A Alta
A manhã de quarta-feira trouxe uma luz pálida e cortante que atravessava a janela de vidro, desenhando listras de ouro sobre o piso de linóleo. Sofie caminhava pelo corredor, o som de seus sapatos de
borracha ecoando uma cadência apressada. Ela havia dormido pouco; as
cartas da noite anterior, os Enamorados, o Diabo, a Torre, haviam dançado
em seus sonhos com a imagem daquelas tatuagens.
Ao parar diante da porta do 402, ela respirou fundo, ajustando o jaleco. O nó na garganta ainda estava lá. Ela girou a maçaneta e entrou, Philip estava de pé ao lado da cama. Ele vestia a calça jeans escura, mas estava com o tronco nu, lutando para passar uma camiseta preta de algodão pelo braço engessado e pelo ombro imobilizado. Os músculos de suas costas tensionavam-se, revelando a força bruta de sua anatomia, e as tatuagens pareciam ganhar vida sob a luz matinal.
— Bom dia, Philip — disse Sofie, a voz vacilando. — Não mova seu braço assim. Você vai acabar rompendo os pontos da escoriação.
Philip parou o movimento no meio do caminho, a camiseta de algodão presa no topo da cabeça, expondo o peito largo e o relevo abdominal onde a luz da manhã desenhava sombras em seus músculos. A barba escura e bem desenhada emoldurava o sorriso de lado que ele lançou para ela, uma expressão carregada de malícia.
— Bom dia, doutora — a voz dele, rouca e densa, vibrou diretamente no peito de Sofie. — Pode me ajudar, por favor? Sou um desastre tentando fazer isso sozinho.
A hesitação de Sofie durou apenas o tempo de uma batida de coração; a ética sussurrava para ela chamar um enfermeiro, mas seu corpo já operava sob uma gravidade diferente, atraída pela massa de calor que ele exalava. Ela deu um passo para dentro e fechou a porta, o clique seco do trinco selando-os em um universo onde apenas a respiração pesada dos dois existia. Ao erguer as mãos para segurar o tecido, os dedos dela roçaram a pele firme e quente do abdômen dele, que fez a ponta de seus dedos formigarem.
O perfume dele a atingiu com uma mistura bruta de sabão, o rastro metálico de graxa e o cheiro carnal de homem que a deixava tonta. Sofie ergueu as mãos e segurou o tecido da camiseta.
— Incline a cabeça — ela sussurrou.
Quando a gola finalmente passou pelo rosto de Philip, os olhos dele emergiram, prendendo os dela. Eles estavam tão perto que o hálito dele, quente e com gosto de café, acariciava a boca de Sofie. Philip não recuou; em vez disso, a mão direita dele subiu com uma lentidão torturante, os dedos subindo pelo pescoço dela até que o polegar tragasse a linha da mandíbula e se afundasse no lábio inferior dela, puxando-o levemente para baixo, expondo a umidade rosada da sua boca. Um estremecimento atravessou Sofie, provocado por algo que ia além da razão. O olhar dele deslizou lentamente até a boca dela e ali ficou preso, pesado de intenção. Ela sentiu o calor daquele olhar e o desejo dela cedeu. Os lábios entreabertos, a respiração suspensa, o corpo traindo tudo aquilo que ela tentava esconder.
— Eu não bati a cabeça, Sofie — ele disse com a voz carregada de uma possessividade que a fez arfar contra os dedos dele. — Eu sei o que está acontecendo aqui. E você também sabe.
O "Diabo" da cartomante estava ali, pulsando entre eles, na maneira como o corpo de Philip se inclinava para a frente, diminuindo o último vestígio de espaço até que ela pudesse sentir o calor do peito dele contra os seus seios, e na vontade insana que Sofie sentia de abrir a boca e morder aquele polegar que a provocava. O desejo era uma tensão extrema que os lábios de ambos se buscavam por instinto, quase se roçando, suspensos em um milímetro de distância onde a moralidade era apenas um conceito distante prestes a ser incinerado.
O som abafado de passos contra o piso de granito do corredor agiu como um alerta para a realidade, estilhaçando o vácuo de luxúria que os envolvia. Sofie se desvencilhou do toque de Philip com uma agilidade desesperada, o coração acelerado, enquanto ela recuava dois passos largos.
Com as mãos trêmulas, ela agarrou a prancheta de metal, os papéis amassando sob a pressão dos seus dedos, e fixou os olhos nas letras
impressas que mal conseguia focar, sentindo o rosto arder. Começou a
falar: — ...e é fundamental que você mantenha o braço elevado e
evite qualquer esforço físico nas próximas setenta e duas horas —
ela disparou com uma voz que tentava emular a frieza técnica.
O clique da maçaneta cortou a frase ao meio e a porta se abriu, o enfermeiro entrou.
— Bom dia, doutora Bergan! Bom dia, Sr. Philip! Vejo que já estamos nos preparando para a liberdade.
