Terça-Feira
O domingo de plantão passou como um borrão de luzes fluorescentes e bipes de monitores cardíacos. Sofie e Alana cruzavam-se nos corredores, trocando olhares de cumplicidade. O efeito do vinho e do tailandês havia
sido substituído pela adrenalina do pronto-socorro, mas o quadro de
Philip, na sala de Sofie, parecia emitir uma pulsação própria que ela
sentia mesmo a quilômetros de distância.
Finalmente, a terça-feira chegou.
O relógio no consultório marcava 11:05 quando a batida rítmica e decidida ecoou na porta.
— Entre — disse Sofie, a voz saindo um pouco mais tensa. Philip entrou, e o ar na sala pareceu se comprimir instantaneamente. Ele não trazia café. Seus olhos castanhos estavam carregados, mais escuros. A regata preta que ele usava deixava os braços definidos totalmente expostos, revelando a complexidade das tatuagens que subiam pelo pescoço.
— Vim retirar os pontos, doutora — ele disse.
— Sente-se, Phi
O tilintar da pinça de metal contra a bandeja de aço inox soou como um sino de advertência. Quando Sofie se aproximou, o cheiro dele, aquele cheiro de almíscar másculo, a atingiu, fazendo seu corpo formigar por baixo do jaleco.
— Vai doer um pouquinho — disse Sofie, a voz profissional tentando mascarar o tremor interno.
— Já disse, Sofie... quando você me toca, nada dói — ele sorriu de forma maliciosa, os olhos fixos nela.
Ela começou pelo ombro. Enquanto ele estava sentado, Sofie inclinou-se sobre ele. Philip aproveitou a proximidade para afundar o rosto levemente na direção do pescoço dela, inspirando o aroma de baunilha de Sofie. Ela sentiu o hálito quente dele na sua pele e quase perdeu a firmeza da
pinça.
— Você recebeu? — Ele perguntou em um sussurro baixo. — Recebi. Você não deveria ter feito aquilo, Philip. É... é demais.
— Eu não escolhi fazer. Eu precisei. Como eu preciso de oxigênio. — Ele rebateu, a voz vibrando tão perto do ouvido dela que os pelos da nuca de Sofie se eriçaram.
— Você é casado! — Sofie retrucou, a voz firme, embora seu coração estivesse em colapso.
— E você é a mulher de quem eu não consigo parar de pensar. Me diga... você gostou do que viu?
Sofie cortou o último ponto do ombro e deu um passo atrás, os pulmões ardendo. — Para ser sincera, sim. Você me desenhou como se me conhecesse há mil anos. Como se soubesse o que eu sinto. Confesso que não esperava por isso. Agora, deite-se na maca. Preciso tirar os do abdômen — ela ordenou, tentando retomar o controle.
Philip obedeceu, deitando-se e puxando a regata para cima. Sofie sentou-se no mocho e puxou-o para entre as pernas dele para alcançar a cicatriz que subia pelas costelas. A proximidade era obscena. O calor que emanava da pele dele era magnético, uma fornalha que derretia a luva de látex. Cada vez que ela limpava o local, seus dedos roçavam os músculos contraídos dele, deixando-a completamente excitada.
— Eu sei o que você sente, Sofie — ele disse.
Ele sentou-se, ficando cara a cara com ela. O olhar dele desceu para a boca dela. Philip inclinou-se e, em um movimento de uma delicadeza torturante, encostou os lábios nos dela. Não foi um beijo, foi apenas uma pressão leve, antes de ele se afastar rapidamente. — Eu vejo a tempestade em você, mesmo quando você finge que é apenas uma garoa.
Aquele contato mínimo foi o suficiente para que Sofie sentisse que estava queimando viva, transformando seu sangue em lava.
