vacilar.

Philip

a obsessão que ela despertava em mim era uma tortura fisica que eu não conseguia

a mulher era uma estranha, alguém que surgiu no meio do sangue e do caos, mas

controlar. O perfume de baunilha que vinha dela me deixava tonto, uma embriaguez doce que me fazia querer puxá-la para o meu colo e sentir o peso do seu corpo contra o meu até que não houvesse mais espaço para o oxigênio. Ver a respiração dela ficar curta enquanto ela cuidava do meu ferimento era o meu maior

prazer. Eu queria que ela demorasse horas, dias, que aqueles dedos pequenos e

firmes continuassem mapeando a minha pele com essa hesitação que me deixava em brasa. Eu estava faminto por ela de uma forma irracional e o desejo de possuí-la, de marcar cada centímetro daquela pele pálida, era a única coisa que importava

naquele quarto.

Sofie limpava a ferida com a gaze, mas o movimento era lento, quase carnal, a pele de Philip vibrava sob o seu toque e ela sentia o olhar dele queimando seu rosto, descendo para sua boca e voltando para seus olhos com uma intensidade que fazia suas pernas fraquejarem. Ela levantou os olhos e se afogou naquelas íris castanhas, a distância entre eles era tão pequena que ela conseguia sentir o hálito quente dele batendo contra seus lábios, uma força a empurrava para frente, o desejo era uma dor aguda no centro do seu ser, uma gravidade que a impelia a cruzar a linha final e se entregar àquela loucura que ambos já haviam aceitado.

— Dói aqui? — Ela sussurrou, a mão repousando no trapézio dele. — Não — Philip respondeu, a voz carregada de felicidade e um sorriso largo — Na verdade... parece que nada dói quando você encosta.

Sofie paralisou por um milésimo de segundo. Os olhos dela encontraram

os dele novamente. Estavam a centímetros de distância. O silêncio que ficou no quarto 402 era tão denso que o som do soro gotejando parecia uma contagem regressiva. Sofie mantinha os dedos contra o ombro de Philip, sentindo o calor da pele dele atravessar as luvas de látex.

— Se estiver melhor amanhã... — ela começou, a voz saindo mais baixa do que o normal. — Já terá alta. E poderá ir embora, ir para casa com sua esposa.

As palavras "sua esposa” pesaram no ar como chumbo. Sofie sentiu um nó doloroso se formar na garganta enquanto a imagem da loira chorosa da tarde anterior voltava para assombrá-la. Ela se soltou do aperto dele com delicadeza, desviando o olhar para finalizar o curativo. Cada centímetro de pele que deixava de tocar a dele parecia perder o calor instantaneamente.

As mãos de Sofie agiam por instinto, um trabalho de gaze e esparadrapo que ela poderia executar de olhos fechados. Mas, por dentro, cada terminação nervosa onde a pele dele havia encostado parecia gritar com a perda súbita de calor. O contraste entre o ambiente climatizado do hospital e a brasa que era o corpo de Philip a deixava tonta. Ela terminou o curativo na lateral do abdômen dele, esticando o tecido do jaleco para se recompor. O sol da manhã, agora mais forte, desenhava as sombras das tatuagens dele contra o lençol branco, transformando o quarto em uma galeria de arte.

— Como eu disse, sua alta será amanhã cedo, Philip — ela disse, a voz recuperando a cadência profissional, embora o peito subisse e descesse rápido demais sob sua roupa. — Preciso garantir que não haverá picos

de dor durante a madrugada. A enfermeira Nora irá finalizar os

cuidados e trará seu almoço em breve. —Disse, tirando as luvas e as jogou no lixo, e Philip reparou em suas mãos delicadas.

Sofie apertou a prancheta contra o peito como se o metal pudesse servir de escudo para o seu coração, que martelava tão forte que chegava a doer, e cada passo que ela dava em direção à saída parecia exigir um esforço anormal sob o peso daquele olhar que a despia e a reivindicava. Quando a voz dele a atingiu, o som foi como um laço apertando seu pescoço, obrigando-a a girar e encarar aquela imagem que ela sabia que a perseguiria por noites a fio: o homem sentado na maca, exalando uma masculinidade excitante e proibida.

— Doutora?

Sofie congelou. Levou um segundo para organizar as feições antes de girar o corpo. — Diga, Philip.

Ele ainda estava sentado na borda da maca, a luz realçando o desenho da barba escura e a profundidade dos olhos castanhos, que agora pareciam duas poças de mel queimado. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, um gesto de dúvida que beirava a insolência. — Será que bati com a minha cabeça muito forte... ou eu senti algo aqui?