Sofie levantou os olhos, sua expressão agora era uma máscara de gelo e profissionalismo, embora suas bochechas ainda estivessem levemente coradas, a tensão sexual ainda pairava no ar entre a médica e o paciente. — Bom dia, Erik — ela disse, a voz saindo firme. — Sim, de acordo com os laudos e os exames de imagem da manhã, o Sr. Philip está em perfeitas condições. A cicatrização está excelente e não há sinais de trauma interno. Pode ajudá-lo com a papelada final e o check-out. Está tudo bem com o nosso motociclista, ele pode ir embora.
Erik assentiu, começando a organizar os documentos. Sofie levantou-se, pegando sua prancheta e evitando olhar diretamente para Philip, embora sentisse o olhar dele sobre ela, carregado de tudo o que havia ficado suspenso no ar.
— Tenha um bom retorno, Philip — ela disse, já se dirigindo à porta.
— Obrigado por tudo, doutora — Philip respondeu, e o tom de sua voz dizia claramente que aquele "tudo" envolvia muito mais do que medicina.
Sofie saiu para o corredor, sentindo o ar voltar. Ela caminhou rápido, mas a cada centímetro que se afastava daquela porta, a realidade parecia se tornar mais sufocante. Assim que dobrou o corredor e se viu sozinha em direção ao vestiário, ela encostou as costas na parede fria, fechando os olhos enquanto o oxigênio finalmente voltava com calma. A frieza da parede não era páreo para o incêndio que Philip havia ateado em sua pele, ela sentia cada célula do seu corpo vibrando, uma pulsação rítmica
que se concentrava entre suas coxas, deixando-a úmida e trêmula sob o
uniforme.
A sensação do polegar áspero de Philip em seu lábio inferior ainda queimava. Ela passou a língua pelos lábios, tentando desesperadamente resgatar o sabor dele, enquanto sua mente traidora projetava a imagem dele sem camiseta, aquele corpo e aquelas tatuagens que ela agora desejava tocar com a própria boca. Era um tesão absurdo, uma luxúria primitiva que a despia de toda a sua lógica científica e a transformava em uma mulher desesperada por um toque dele.
— Porra! O que eu fiz? — ela sussurrou para o vazio, embora seu corpo soubesse exatamente o que queria. A queda da Torre não era mais uma previsão de cartas gastas; era o colapso da sua própria resistência. Ela sentia que, se ele tivesse estendido a mão e a puxado para aquela maca, ela teria ido sem hesitar, esquecendo o hospital, a carreira e a esposa loira que agora ocupava o lugar que sua carne gritava para ser dela.
Sofie apertou as mãos contra sua boca, tentando sufocar o
gemido de frustração que subia por sua garganta, ciente de
que, mesmo que ele estivesse indo embora, o veneno daquela obsessão já corria livre em suas veias,
e a abstinência prometia ser a pior das dores.
Os dias se passaram, a alta de Philip foi marcada por uma normalidade que Sofie tentava desesperadamente reconstruir. Ela mergulhou nas cirurgias, nos resgates da ONG. Deixando que o frio cortante durante suas
trilhas de moto anestesiasse sua pele, mas a ferida aberta por Philip não cicatrizava com o tempo. A "Torre" já estava em ruínas, e ela apenas
caminhava sobre os escombros, tentando se convencer de que a imagem
daquele homem era apenas um delírio passageiro.
Duas semanas após a saída dele, em uma terça-feira, o relógio marcava 11h, quando alguém bateu na porta da sua sala. Quando a porta girou, Philip preencheu o vão. Ele exalava confiança, a jaqueta de couro preta jogada sobre os ombros largos e o gesso todo desenhado, como se ele agora também fosse tatuado.
— Vinte minutos, doutora — ele disse, fazendo o ventre de Sofie contrair
em uma resposta involuntária. — É o tempo que o código de ética me
permite antes que eu me torne um intruso oficial.
Sofie sentiu o coração tropeçar e disparar, uma batida desordenada que denunciava sua fragilidade. Ela apontou para a poltrona de couro marrom, tentando manter as mãos firmes sobre a mesa.
— Você deveria estar em repouso, Philip. A alta não foi um convite para passeios — ela tentou soar técnica, mas sua voz saiu baixa, adorando a visita dele.
— O corpo está em repouso, Sofie. É a mente que não me deixa parar, que me arrasta de volta para o lugar onde eu perdi o controle — ele rebateu, caminhando até a mesa dela.
Ao entregar um copo de café, os dedos de Philip, com vestígios de tinta, deslizaram deliberadamente sobre os dela. A faísca foi imediata, percorreu o braço de Sofie e se instalou entre suas pernas.
— Eu tentei ficar em casa — ele confessou, enquanto se acomodava na poltrona, mas mantendo o corpo inclinado, como um predador que não sabe relaxar. — Mas as paredes parecem ter encolhido. O silêncio lá é... barulhento demais.