— Pronto — ela disse, a voz falhando enquanto limpava o local com
antisséptico pela última vez. — Está cicatrizado. Você está
oficialmente livre do hospital por mais dois meses até tirar seu
gesso. Ela tentou organizar a bandeja com mãos trêmulas, mas Philip
segurou o braço dela, impedindo que ela fugisse.
— Eu estou livre do hospital, Sofie. Mas não estou livre de você. Você sabe que não está livre de mim.
Sofie olhou para os próprios dedos, ainda sentindo o calor da pele dele. O incêndio já tinha começado e não havia extintor no mundo que pudesse apagá-lo. — Ok... um café e uma conversa de vinte minutos.
Ela aceitou com um aceno de cabeça, a rendição brilhando em seus olhos. Ela o levou até a porta. — Fica bem, Philip.
— Eu vou ficar, doutora. Agora eu tenho um motivo para voltar.
Mas antes de sair, olhou por cima do ombro. — Você tem o meu número. Quando o silêncio daquela casa e o cheiro desse hospital ficarem insuportáveis... me liga. Ela fechou a porta rapidamente.
A porta do consultório rangeu ao fechar, mas o som que ecoava nos ouvidos de Sofie era a batida descompassada do próprio coração. Ela encostou as costas na cadeira, fechando os olhos, ainda sentindo o fantasma do hálito de Philip contra seus lábios. Por um momento, a ética, o hospital e a esposa dele haviam evaporado, restando apenas aquele magnetismo animal. Ela não aguentou. Precisava de ar, precisava de racionalidade. Sofie atravessou o corredor com passos largos, o jaleco esvoaçando, e bateu na porta da sala 305 com uma urgência que quase derrubou o prontuário que carregava.
— Alana! — ela exclamou ao entrar, sem esperar o convite. Alana levantou os olhos do computador, surpresa. — Sof? O que houve? Você viu um fantasma ou um deus nórdico?
Sofie começou a andar de um lado para o outro na sala estreita, as mãos na cabeça, bagunçando alguns fios do coque impecável. O rosto estava aceso, um rubor que ia das bochechas até o decote do jaleco.
— Ele ficou tão perto, Alana... tão perto que senti o calor da barba dele. Ele segurou meu rosto e falou da tempestade em mim. Por um momento, eu jurei que íamos nos beijar e transar ali mesmo, em cima daquela maca! — Sofie parou abruptamente, encarando a amiga com olhos arregalados. — O que eu faço, minha amiga? Eu estou perdendo o controle.
Alana sorriu com uma calma irritante, recostando-se na cadeira e cruzando os braços. — Calma, respira. Não aconteceu nada, está tudo bem. O hospital ainda está de pé e sua licença médica também. Mas me diga a verdade... você queria?
Sofie soltou um suspiro pesado, os ombros caindo. — Claro que eu queria! Eu gostaria que ele tivesse feito o que quisesse comigo naquele momento. Foi insano, Alana. O cheiro dele, o jeito que ele me olha... parece que ele está me despindo com os olhos e me vestindo com aquela tinta preta dele.
— Bom, pelo menos você admitiu — Alana disse, suavizando o tom.
— Mas ele foi embora, não foi?
— Foi. Mas combinamos uma coisa. Ele vai trazer café todas as terças, vinte minutos de conversa e eu aceitei, Alana. Eu aceitei o perigo com um aceno de cabeça. Sofie deu três tapinhas de leve na própria testa, fechando os olhos com uma expressão de quem acabava de assinar um contrato com o caos.
— Eu me meti em uma confusão monumental, Alana. — Ela murmurou, soltando um riso nervoso que misturava pavor e uma euforia que ela não conseguia conter.
Alana riu, levantou-se e pegou seu casaco. — Bom, se você vai cair desse penhasco, pelo menos não vá de estômago vazio. Meu turno acabou e o seu também. Vamos sair daqui antes que algum residente te ache e te traga de volta para a realidade.