O silêncio foi cortante. Sofie sentiu o sangue latejar nas têmporas. Ela viu a verdade na pergunta dele, uma verdade que ela mesma estava tentando soterrar. — Você está bem, Philip. Nada aconteceu aqui — ela disparou, mas as palavras soaram ocas até para os seus próprios ouvidos, uma mentira desesperada enquanto ela fugia para o corredor, sentindo o clique da porta se fechando como o fim de um capítulo que ela sequer deveria ter começado.

Caminhando rápido pelo corredor esterilizado, Sofie sentia um calor úmido e traiçoeiro se espalhando por seu corpo, uma reação fisiológica que a enojava e a fascinava ao mesmo tempo. Ela odiava a forma como a pele dele parecia ter deixado uma marca permanente em seus dedos e odiava ainda mais o fato de que, por trás daquela negativa firme, sua mente gritava o oposto; ela sabia que o que ele sentia não era fruto de um trauma craniano, mas de uma química absurda que fazia ambos não pensar em mais nada.

A imagem da esposa de Philip surgiu em sua mente como um balde de água fria, mas nem o peso da moralidade conseguia apagar a memória daquela tensão que quase a fez se jogar nos braços de um homem casado em pleno horário de trabalho. Ela era uma médica, uma profissional respeitada, e Philip era apenas um paciente, um homem com uma vida completa da qual ela não fazia parte, mas o desejo que ele despertava nela era algo de outro mundo, algo que a fazia querer destruir

todas as regras apenas para sentir ele pelo menos uma única vez.

12h. O refeitório do hospital era um mar de jalecos brancos e o som metálico de talheres. Sofie encontrou Alana em uma mesa de canto, perto

da janela que dava para o jardim coberto de neve. Alana já atacava uma salada de salmão defumado com alcaparras e um suco de cranberry.

— Finalmente! Achei que você tinha sido engolida por algum prontuário — Alana brincou, abrindo um sorriso largo enquanto Sofie se sentava, deixando a bandeja com um bowl de sopa de abóbora e gengibre sobre a mesa.

— Quase isso — Sofie murmurou, retirando o coque e deixando o cabelo preto cair sobre os ombros, um alívio imediato para a tensão no couro cabeludo.

— Me conta... O que você sentiu ontem? — Sofie perguntou.

Alana parou de mastigar, a expressão descontraída dando lugar a algo mais profundo, quase místico. Ela deu um gole em seu suco gelado antes de responder.

— Foi avassalador, Sof, bom... você estava lá, mas eu vou contar mesmo assim. Eu escolhi uma mulher para representar minha "carreira" e um homem para representar minha "liberdade". Quando eles se posicionaram, eu senti um peso enorme nos ombros, como se estivesse carregando o hospital inteiro nas costas. Mas o mais louco... — ela sorriu, balançando a cabeça — foi quando o representante da "liberdade" começou a se afastar. Eu senti um vazio físico no estômago, uma náusea de saudade de algo que eu nem sabia que tinha perdido. Chorei como uma criança, senti que estava negligenciando a mulher que existe por baixo deste jaleco há

Sofie ouvia atentamente, surpresa com a vulnerabilidade da amiga, que

sempre fora a mais racional das duas. — E agora? — perguntou Sofie.

— Agora eu sinto que uma porta se abriu. Como se eu tivesse permissão para ser mais do que apenas "Doutora Alana" — ela deu um sorriso encorajador e inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa de fórmica. — Mas e você? Eu vi sua cara quando saiu daquela sala. Como foi encontrar o "paciente 402" hoje de manhã? O campo da constelação se manifestou na vida real?

Sofie sentiu o rosto esquentar, o calor subindo pelo pescoço e se escondendo sob a gola alta de sua malha térmica.

— Foi... elétrico, Alana. Quase insuportável — Sofie confessou em um sussurro, olhando ao redor para garantir que ninguém ouvia.

— Eu fui trocar o curativo dele. O sol batia no rosto dele, nas tatuagens... ele é tão bonito. Quando eu toquei o ombro dele, ele segurou meu punho.

Alana arqueou as sobrancelhas, a garfada de salmão parada no meio do caminho. — Ele te tocou?

— Com uma precisão assustadora. O polegar dele ficou exatamente em cima da minha artéria radial. Ele sentiu meu coração disparar, Alana. Ele sentiu tudo. E o contraste... a mão dele, calejada e tatuada, tocando a minha pele, parecia um sacrilégio e, ao mesmo tempo, a coisa mais certa do mundo.