Philip deu um gole lento no café, os olhos castanhos percorrendo a sala com curiosidade, parando nos porta-retratos de cães resgatados sobre a mesa.
— Então você prefere o barulho de um estúdio de tatuagem? — Sofie sorriu de canto, uma falha momentânea em sua armadura.
Philip inclinou a cabeça, sustentando o olhar dela com um sorriso cheio de malícia. A barba escura parecia dar ainda mais destaque à boca carnuda e bem desenhada. — Pesquisou sobre mim, doutora? — ele perguntou, com a voz rouca e baixa que fez o ventre de Sofie latejar.
— Soube que é dono de um estúdio muito conhecido no centro — ela respondeu rápido demais, ajeitando a postura.
— Entendo. Bom, respondendo à sua pergunta... — Philip abandonou o copo sobre a mesa e inclinou o tronco para frente, invadindo o espaço de Sofie. — Eu gosto do som da natureza. Gosto do zunido rítmico da máquina de tatuar, é meditativo. Mas o que eu queria escutar agora... — ele fez uma pausa deliberada, os olhos fixos na boca dela, observando os lábios de Sofie —...era você gemendo bem perto do meu ouvido enquanto eu beijo o seu pescoço.
Ele desceu o olhar para a curva exposta da clavícula dela, onde a pulsação de Sofie batia frenética contra a pele pálida.
— Quero sentir o gosto da sua pele e descobrir se você morde os lábios desse jeito quando está perdendo o controle ou só quando está tentando me observar — ele sibilou, a voz agora um sussurro lascivo.
Sofie sentiu o ar estagnar. À expressão de Philip era de uma concentração absoluta, as íris escuras brilhando. Ele observava cada reação dela, como os olhos dela brilhavam, perdendo a clareza médica para dar lugar a uma névoa de luxúria pura. Ele estava ali, despindo-a com palavras. Ela queria gritar para ele parar, mas seu corpo agia como um traidor, inclinando-se milimetricamente em direção ao calor dele, cativa daquela obsessão que cheirava a tinta e perigo.
— Philip, sinto informar que esse tipo de "procedimento" não está coberto pelo seu seguro saúde — ela rebateu, com um brilho divertido e desafiador nos olhos, embora seu batimento estivesse a mil. — E, tecnicamente, minha prescrição para você era repouso absoluto, não um aumento súbito e perigoso na frequência cardíaca.
Philip deu uma risada rouca, encostando-se na poltrona, mas sem quebrar o contato visual.
— O risco é inteiramente meu, doutora. Mas falando em batimentos... — Ele mudou o tom, suavizando a expressão.
— Ontem, comecei o esboço de uma fênix. Acabei me perdendo no traço das asas porque elas tinham uma força estranha, que me
lembrou você aqui no plantão. Algo que renasce inteiro depois de ver o pior do mundo.
Sofie desviou o olhar para o café, sentindo o peso daquela observação. — Eu não renasço exatamente inteira, Philip. Eu remendo, eu curo, eu trato... mas algumas vezes eu falho. É como na ONG de cães que eu ajudo. Às vezes, eles chegam tão machucados que a gente só consegue oferecer um lugar quente para que eles descansem em
— E é por isso que você é a fênix — ele sussurrou, a voz voltando a ser uma carícia perigosa. — Porque você continua oferecendo o calor, mesmo sabendo que pode acabar em cinzas. Eu vi sua rede social, vi
aquele Doberman que você resgatou... ele olha para você como se
você fosse o sol.
Sofie soltou uma risada curta e genuína, o som quebrando a rigidez do consultório. — O Thor? Ele é um drama em forma de cachorro. Ele acha que tem dois quilos e chora se eu demoro cinco minutos a mais para chegar na ONG.
— Ele tem bom gosto — Philip brincou, os olhos brilhando com uma malícia
suave. — Eu também faria barulho se perdesse você de vista por cinco minutos.
Por alguns minutos, o relógio na parede pareceu parar. O hospital, a ética médica e a aliança que ele ainda carregava no dedo tornaram-se borrões em uma fotografia mal revelada. Ali, entre o vapor do café e as piadas secas deles, existia apenas o magnetismo de duas almas que, contra todas as leis da lógica, haviam decidido se reconhecer. Sofie soltou uma risada leve, um som que parecia estranho até para os próprios ouvidos, acostumados à rigidez dos diagnósticos. Ela olhou para o relógio de pulso e depois para o copo de café quase vazio.
— Vinte e cinco minutos, Philip — ela disse, endireitando a postura e sentindo o rosto mais relaxado, os lábios ainda curvados em um sorriso residual. — Passamos do nosso tempo de "protocolo". Agora você precisa realmente ir. E, por favor, descanse. É uma ordem médica.
Philip levantou-se devagar, a jaqueta de couro rangendo levemente com o movimento. Ele não caminhou até a porta de imediato. Em vez disso, deu dois passos curtos que diminuíram a distância entre eles até que Sofie pudesse sentir o calor do corpo dele. Ele a abraçou de forma breve, um gesto contido, que a fez ficar imóvel.