As duas caminharam pelo estacionamento, o vento de Oslo soprando cortante, fazendo Sofie encolher os ombros dentro do casaco de lã batida. Elas dirigiram até uma cafeteria charmosa no centro, um lugar com paredes de tijolos aparentes, luzes de filamento quentes e um balcão repleto de doces que pareciam obras de arte. Sentaram-se em uma mesa alta perto da janela, de frente para a rua. Alana pediu um latte com canela e Sofie optou por um cappuccino duplo, acompanhado de dois donuts cobertos com glacê rosa e granulado colorido, um contraste infantil com a seriedade do dia.
— Sabe o que é pior? — Sofie disse, mergulhando um pedaço do donut na espuma do café. — Eu sinto que estou vivendo uma vida dupla. No hospital, eu sou a Dra. Bergan. Aqui, eu sou a Sofie que quer fugir em uma moto com um homem que mal conhece.
— Você está apenas viva, Sof. Fazia tempo que eu não via esse brilho em você — Alana respondeu, soprando seu latte.
De repente, o corpo de Sofie tencionou. Seus olhos se fixaram em um ponto do lado de fora da janela.
Do outro lado da rua, Philip caminhava. Ele não estava sozinho. A esposa loira estava ao seu lado, mas a distância entre eles era um abismo. Ela caminhava com o olhar grudado na tela do celular, os dedos movendo-se freneticamente, enquanto Philip mantinha uma das mãos no bolso da jaqueta de couro, e o braço engessado por dentro e o olhar sério fixo à frente, como se estivesse contando os passos para chegar a lugar nenhum.
Não havia mãos dadas, não havia trocas de olhares, apenas dois corpos ocupando o mesmo vácuo. Philip não as viu. Ele passou pela vitrine como uma sombra persistente, e Sofie sentiu um aperto no peito que não era de culpa, mas de uma constatação dolorosa: ele era tão solitário naquele casamento quanto ela era naquela casa vazia.
— Estranho, não? — Alana perguntou, a voz suave, notando como os olhos de Sofie ainda seguiam a silhueta de Philip desaparecendo na multidão.
— É mais do que estranho, Alana. — Sofie respondeu, deixando o pedaço de donut no pires. O apetite havia evaporado.
— Eles parecem dois estranhos dividindo a mesma calçada. Eles só ocupam o mesmo espaço por uma questão de física, de hábito.
Alana deu um gole longo em seu latte, observando a expressão da amiga através do vapor da bebida. — Talvez seja por isso que ele procure o seu "barulho", Sof. Porque o silêncio de mãos dadas é uma coisa, mass o silêncio de quem está acompanhado e se sente sozinho é um tipo de tortura que ninguém aguenta por muito tempo.
Sofie suspirou, encostando a cabeça no vidro da janela. O toque do material gélido em sua têmpora ajudava a ancorar seus pensamentos.
— Eu não quero ser a razão de um fim, Alana. Mas vê-lo daquele jeito, com aquele braço engessado e aquele olhar de quem está contando os passos para chegar a lugar nenhum... me dá uma vontade imensa de atravessar a rua e beijá-lo sem parar.
Alana segurou a mão de Sofie sobre a mesa. — Você vai terminar esse cappuccino, vai saborear esse doce e vai deixar o tempo trabalhar. Se aquele casamento é um vácuo, ele v:
mplodir sozinho. Você só precisa decidir se estará lá para recolher os pedaços ou para ser o novo fôlego dele.
Sofie assentiu devagar, forçando um pequeno sorriso enquanto limpava um rastro de açúcar do canto da boca. — Você sempre tem as palavras adequadas para me impedir de cometer um erro, não é?
— É para isso que servem as amigas e o café extra forte. — Alana piscou, relaxando na cadeira.