— E o que ele disse? — Alana perguntou, a voz carregada de curiosidade e uma ponta de preocupação.

— Ele me perguntou se tinha batido a cabeça muito forte ou se tinha "sentido algo ali". Eu entrei em modo de defesa total. Disse que nada tinha acontecido e saí do quarto quase correndo. Mas a verdade é que, quando fechei a porta, eu tive que me encostar na parede para não ceder. Eu senti a pulsação dele nos meus dedos o caminho todo até o posto de enfermagem.

Alana suspirou, recostando-se na cadeira e observando a amiga com um olhar analítico, mas empático.

— Sof, isso não é apenas uma "química de hospital". O que vimos ontem na constelação... aquele homem alto de olhos sérios que representava o destino... as peças estão se encaixando rápido demais. Toma cuidado. Ele tem uma vida lá fora, e você tem uma reputação aqui dentro.

— Eu sei — Sofie disse, voltando a mexer na sopa, que agora já estava morna. — Mas o problema é que, após cinco anos, eu não quero ser cautelosa. Eu quero saber o que é aquele "clique" que eu senti quando nossos olhos se cruzaram, eu entendo ser errado, e por isso me afastei, mas juro... eu queria sentir algo assim por alguém solteiro.

— Até eu estou querendo sentir essa conexão toda. Disse Alana, sorrindo.

Enquanto isso, no quarto andar, Philip encarava a bandeja de comida com frango e ervilhas praticamente intocada.

Philip

\nEu não bati a cabeça. Eu sei exatamente o que senti, e a porra dos analgésicos não tem nada a ver com a sensação que me atravessou quando ela me tocou. Ela mentiu

na minha cara, tentou sustentar aquela máscara de profissionalismo, mas os olhos

dela me devoravam enquanto ela dizia que nada aconteceu, eu vi o tremor nos

dedos dela e senti a respiração falhando, o que só serviu para me deixar ainda mais

obcecado. Minha esposa deve atravessar aquela porta em uma hora com flores e

conversas inúteis sobre a reforma da cozinha, um cenário de vida perfeita que

agora me parece um teatro vazio, porque tudo o que eu consigo projetar na mente é o corpo dessa médica, o mistério que ela carrega no olhar e o desejo insano de

descobrir cada segredo que ela guarda.

Ele fechou os olhos com força e recostou a cabeça no travesseiro, mas isso só serviu para destacar a pulsação latejante em seu braço quebrado. A alta do hospital, que deveria ser o retorno à sua realidade confortável, agora parecia uma sentença de exílio cruel, uma barreira que o afastaria da única coisa que o fazia se sentir vivo novamente, transformando a liberdade em uma prisão onde o rosto de Sofie seria a única imagem

capaz de assombrar seus pensamentos.

No refeitório, o som dos talheres contra a porcelana parecia distante para Sofie. Alana terminou seu suco, observando a amiga com uma mistura de preocupação e cumplicidade.

— Você está em outro planeta, Sof — Alana disse, sorrindo de leve e ajeitando seu cabelo. — Mas aproveite. Terça-feira é seu dia de sorte e o nosso turno acaba às 13h. Vá para casa, tome um vinho e esqueça o "destino amoroso" por algumas horas.

— E isso que eu vou fazer — Sofie mentiu, retribuindo o sorriso enquanto

se levantava.

Ela caminhou até o vestiário, retirou o jaleco branco e o pendurou. Por baixo, a malha térmica preta delineava seu corpo esguio. Ela soltou o cabelo novamente. Ao sair para o estacionamento, o ar frio de Oslo tocou seu rosto, mas a eletricidade sob sua pele continuava lá. Sofie entrou em seu SUV preto, o couro dos bancos frio contra sua pele, e manobrou com a precisão de quem domina cada cavalo-vapor daquela máquina robusta. O motor rugia baixo, uma vibração mecânica que subia pelo assoalho e ressoava na inquietude que ainda eletrizava seu corpo. Ao ligar o rádio, a batida lenta e hipnótica de Apocalypse começou a preencher o carro, a voz etérea e melancólica do Cigarettes After Sex, se fundindo perfeitamente com o clima denso, transformando o trajeto em um cenário de desejo e perda.

Ao parar no primeiro sinaleiro, ela deixou a cabeça pender para trás e fechou os olhos, permitindo que a música a carregasse de volta para aquele quarto, onde só existiam os dois. No vazio das pálpebras, a imagem de Philip se materializou, ela conseguia sentir a presença dele ali, a poucos centímetros, o calor da pele dele emanando como um incêndio.