— Obrigado, doutora Sofie — ele sussurrou perto do ouvido dela. Ele se afastou e saiu da sala com passos firmes, sem olhar para trás, deixando apenas o rastro do aroma de café no ar.
Sofie ficou estática por alguns segundos, as mãos apoiadas na mesa de carvalho para se sustentar. Seus pensamentos eram um turbilhão: O que eu estou fazendo? Por que o abraço dele pareceu um encaixe perfeito? Por que eu queria morar naquele abraço?
A porta se abriu novamente, mas desta vez era Alana. A amiga entrou com um sorriso cúmplice, fechando a porta cautelosamente atrás de si.
— Amiga, eu deixei ele entrar, espero que não fique brava comigo — Alana disse, cruzando os braços e inclinando a cabeça com um brilho de diversão nos olhos. — Ele disse que era a consulta semanal para verificar os pontos, e eu... bom, eu não tive coragem de dizer não para aquele olhar.
Sofie soltou um suspiro longo, passando as mãos pelo rosto e sentindo a
pele ainda quente, abrindo um largo sorriso.
— Me conta como foi? — Alana perguntou animada, sentando-se na
poltrona.
— Eu tentei, Alana. Juro que tentei — Sofie começou, caminhando até a janela e olhando para o pátio cinzento do hospital. — Eu me mantive firme e séria nos primeiros cinco minutos. Mas depois... eu fui me soltando. Tomamos um café. Foi uma conversa breve onde ele confessou que descansar o corpo era a parte fácil, mas que a mente dele não parava e que precisava me ver, resumindo, foi isso.
Sofie virou-se para a amiga, a expressão subitamente tensa, os dedos brincando com o estetoscópio no pescoço.
— Eu tive que levantar e dizer que tínhamos passado do tempo. Ele me deu um abraço rápido antes de sair e, Alana... eu juro que senti aquela sensação estranha de novo. Uma vontade imensa de permanecer ali, de não soltar. Isso é tão errado. E o pior é que, semana que vem, eu realmente preciso retirar alguns pontos dele.
Alana descruzou os braços e sua expressão suavizou para algo mais protetor. Ela se levantou e segurou firmemente a mão de Sofie.
— Olha para mim, Sof — Alana disse com seriedade. — Eu sei que tudo isso é errado. E sei que pode te custar o cargo, a carreira que você construiu com tanto suor. Só te peço uma coisa: não faça nada errado aqui dentro. Não deixe transparecer nada para os outros. Seja cautelosa, e lá fora, se precisar de uma cúmplice, pode contar comigo.
Sofie apertou a mão da amiga, sentindo o nó na garganta diminuir um pouco. Um sorriso triste surgiu em seus lábios. — Obrigada, Alana. Você é uma amiga maravilhosa, de verdade. Eu não sei o que faria sem a sua sensatez. Alguém já disse o quanto você é incrivel?
— Quase todos os homens com quem eu saí! Ela disse em um tom sarcástico e ambas começaram a rir.
— Mas sem mim, você faria bobagem, com certeza — Alana brincou, aliviando a tensão. — Agora, vamos almoçar? Meu estômago está reclamando mais que paciente em fila de espera.
Sofie pegou o jaleco, ajeitou o coque e respirou fundo, tentando empurrar a imagem de Philip para o fundo da mente enquanto caminhavam para o refeitório, ciente de que a próxima terça-feira chegaria mais rápido do que seu coração poderia suportar.
O estúdio de Philip, o Iron & Ink, estava mergulhado no som de um antigo toca-discos em um canto e pelo som da chuva fustigando as janelas altas. O cheiro ali era uma mistura inebriante de tinta a óleo, terebintina e o couro das poltronas gastas. Nos fundos do estabelecimento, atrás de uma porta pesada de ferro que ele mantinha sempre trancada, ficava a sua sala particular. Não era ali que ele tatuava clientes; era onde desenhava, criava, pensava, ou apenas como a sala de fuga.
Philip estava sem camiseta, sua pele estava borrada por tinta, o braço engessado. Ele segurava o pincel, diante dele um cavalete escondido por uma lona pesada, revelava sua obsessão das últimas semanas.
Philip estava imerso em sua pintura, o pincel movendo-se com uma precisão febril enquanto ele dava vida ao retrato dela. Não era a "Doutora Bergan" que emergia das sombras em um chiaroscuro dramático, mas a Sofie que ele havia decifrado. O cabelo preto fundia-se ao fundo escuro como uma noite sem lua, enquanto os olhos castanhos, trabalhados com camadas exaustivas de verniz, brilhavam com uma profundidade que parecia seguir cada movimento dele pelo estúdio, uma vida própria capturada em tinta.