A tarde caiu sobre Oslo, trazendo uma névoa azulada. Elas terminaram o café. Sofie deixou Alana em casa e dirigiu para seu próprio apartamento. Ao chegar, ela não ligou as luzes principais. Deixou apenas um abajur de canto iluminar a sala. Tirou as botas, sentindo o frio do chão de madeira, e á foi até o quadro. Sob a luz fraca, os olhos que Philip pintou pareciam
segui-la. Ela levou para o seu escritório, no quarto ao lado, deixou sob a
mesa, observou mais uma vez, apagou a luz e fechou a porta.
Sofie deitou em sua cama, o silêncio do apartamento pesando mais do que o habitual. Pegou o celular e viu que havia uma notificação.
[21:15] Philip: O cheiro da chuva hoje me lembrou do seu consultório. Mal posso esperar pela próxima
terça.
Sofie apertou o aparelho contra o peito, fechando os olhos. Ele não estava apenas nos meus pensamentos, estava naquela cama, naquele quadro e naquela saudade que não tinha direito de existir. Ela adormeceu com o celular na mão, sabendo que, a partir de agora, o sol só nasceria de verdade quando as 11h de terça-feira batessem no relógio.
Nas seis semanas seguintes, o relógio de Sofie parecia só funcionar para as 11h da manhã de terça. Philip aparecia pontualmente. O braço ainda no gesso, a jaqueta de couro invariavelmente jogada sobre um
ombro e dois cafés fumegantes. Eles se sentavam, um de frente para o outro, mantendo a distância física, mas as palavras... as palavras eram
— O que você sonhou hoje, doutora? — ele perguntava, soprando a fumaça do café, os olhos nunca saindo dos dela.
pontes perigosas.
— Com o mar. Um mar escuro, revolto. Daqueles que te puxam para o fundo antes que você possa respirar. — Ela respondia, sentindo o peso do olhar dele.
— Engraçado... — Ele inclinou-se um pouco mais para a frente. — Eu sonhei com fogo. Um incêndio que começava devagar, pele com pele, tinha a cor exata do seu cabelo... e a melhor parte era que você não tentava apagar.
Eles não se tocavam. Havia um acordo de respeito, uma barreira que ambos temiam quebrar, porque sabiam que, se o fizessem, não haveria volta. Mas o que não acontecia no consultório, explodia nas telas dos celulares durante as madrugadas de plantão. As mensagens eram o
território onde o desejo não tinha censura.
[23:45] Philip:
Passei o dia desenhando suas mãos. A precisão com que você segura a pinça... tão
firme. Fiquei imaginando o estrago que essas mesmas mãos fariam em mim. [00:12] Sofie:
Você é um perigo, Philip. Estou no meio do plantão, prestes a entrar em uma emergência, e sua mensagem acabou de acelerar meus batimentos mais do que qualquer desfibrilador.
[01:30] Philip:
O coração acelerado é só o começo, Sofie. Eu quero tirar o seu controle. Quero descobrir o toque direto da minha boca na sua pele, centímetro por centímetro,
até você esquecer completamente como se respira.
Sofie lia as mensagens escondida no descanso dos médicos, sentindo um calor úmido subir pelo ventre. Ela respondia com provocações sutis, fotos de seus pés descalços após o plantão ou apenas descrições do que sentia quando o vento de Oslo batia em seu rosto na moto, comparando a adrenalina da velocidade com a descarga elétrica que ele injetava em
suas veias.
Foram dois meses de um incêndio controlado por mensagens e cafés.
Ambos sabiam que o fogo estava alto demais para o recipiente. O gesso estava prestes a sair, e com ele, a última desculpa para Philip estar ali. A tensão era uma corda esticada ao limite, esperando apenas o primeiro toque para arrebentar.
Chegou mais uma terça-feira... e ela passou como um deserto. Sofie olhou para o relógio a cada minuto entre as 10:55 e as 11:30, mas a porta permaneceu imóvel. O seu sorriso desapareceu e o silêncio do consultório pareceu ganhar peso, esmagando seus pulmões. Ele não apareceu.