Na sua mente, os dedos grandes e calejados dele deslizavam pelo contorno do seu rosto, uma carícia possessiva que descia lentamente pelo seu pescoço, enviando ondas de choque que faziam seus mamilos enrijecerem sob a blusa. A ilusão era tão palpável, o cheiro de tabaco e

asfalto tão presente, que ela arqueou o corpo involuntariamente, buscando o toque que ele não podia dar.

O som estridente da buzina atrás dela cortou o transe, jogando-a de volta para a realidade fria do trânsito. Sofie abriu os olhos de sobressalto, o coração disparado e a respiração pesada, vendo o sinal verde brilhar à sua frente. Ela pisou no acelerador, as mãos firmes no volante, sentindo um misto de raiva e uma fome desesperada enquanto acelerava, tentando fugir daquela obsessão que agora a seguia até para fora das paredes do hospital. O trajeto até o mercado foi uma tentativa frustrada de enterrar a tensão que ainda vibrava em seus músculos, mas, ao dobrar uma esquina, o vislumbre de uma ruela lateral de paralelepípedos úmidos mudou tudo. Uma vitrine pequena, emoldurada por madeira escura e protegida por uma cortina de veludo bordô, surgiu em sua visão periférica, com uma placa de letras douradas descascadas que prometia "Conselhos e Cartas”.

Você é uma cientista, Sofie. Cartas são pedaços de papel com desenhos coloridos.

Dentro do supermercado, o ambiente iluminado não foi suficiente para afastar a sombra de Philip. Ela percorria os corredores pegando itens, o vinho branco seco, os queijos curados e as frutas vermelhas pareciam desprovidos de cor diante da imagem mental das tatuagens dele sob a luz do sol.

— Ele é um paciente, ele é casado, ele é um problema. Ela repetia para si mesma como um mantra, mas a voz da razão era abafada pelo eco daquela conexão magnética que a Constelação Familiar havia escancarado.

Ao chegar ao caixa, a dúvida martelava. Ela guardou as sacolas no porta-malas do SUV, o som do fechamento automático ecoando no estacionamento subterrâneo. Ela entrou no carro, colocou as mãos sobre o volante e suspirou. A lógica dizia: Vá para casa e descanse. Mas algo mais forte, algo que a Constelação Familiar havia despertado, sussurrava:

Vá até lá, busque a resposta que você já sabe. Ela engatou a marcha e manobrou o SUV com agressividade, ignorando o bom senso enquanto refazia o caminho até a ruela escura, impulsionada por uma curiosidade que já tinha gosto de pecado.

Sofie estacionou a duas quadras, permitindo que o frio tocasse seu rosto enquanto caminhava, sentindo-se vulnerável sob o casaco longo. A ruela era estreita, as paredes de pedra pareciam se fechar sobre ela até que parou na porta de madeira pesada. Ao abri-la, o tilintar da sineta foi abafado por uma atmosfera densa, um ar saturado de incenso de canela e resinas queimadas que pareciam grudar na garganta. O interior era mergulhado em uma penumbra, onde as sombras dançavam nos cantos da sala repleta de livros antigos e frascos de vidro escuro, e no centro, sentada atrás de uma mesa de carvalho maciço, estava uma mulher.

A mulher era jovem, mas seus olhos tinham a profundidade estagnada de águas de um rio perigoso, um castanho tão escuro que parecia ler não apenas o rosto de Sofie, mas as camadas mais brutas de sua mente.

— Me chamo Aline. Sente-se, doutora — a voz dela surgiu como o raspar de folhas secas sobre o metal.

— Como sabe que sou médica? — Sofie disparou, a desconfiança retesando cada músculo do seu corpo enquanto ela se acomodava na poltrona de veludo gasto.

— Você trouxe o frio do hospital e cheira a antisséptico, mas em seu coração o fogo queima de um jeito que a ciência não explica. — Aline fez um movimento lento com a mão, ignorando a postura defensiva de Sofie.

— Eu não costumo acreditar nessas coisas, não tenho perguntas concretas, apenas me mostre o que eu devo saber sobre um homem que vem dominando meus pensamentos — Sofie confessou, a voz firme, mas os dedos inquietos traindo-a ao apertar o tecido da poltrona.

Aline sorriu, um movimento sinuoso que não alterou o brilho fixo de suas pupilas. Ela começou a embaralhar o maço de cartas gastas, cujas bordas estavam amareladas e o som do papel deslizando contra a madeira preencheu a sala. Com uma unha longa, pintada em um tom de terra profundo, ela revelou a primeira lâmina.