Philip
O rastro dela está tatuado nos meus nervos. Aquele abraço rápido no consultório foi um erro necessário; eu deveria ter ido embora, mas precisava daquele toque, da confirmação de que o calor dela é real e não um delírio da minha abstinência. Eu me deito todas as noites ao lado de uma mulher que fala sobre reformas, rotinas e Hores, e no escuro do quarto, tudo o que vejo é o contraste obsceno do branco do jaleco dela contra o preto daquela regata das fotos, revelando a pele que eu sonho em reivindicar. Quero traçar cada linha das pinturas nórdicas na pele dela com a ponta da minha lingua, sentindo o gosto do suor e da baunilha, transformando aquele tremor que vi nos dedos dela em uma vibração de entrega absoluta, de quem
não tem mais para onde fugir.
Ele mergulhou o pincel no carmesim saturado, adicionando um detalhe quase imperceptível, uma umidade pecaminosa nos lábios dela. O corpo de Philip reagia com uma violência lasciva à própria imaginação; ele conseguia sentir a pressão do corpo dela contra o seu, lembrando-se de como ela mordia o lábio inferior, um gesto de resistência que só
aumentava sua vontade de destruí-la.
Ela se esconde atrás de um labirinto de racionalidade e ciênci
achando que o protocolo é sua salvação, mas eu vi a pulsação frenética no pescoço dela quando cheguei perto. Aquilo não é racionalidade, é vontade, é desejo, é um grito que me
chama para queimar tudo o que ela construiu.
Ele deu um passo atrás, a respiração pesada e errática ecoando no estúdio. Seus olhos percorreram a curva do pescoço que acabou de pintar, a inclinação exata que ele imaginava que ela faria ao ser possuída. Na tela, sob a luz das lâmpadas, Sofie parecia prestes a dizer seu nome, uma miragem de carne e tinta que tornava a distância entre eles uma tortura insuportável. Ele sentia vontade dilacerante de rasgar aquela distância, de puxar o cabelo dela para trás e ver a máscara de médica cair por terra, revelando a mulher selvagem que ele sabia que existia ali.
Ninguém verá esse quadro, a não ser ela. Isso é o meu segredo sujo e a minha única verdade. Eu estou contando as horas para terça-feira. Retirar os pontos? Eu quero
que ela toque cada cicatriz minha, porque cada uma delas agora pertence a ela. Eu quero que ela veja o que fez comigo, como ela se infiltrou no meu sangue e
transformou cada pensamento meu em um rastro de luxúria por ela.
Philip largou o pincel, as mãos manchadas de tinta e um desejo que beirava a insanidade. O suor frio descia por sua nuca enquanto ele
cobria o quadro cuidadosamente com a lona, escondendo Sofie do resto do mundo. Ele a guardava ali, no altar privado e sombrio de sua mente, onde ela já era sua rainha, sua ruína e a sua única obsessão, que ele não
tinha a menor intenção de curar.
Alguns dias depois, o sábado amanheceu com um céu de zinco, mas dentro do hospital, o aquecimento central mantinha o ambiente em uma temperatura constante e monótona. No consultório de Sofie, o som do teclado parou. Ela organizava os prontuários da manhã, alinhando as pastas sobre a mesa. Faltavam três horas para o tão esperado almoço com Alana e a subsequente liberdade do final de semana... ou o que restava dele, já que o domingo seria de plantão dobrado para ambas.
A porta abriu com um solavanco familiar. Era Alana, já sem o
estetoscópio no pescoço, sentando e girando na cadeira giratória à frente da mesa de Sofie.
— Se você ler mais uma linha desse laudo, eu juro que confisco seus óculos — Alana brincou, levantando da cadeira e jogando-se na poltrona.
— Planos para hoje à tarde? Eu pretendo virar um vegetal no meu
sofá com um balde de pipoca e aquela série nova de mistério.
você? Vai tirar a "Fúria Negra” da garagem?
Sofie sorriu, fechando finalmente a tampa do laptop. O apelido da sua moto sempre a fazia relaxar.
— Se a neve permitir, quero subir até o mirante de Holmenkollen. Preciso de vento na cara, Alana. O cheiro de éter deste lugar está impregnado até nos meus pensamentos.
— Vento na cara e adrenalina nas veias. Você não nega o sangue nórdico, Doutora Bergan — Alana riu, mas foi interrompida por três batidas curtas e tímidas na porta.
Sofie recompôs a postura em um segundo. A máscara de seriedade voltou ao seu rosto como um reflexo condicionado. — Entre.
Júlia, a recepcionista do andar, entrou carregando um objeto volumoso. Era um pacote retangular, bem grande, envolto em papel pardo grosso e amarrado com uma corda de sisal rústica.
— Doutora Sofie, acabaram de deixar uma encomenda para a senhora na recepção. O entregador disse que era urgente — Júlia explicou, depositando o objeto pesado com cuidado contra a parede lateral.
— Obrigada por me entregar aqui, Júlia. Quando for muito pesado, peça para um dos meninos carregar, não faça muita força, ok? — disse Sofie, mantendo a voz firme e o olhar neutro.
