5 dias O Cheiro da Chuva · Capítulo 6 de 15
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5 dias

A segunda-feira amanheceu com uma névoa tão densa que os prédios de Oslo pareciam fantasmas de concreto. Sofie entrou no hospital, mas não vestiu o jaleco. Ela caminhou até a diretoria com uma rigidez que

mascarava o desmoronamento interno.

— Preciso de cinco dias, Erikson — disse ela ao diretor clínico, a voz desprovida de qualquer emoção. — Preciso me ausentar antes que meu julgamento comece a falhar.

Erikson, que conhecia a dedicação implacável da Dra. Bergan, apenas assentiu. Quinze minutos depois, ela atravessava o estacionamento, sentindo o peso do crachá no bolso como se fosse uma âncora descartada.

Dia 1: A terça-feira de licença não começou com o despertador, mas com o peso do silêncio que o hospital costumava preencher. Ela não vestiu o uniforme; em vez disso, escolheu uma calça de montaria escura, uma bota de couro resistente e um suéter de lã de gola alta que a protegia do vento cortante. Ela dirigiu até as margens de Nordmarka, onde a floresta norueguesa se fecha em um abraço de pinheiros e carvalhos. O ar ali era puro, gelado e tinha cheiro de terra molhada. Sofie caminhou por quilômetros. Em um clarão da mata, ela parou e olhou para cima. As copas das árvores balançavam freneticamente sob o vento norte, um movimento caótico e, ao mesmo tempo, perfeitamente orquestrado pela natureza. — “Ele disse que eu era a tempestade” — ela sussurrou para o nada, a voz sendo levada pelo vento. — “Mas tempestades não descansam. Elas apenas mudam de lugar.”

Sofie não era uma mulher de se deixar abater por ausências, mesmo aquelas que deixavam crateras no peito. Ela não ia chorar mais por ele nos próximos dias... ela já estava triste há dias. Ao descer a trilha de volta para o carro, a exaustão física trazia uma clareza cortante. No caminho de volta, ela parou em uma padaria de beira de estrada, um lugar rústico com janelas de madeira e cheiro de fermento fresco. Comprou dois Skolebrad, o tradicional pão de creme com coco, e um saco de biscoitos de gengibre.

Sentou-se no banco de couro do SUV, o motor desligado. O primeiro pedaço do pão doce derreteu em sua língua, o açúcar e o coco trazendo

um conforto infantil que ela não sentia há anos. Foi ali, com o doce na

boca e o olhar fixo no horizonte nublado, que as lágrimas caíram. Ela

chorou a perda do café de terça, a perda do toque que nunca aconteceu

e a perda do homem que a via de verdade.

Cinco minutos. Foi o tempo que ela se permitiu, limpou o rosto com as costas das mãos, respirou fundo, ligou o carro e foi para seu apartamento. Ao chegar em seu apê, Sofie organizou a mesa da varanda protegida pelo vidro, enquanto esperava por Alana. Ela preparou uma cafeteira de prensa francesa, com aroma do grão escuro subindo e preenchendo a sala. Alana chegou pouco depois, trazendo o rosto corado pelo frio e um sorriso de alívio ao ver a amiga fora do pijama.

— Você cheira a mato e açúcar — brincou Alana, sentando-se e aceitando a xícara fumegante que Sofie lhe estendia.

— Eu caminhei dez quilômetros e comi um Skolebrod inteiro dentro do carro — confessou Sofie, sentando-se à frente dela com uma postura mais ereta. — E eu chorei, Alana. Me permiti chorar algumas vezes hoje,

como me permiti chorar outros dias... mas acredito que já sofri tudo

o que tinha para sofrer.

Alana observou a expressão de Sofie: os olhos ainda estavam levemente inchados, mas a mandíbula estava firme de novo. A máscara da Dra. Bergan estava sendo reconstruída, mas com uma textura diferente, mais humana.

— E agora? — Alana perguntou, mergulhando um biscoito no café.

— Agora eu vou viver meus quatro dias de folga. Quero correr no parque, quero levar o Thor para a trilha, estou pensando em adotá-lo, assunto para outro momento, e quero que você venha aqui amanhã. Sem falar de hospitais, sem falar de feridas — Sofie deu um gole longo no café amargo, sentindo o calor descer. — Eu aceitei o fim

que ele impôs. Se ele quer o vazio absoluto, eu vou dar a ele o meu silêncio mais barulhento.

Elas passaram o resto da tarde conversando sobre viagens que gostariam de fazer e as novas séries que Alana estava maratonando. O riso de Sofie, embora ainda um pouco contido, voltou a aparecer entre uma história e outra. Ao anoitecer, quando Alana foi embora, Sofie olhou o quadro no chão da sala, encostado na parede. Ela abriu um livro de fantasia, queria entrar em um mundo diferente por um momento, serviu-se de uma taça de vinho e deitou-se. O cheiro da chuva ainda estava lá fora, mas dentro dela, a tempestade tinha se acalmado.