Na quarta-feira, o hospital pulsava com a pressa habitual. Philip cruzou a recepção com o semblante fechado, uma tempestade contida sob as sobrancelhas densas. Ele foi encaminhado para a sala de ortopedia, onde uma enfermeira veterana iniciou o procedimento. O som da serra vibratória cortando o gesso era estridente, mas Philip mal ouvia. Ele observava a própria pele pálida e marcada emergir da prisão de gesso, sentindo a liberdade retornar aos seus movimentos enquanto sua mente permanecia acorrentada ao corredor 4.
Assim que a enfermeira terminou e lhe deu as instruções de fisioterapia, ele não seguiu para a saída. Ele caminhou com passos pesados e
decididos até a porta de Sofie. Ele não bateu, apenas abriu. Sofie estava
de pé, organizando alguns frascos no pequeno armário de vidro no canto
de sua sala. Ao ouvir o movimento, ela se virou e o susto paralisou seus
traços. Seus olhos percorreram o braço dele, agora livre, e subiram para o
rosto rígido de Philip.
— Philip... — a voz dela saiu, quase inaudível, morrendo antes de cruzar o espaço entre eles. Philip não avançou. Ele ficou parado na frente da porta
fechada, a mão segurando a maçaneta com força. A aura dele era de ruptura. — Eu serei breve — ele disse, a voz saindo fria, desprovida da doçura dos cafés de terça.
Sofie sentou-se lentamente, como se suas pernas tivessem perdido a sustentação. Ela apenas o observava, as mãos entrelaçadas sobre a mesa,
sentindo o ar esfriar.
— Isso aqui, esses encontros cronometrados, as conversas de vinte minutos, essas mensagens de madrugada que queimam... para mim, não dá mais — Philip disparou. — Está cada vez mais insuportável. Eu entro nesta sala e sinto o seu cheiro, eu vejo o desenho da sua boca e não posso beijar você. Eu saio daqui e volto para uma casa que não é minha, para uma vida que parece um figurino apertado demais. Ele deu um passo à frente, mas parou, como se houvesse uma linha no chão.
— Eu quero você com uma fome que me assusta, Sofie. Mas eu não sou um homem de metades. Eu não sei ser o seu "café de terça-feira" enquanto outra pessoa dorme ao meu lado. Essa racionalidade que você prega é um veneno para o que eu sinto. — Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo.
— Eu escolhi um caminho há anos, e agora esse caminho é um
abismo. Se eu não posso ter você por inteiro, eu prefiro o vazio absoluto. Eu não vou mais voltar. Não me procure.
Sofie abriu a boca para falar, o peito doendo com uma pontada física de perda, mas Philip levantou a mão, negando-lhe qualquer som e com os olhos marejados. O olhar dele era uma mistura trágica de amor e uma
decisão racional e desesperada de autopreservação.
— Fique com o quadro. Ele é o que sobrou de nós. Adeus, doutora Bergan. Ele girou nos calcanhares e saiu. O som da porta batendo não foi alto, mas pareceu o estrondo de uma demolição.
Sofie permaneceu sentada, estática. O consultório, antes seu refúgio, agora parecia uma cela de isolamento. O cheiro de chuva que ele trouxe consigo ainda pairava no ar, zombando da sua solidão. Ela sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas não fez questão de limpá-la.
O hospital, que sempre foi o santuário de ordem e controle de Sofie, transformou-se em um labirinto de ecos. Nos dias que se seguiram à partida abrupta de Philip, ela sentia como se estivesse operando sob a superfície de uma piscina congelada: via o mundo se mover, ouvia as vozes dos pacientes, mas tudo chegava a ela abafado, destituído de cor.
As terças-feiras tornaram-se feridas abertas. Às 11h, ela se pegava olhando fixamente para a porta, o coração disparando a cada passo que ecoava no corredor, apenas para murchar logo em seguida quando o silêncio se restabelecia. O café da cafeteira do hospital tinha gosto de cinzas.