— Os Enamorados — a cartomante sussurrou, a voz vibrando nas têmporas de Sofie. — Esta carta fala de uma encruzilhada de alma. Você está dividida entre o caminho seguro e estéril que construiu e um chamado visceral que não pode ser ignorado. Esse homem não é um acaso; ele é o espelho de tudo o que você esconde sob o seu jaleco branco.

A segunda carta foi virada, revelando uma figura imponente e sombria que fez o estômago de Sofie contrair.

— O Diabo — continuou Aline, os olhos cravados nos de Sofie. — Não se assuste com a face dele. Aqui, ele representa uma conexão puramente química, uma fome que queima a lógica. Ele mostra que existe uma força magnética entre vocês que rompe o natural, algo que ignora as regras da moralidade e da ciência. É uma obsessão já infiltrada na sua carne, doutora, um vício que você ainda não sabe que tem.

Por fim, a terceira carta revelou uma construção sendo partida ao meio por um raio sob um céu de breu.

— A Torre — sentenciou a mulher. — Sua vida está prestes a sofrer um abalo sísmico. Tudo o que você considera estável, seu trabalho, sua frieza, sua rotina, vai desmoronar. A Torre cai para que a verdade apareça por trás das mentiras que você conta a si mesma. O preço de encontrar o que você sempre buscou é o caos absoluto.

O ar pareceu faltar nos pulmões de Sofie, uma náusea física misturada a um pavor da imagem da loira impecável abraçando Philip no hospital

inundava sua mente como um veneno. "Ele é casado”, sua razão gritava em um último ato de resistência, tentando sufocar o rubor quente que subia por seu pescoço e incendiava suas bochechas.

— Isso está errado. A senhora deve ter se enganado de pessoa — Sofie disse, levantando-se bruscamente, o ranger da cadeira contra o chão ecoando como um grito de socorro.

Ela pagou a consulta com as mãos trêmulas e saiu apressada para o ar gelado da rua, tentando inspirar o máximo de oxigênio possível. "Algo que rompe o natural", as palavras de Aline a perseguiam enquanto ela entrava no SUV e dirigia em silêncio, lutando para convencer a si mesma de que tudo aquilo era uma alucinação esotérica, enquanto, no escuro de suas pálpebras, o traçado das tatuagens de Philip continuava a ser desenhado.

Enquanto Sofie tentava fugir do destino, Philip estava mergulhado nele. O silêncio do hospital era uma tortura. Ele pegou o celular, a mão sã digitando o nome que não saía de sua cabeça.

Quando o perfil de Sofie apareceu, o coração dele deu um solavanco. A mulher que ele encontrou nas fotos era um universo inteiro além da médica de jaleco. Ele viu fotos dela em cima de uma moto potente, os cabelos pretos soltos ao vento, uma expressão de liberdade selvagem.

Viu a força nos braços dela enquanto resgatava cães abandonados na ONG que ela mantinha. Mas foi uma foto específica que o fez parar de respirar. Ela estava encostada na moto, usando uma regata preta justa que realçava seu corpo esguio e marcava suas curvas. O olhar dela na foto era desafiador, livre, e as tatuagens nórdicas apareciam nos braços, contando histórias de deuses.

Philip

Eu encontrei a minha perdição em uma tela de vidro, e o que eu vejo está me destruindo por dentro de um jeito que nenhum acidente seria capaz. Como ela consegue projetar essa aura de controle absoluto enquanto cada detalhe nessas fotos grita uma selvageria que eu sinto pulsar na minha própria carne? Meus olhos estão fixos na curva dos ombros dela, naquela regata fina que se molda aos seios com uma insolência que me faz perder o fôlego, o tecido abraçando o corpo dela como se fosse a minha própria mão, e a vontade que eu sinto de rasgar essa roupa e provar cada centímetro daquela pele pálida. Eu deslizo o polegar pela imagem do rosto dela e sinto que vou enlouquecer se não tiver o calor daquela anatomia sob os meus dedos novamente, sentindo a resistência e a entrega que ela tenta esconder. A alta é amanhã, a liberdade está batendo na porta, mas a ideia de sair daqui e não ter mais o rastro do perfume dela ou a eletricidade do seu toque é

insuportável, uma sentença de morte lenta para um homem que

acabou de descobrir o seu único e mais perigoso vício. Como ela faz isso comigo? Eu nunca senti nada nem perto disso antes, essa possessão

que me faz apenas querer ser consumido por ela.

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