Assim que a porta se fechou e o clique do trinco ecoou, a aura de profissionalismo de Sofie desmoronou como um castelo de cartas. As duas médicas se levantaram quase ao mesmo tempo, como duas adolescentes curiosas. Alana foi a primeira a chegar perto do pacote, circulando-o
como um predador diante de uma presa rara.
— Isso não tem cara de amostra grátis de laboratório, Sof — Alana sussurrou, à voz carregada de uma animação maliciosa. Ela notou um envelope de papel texturizado, preso sob o nó firme de sisal. — Olha! Tem um cartão. Posso?
Sofie assentiu, sentindo o coração acelerar. Alana abriu o envelope devagar, seus olhos varrendo as palavras escritas em uma caligrafia firme e elegante. A expressão da amiga mudou de divertida para um choque absoluto em segundos.
— Meu Deus, Sofie... escuta a intensidade disso — Alana leu em voz alta, a voz suavizando em um tom de confidência:
"Algumas cicatrizes não precisam de pontos, precisam de luz. Tentei capturar o
trovão que você esconde atrás desse gelo. Se o mundo não pode ver quem você é de
verdade, eu posso. E eu não consigo e nem quero parar de te olhar."
Alana soltou um suspiro dramático, levando a mão ao peito como se tivesse sido atingida por uma bala. — Assinado apenas: Iron & Ink Studio. Sof... o seu tatuador não é um poeta, ele é um predador perigoso!
— Tem certeza? Deixa eu ver isso — Sofie arrancou o cartão da mão da amiga. Seus olhos devoraram as palavras, sentindo cada letra queimar sua retina.
Suas mãos, que nunca falharam em uma sutura, tremeram ao puxar o nó do sisal. Ela rasgou o papel pardo rapidamente, sem qualquer rodeio. Quando o papel caiu ao chão, revelando a tela, ela ficou em choque.
O quadro era uma obra-prima. No centro da composição, o rosto de Sofie emergia da escuridão em um chiaroscuro, era a mulher nua em sua essência selvagem. Philip havia pintado cada detalhe com uma precisão obsessiva: a curvatura do pescoço, o brilho desafiador nos olhos castanhos e, o mais impactante, ele fundiu as tatuagens nórdicas dela com o fundo da tela, como se a alma de Sofie estivesse se desintegrando e renascendo em tinta preta.
Ambas ficaram de boca aberta. O quadro era uma declaração de amor, um retrato da obsessão de um homem que havia conseguido ver através de À todos os seus escudos. Sofie sentiu um úmido entre as pernas e uma
vertigem que a obrigou a segurar na borda da mesa. Ele a tinha ali,
exposta, em uma tela que gritava tudo o que ela tentava calar.
A luz na pintura parecia emanar de dentro dela, um olhar que Philip
capturou com uma intimidade assustadora. Elas se olharam com olhos arregalados e sorrisos largos.
— Sofie... — Alana sussurrou, aproximando-se da tela. — Ele não pintou
você. Ele pintou como te vê por dentro. Isso é... isso é obsessão pura, amiga. Olha a textura dessa pele. Ele conhece cada centímetro do
seu rosto.
Sofie não conseguia falar. Ela tocou a borda da tela, sentindo a textura da tinta a óleo. O "Diabo" das cartas estava ali novamente, naquela moldura, encarando-a com a verdade que ela tentava negar. Philip a via e a decifrava. E ele a queria de um jeito que rompia qualquer barreira de ética ou casamento.
— Eu estou em apuros, Alana — Sofie murmurou, sem conseguir desviar o olhar do próprio retrato, ainda boguiaberta.
— Não, Sof — Alana respondeu, tocando o ombro da amiga. — Você está apaixonada e ele também. Agora a pergunta é: o que vocês vão fazer com todo esse sentimento?
Sofie permaneceu imóvel por longos segundos. Havia um brilho de euforia em seus olhos, um tipo de luz que Alana raramente via, mas que vinha acompanhado de um vinco de preocupação na testa. Era o embate clássico entre a mulher que se sentia vista e a médica que sabia o tamanho do abismo onde estava pisando.
— Bom... eu já vejo o que vou fazer com o quadro. Por enquanto, vamos almoçar — disse Sofie, forçando um tom resoluto enquanto cobria
a tela novamente com o papel pardo, escondendo a própria face.
— Vamos. E se alguém perguntar, você encomendou de um pintor iniciante e quer ajudar a divulgar o trabalho — Alana brincou, ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Pode deixar aqui no consultório como "decoração conceitual" ou levar para o seu santuário em casa. Ninguém precisa saber que o "artista iniciante" tem mãos de mestre e olhos de lobo.
— Você é meu anjo da guarda, só pode. Ambas sorriram.