Em casa, a solidão era mais densa. Sofie chegava do plantão e não acendia as luzes. Ela se sentava no sofá, com os pés descalços tocando o chão aquecido, encarava o quadro que, outra noite, decidiu deixar na sala novamente. Ela não tinha coragem de se desfazer dele. O rosto pintado por Philip era a única prova de que aquela conexão visceral não fora um surto psicótico de sua exaustão.
[22:15] Sofie (Rascunho não enviado):
Eu sinto sua falta em cada batida do relógio. Por que você me despertou se
pretendia me deixar no escuro?
Ela apagava... sempre apagava. A dignidade da "Doutora Bergan" era a última linha de defesa que lhe restava, mas por dentro, as runas que Philip tanto admirava pareciam estar sendo gravadas a ferro quente em sua
Alana a encontrou no refeitório, três dias depois, mexendo mecanicamente em uma sopa que já havia esfriado. A olheira sob os olhos de Sofie não podia mais ser escondida pela maquiagem.
— Sof... — Alana sentou-se à frente dela, tocando sua mão gelada. — Você está visivelmente triste. Ele não voltou, não é?
Sofie levantou o olhar, e Alana viu ali uma tristeza profunda. — Ele me deu
um xeque-mate, Alana. Ele escolheu a racionalidade da dor em vez da tortura do "quase”. E o pior é que eu entendo. Eu o desejo tanto
que dói respirar neste prédio, mas ele está certo... E não tem nada que eu possa fazer.
— Mas ele disse para não procurá-lo — Alana ponderou, preocupada.
— E eu não vou. Eu vou respeitar o buraco que ele cavou para depois me jogar. Mas quem vai me ensinar a viver sem o cheiro da chuva que ele trazia? — Sofie soltou uma risada amarga, os olhos marejados.
— Sabe o que é engraçado? Eu estou triste por algo que eu nunca tive, eu nem o beijei de verdade. E eu sou médica, Alana. Eu sei suturar cortes, mas não sei o que fazer com essa hemorragia interna.
— Ele também deve estar se sentindo assim. Vocês sabiam que
estavam brincando com fogo e foram queimando aos poucos... Foi melhor parar do que se queimarem de uma só vez e algo pior acontecer. Mas você vai ficar bem, Sof. Alana segura as mãos de Sofie
— Eu sei, mas quero poder me permitir sentir essa tristeza. Obrigada por tudo. Sofie segura a colher e toma um pouco da sopa, olhando para a janela.
Naquela sexta-feira, incapaz de suportar o vácuo de seu apartamento, Sofie vestiu sua jaqueta de couro e montou na sua Harley Fat Boy preta. Ela acelerou pelas estradas desertas nos arredores de Oslo, o motor rugindo entre suas pernas como um animal ferido.
O vento cortante de -5ºC chicoteava seu rosto e, por alguns minutos, a
velocidade substituiu a dor. Ela parou no mirante de Holmenkollen, onde a cidade brilhava lá embaixo como um colar de diamantes jogado na neve. Ao voltar para casa, exausta e trêmula, ela finalmente caminhou até o
quadro que havia coberto. Com um movimento brusco, arrancou o papel
pardo. Sob a luz do luar que entrava pela janela, seu próprio rosto pintado por ele a encarava. Philip capturou o exato momento em que ele se
apaixonou por ela, sem saber.
Sofie sentou-se no chão, bem de frente para o quadro, sob a luz fraca que entrava pela janela. Seus olhos, fixos na obra, encheram-se de lágrimas rapidamente, transbordando antes que ela pudesse notar, sem soluços altos, apenas o rastro quente da água salgada riscando sua pele
A "Torre" de Sofie não caiu com um estrondo; ela estava desmoronando
pedra por pedra, no escuro, ao som de um violoncelo que só ela
conseguia ouvir.