As duas caminharam pelo corredor em direção ao refeitório. O som dos passos de Sofie parecia mais leve, quase saltitante. No refeitório, o cheiro da comida já perfumava o ar. Elas pegaram suas bandejas e se sentaram em uma mesa perto da janela, onde a luz cinzenta de sábado começava a vacilar. Sofie mexeu na salada, mas sua mente estava a quilômetros
dali. Ela olhou para Alana, a expressão subitamente vulnerável.
— Essa tarde você vai lá em casa — começou Sofie, a voz baixa.
— Vamos ficar juntas, pedir comida, beber vinho e assistir a essa série que você quer. Só... não me deixe sozinha hoje, Alana. Minha cabeça está uma bagunça.
Alana finalizou seu suco de uva, deixando o copo estalar levemente na mesa. Ela sorriu, um sorriso genuíno que acolheu a angústia da amiga. — Claro, amiga. Eu fico com você. O que vai comprar para nós? Porque eu pretendo gastar seu dinheiro pedindo o jantar hoje, já vou avisando.
Sofie soltou uma risada alta, atraindo o olhar dos residentes na mesa ao lado. — O que você quiser comer, Alana. Hoje eu deixo você ser a mestre de cerimônias do meu cartão de crédito. Só preciso passar no mercado antes para pegar algumas coisas para a casa.
— Fechado! — Alana exclamou, levantando-se. — Em uma hora te encontro na sua sala, passamos no mercado e depois direto para o seu apê. Prepare o fígado, porque hoje o plantão é de maratona de e Chardonnay.
Uma hora depois, o SUV preto de Sofie dirigia pelo estacionamento do mercado gourmet. As duas entraram rindo, empurrando o carrinho com
uma energia que parecia estranha para quem estava no meio de uma escala de final de semana.
— Vinho doce ou seco? — Sofie perguntou, parando diante da imensa adega.
— Hoje pede algo que aqueça a alma, Sof. Um Riesling bem gelado para começar e talvez um tinto encorpado para o frio lá fora — sugeriu Alana, pegando duas garrafas sem cerimônia.
Elas percorreram os corredores escolhendo queijos brie, geleia de pimenta, chocolates, massas artesanais e alguns itens básicos que faltavam na despensa de Sofie. Entre uma escolha e outra, elas faziam piadas sobre os pacientes mais difíceis da semana e as gafes dos internos. Sofie parecia outra pessoa; a tensão que habitava seus ombros nos últimos três meses parecia ter se dissipado. Ao chegarem ao apartamento de Sofie, o ambiente era o oposto do hospital. apartamento tinha um design industrial-chique, com janelas do chão ao teto voltadas para as luzes de Oslo. O sofá de linho cinza profundo era imenso, decorado com mantas de lã grossa e almofadas de veludo.
— Banho primeiro, fofoca depois — decretou Alana, correndo para o banheiro de hóspedes com sua mochila.
Minutos depois, as duas estavam transformadas. Alana usava um moletom oversized cinza e meias felpudas. Sofie optou por uma calça de legging preta e um moletom preto de algodão, os cabelos pretos presos em um coque despojado, alguns fios soltos moldando seu rosto sem maquiagem. Elas se jogaram no sofá, as pernas entrelaçadas sob a manta de lã.
Alana já estava com o controle remoto na mão, navegando pelo catálogo de streaming, enquanto Sofie servia o primeiro copo de vinho.
— Ok, o que vamos comer? Sushi? Italiana? Ou aquele tailandês apimentado que faz a gente esquecer até o próprio nome? — Alana perguntou, os olhos brilhando de diversão.
Sofie recostou a cabeça no estofado macio, sentindo o calor do vinho descer. Ela gostava quando o seu lar não estava tão silencioso. Estava preenchido pela amizade de Alana e pela presença do quadro que, agora, repousava no canto da sala, ainda embrulhado, mas emanando uma energia que Sofie sabia que teria que enfrentar cedo ou tarde.
— Tailandês — decidiu Sofie com um sorriso. — Peça o mais
apimentado. Eu preciso de algo que queime tanto quanto aquele cartão que o Phi vinho. — Escolha o que mais você quiser, pede sushi também.
p escreveu. Sofie sorriu, tomando mais um gole de
Alana riu, digitando o pedido no celular. — É assim que se fala, doutora.
Hoje, o único bisturi que vamos usar é o garfo.
O aroma de curry vermelho e capim-limão invadiu a sala assim que o entregador deixou as sacolas. Alana deu um pulinho de animação, batendo palmas como uma criança diante de um banquete.
— Sof, isso aqui é o paraíso! — exclamou Alana, espalhando as caixinhas de papelão sobre a mesa de centro de mármore. — Olha esse Pad Thai! E esse arroz de jasmim... eu juro que o cheiro está me fazendo esquecer que eu tenho que acordar às 6h amanhã.
Sofie riu, servindo mais uma taça de vinho para a amiga. — Come, Alana. Você merece. Eu sei que o primeiro ano depois da residência é um
moedor de carne e o salário... bom, a gente sabe que não paga nem o café que a gente toma para ficar acordada e aproveita que ainda
Alana atacou um rolinho primavera com vontade, fechando os olhos enquanto mastigava. — Nem me fale. Às vezes eu olho para o meu extrato bancário e penso: "Eu estudei seis anos para isso?" Mas aí eu vejo você, nesse apartamento incrível, com esse SUV na garagem... você é minha meta de vida, doutora Bergan.
Elas se acomodaram no tapete felpudo, encostadas no sofá, cercadas de comida e vinho. A série de mistério rodava em volume baixo na TV,
servindo apenas como ruído de fundo.
— Mas e você, amiga? — Sofie perguntou, observando a amiga com carinho. — Primeiro ano fechando. Como está o coração? Não o de médica, o da Alana mulher. Algum pretendente à vista entre um plantão e outro?
Alana soltou um suspiro dramático, limpando o canto da boca com um guardanapo. — Homens? Sof, o único homem que me tocou nos últimos meses foi um paciente de 80 anos que segurou minha mão para eu aferir a pressão. Os residentes são todos egocêntricos ou estão cansados demais para um jantar. Eu sinto que estou desaprendendo a flertar. E você sabe que eu sou intensa... eu quero o pacote completo, mas o hospital consome tudo. Eu namorava muito quando estava na faculdade, os garotos eram todos apaixonados por mim... e hoje eu não sei nem mais conversar direito. Alana disse, colocando mais um punhado de comida na boca, tomou um gole generoso de vinho e mudou o tom, ficando subitamente séria.
— Mas vamos falar de quem realmente está movimentando esse
roteiro — Alana disse, a voz vibrando de curiosidade. — O Phi aquele quadro, aquele cartão... Ele não está jogando baixo, né? Ele foi direto na sua alma.
Sofie baixou os olhos para a taça de vinho, observando o líquido rubro girar devagar. — Ele me assusta, Alana. Não do jeito ruim, mas do jeito que as coisas inevitáveis assustam — Sofie confessou, a voz rouca pelo
álcool.
— Eu passei cinco anos sendo apenas "a médica". Construí essa
parede rúnica, fria e intransponível, em volta de mim. Eu achei que
estava protegida. E ele... ele simplesmente atravessou. Ele me viu na Constelação, ele me leu no hospital e agora ele me despiu naquela
tela. Sofie soltou um suspiro pesado, sentindo o calor do vinho soltar as
amarras de sua garganta. — Eu me sinto péssima pela esposa dele, de
verdade. Eu não sou essa mulher, Alana. Eu não sou o tipo que destrói lares ou que ignora a moralidade. Mas quando ele chega perto... — Ela fechou os olhos, sentindo o fantasma do toque de Philip em seus lábios.
— Eu sinto que pertenço àquele lugar. Entre os braços dele. É uma conexão que não tem explicação, que rompe a lógica, como disse a cartomante. Eu sinto que, se eu não viver isso, eu vou passar o resto da vida sendo apenas uma sombra, uma casca vazia de mim mesma.
Alana se inclinou, mordendo um rolinho primavera com os olhos arregalados, captando cada nuance da agonia da amiga.
— Primeiro: você foi a uma cartomante sem mim? Sério? — Alana arqueou a sobrancelha, mas logo suavizou o tom.
— Segundo: você não destruiu nada, Sof. Casamentos acabam por falta de base, por rachaduras internas, não por causa de um "terceiro" elemento. Se ele está agindo com essa agressividade, com essa fome, é porque já não havia mais nada vivo naquela casa. Só... seja honesta consigo mesma. Se esse fogo ascender de vez, você está pronta para o incêndio? Para as cinzas que vão ficar?
— Sim, eu fui... Me desculpa por não contar — Sofie sussurrou, o rubor
subindo não só pelo vinho, mas pela exposição. — Eu estava com vergonha de mim mesma, me sentindo desesperada por buscar respostas no universo como se fosse uma adolescente. Mas tudo o que ela me disse está acontecendo. Cada carta, cada aviso... a Torre está cedendo, Alana.
Sofie virou o resto do vinho de sua taça em um gole único e sorriu de lado, um sorriso melancólico, carregado de uma beleza trágica.
— Eu acho que já estou queimando faz tempo... Ele só precisa chegar a um metro de mim para que eu sinta minha pele queimar e arder. Eu sinto o cheiro dele, a vibração daquela voz... e o meu corpo simplesmente se entrega. Então eu estou pronta para o incêndio porque eu já sou a própria brasa.
Elas riram juntas, uma risada que limpou o peso da confissão. O restante da tarde e noite foi uma mistura de fofocas sobre o corpo clínico, risadas sobre encontros desastrosos e os muito quentes que Alana teve na faculdade e o prazer simples de estarem juntas. Elas comeram até não aguentarem mais, dividindo um pote de sorvete de pistache direto da
embalagem enquanto a série finalmente chegava ao clímax na TV.