O dia começou com uma luz acobreada inundando o apartamento. Sofie não enrolou na cama. Calçou seus tênis de corrida, vestiu uma calça térmica preta e um corta-vento e seguiu para o Parque Vigeland. Com fones e suas músicas favoritas, começou a correr. Ao cruzar os portões de ferro batido do parque, o cenário mudou. Correr entre as imensas estátuas de bronze e granito era como atravessar um museu ao ar livre, cada escultura de Gustav Vigeland capturava uma emoção crua do amor, agonia, raiva, velhice que parecia espelhar o que Sofie tentava organizar internamente.

Enquanto o suor começava a brotar na têmpora e seus pulmões buscavam o ar gelado, Sofie sentia cada músculo despertar. Ela deu duas voltas completas pelo Monolito, a coluna de figuras humanas entrelaçadas que se erguia contra o céu cinzento. No entanto, em cada pausa estratégica para recuperar o fôlego sob a sombra dos carvalhos nus, o hábito falava mais alto: sua mão buscava o bolso lateral da calça térmica, os dedos tateavam a tela do celular... nenhuma notificação. O silêncio de Philip era uma barreira física, um muro de concreto que ela prometeu não escalar, mas que ainda pulsava. Decidida a não deixar o vazio vencer, Sofie não voltou direto para casa. Caminhou, ainda ofegante e com as bochechas coradas pelo esforço, até o charmoso bairro de Frogner. Ela precisava de algo que não tivesse o gosto do café amargo do hospital.

Então parou em uma cafeteria escondida em uma esquina, a Lille Bakeri. O lugar era o oposto da frieza cirúrgica: balcões de madeira clara, mantas de lã sobre as cadeiras externas e o cheiro doce de cardamomo flutuando no

Sofie pediu um Varm Sjokolade (chocolate quente norueguês) espesso, com uma nuvem de chantilly fresco, e um Kanelbolle (pão de canela) que tinha acabado de sair do forno, ainda liberando vapor.

Ela se sentou em uma mesa, observando o movimento dos bondinhos elétricos passando pela rua. Ali, entre um gole quente e uma mordida no pão açucarado, ela começou a escrever em um guardanapo com uma caneta que pediu emprestada no balcão.

Ela escreveu sobre o peso do silêncio de Philip que a esmagava naquele dia de folga:

"Eu olho para o vazio da cadeira à minha frente e desenho o seu rosto no vapor da xícara, tentando entender como alguém pode estar tão presente mesmo estando tão longe. Sinto sua falta de um jeito estranho e me pergunto: será que você

também sente esse frio no peito quando lembra de mim?”

Ela se deu conta de que a manhã estava sendo produtiva, então ela aproveitou para caminhar por uma galeria de arte local que tinha acabado de abrir. Observou quadros abstratos, perdendo-se nas pinceladas de azul e ocre, tentando encontrar o mesmo conforto que sentia ao olhar para o quadro que Philip fez dela. Foi um exercício de resistência: apreciar a arte de outros para não se tornar refém da dele.

Ao meio-dia, ela passou em uma floricultura e comprou um maço de tulipas brancas. — Para alegrar o apartamento — murmurou para a florista, sentindo que, pedra por pedra, sua "Torre" estava sendo reconstruída, mas desta vez com janelas maiores e sem trincas escondidas.

Ela voltou para o apartamento às 13:00, com as pernas cansadas, o estômago aquecido e a mente um pouco mais calma, pronta para receber Alana às 14:00 com algo que não fosse apenas lamento, mas vida real. Correu para seu banho.

Ao sair, envolta em um roupão de algodão, ela sentou em sua penteadeira. Sofie começou pela maquiagem. Ela não queria o aspecto "limpo" e pragmático que usava nos plantões. Aplicou uma base leve que deixava transparecer suas sardas sutis, finalizando com um iluminador nas têmporas.

Esfumou um tom de marrom quente nas pálpebras, destacando o castanho profundo de seus olhos, e caprichou na máscara de cílios, abrindo o olhar que, nos últimos dias, andava pesado. Escolheu um batom cor de boca com acabamento acetinado, desenhando o contorno com calma, lembrando-se por um segundo da provocação de Philip sobre ela morder os lábios. Ela sorriu para o espelho, um sorriso de quem estava retomando o controle, caminhou até o closet e passou a mão pelos tecidos. Escolheu uma calça de couro legítimo preta, que moldava suas pernas com perfeição, e uma blusa de seda em tom off-white, com um decote em "V” discreto, mas elegante. Por cima, um cardigã de cashmere longo e preto, para manter o conforto enquanto esperava Alana. Por fim, o perfume. Sofie detestava fragrâncias óbvias. Então, escolheu um frasco de vidro pesado, uma essência que misturava notas de sândalo, âmbar e um toque sutil de pimenta rosa. Borrifou no corpo e atrás das orelhas, exatamente no ponto onde, semanas antes, Philip disse que queria sentir sua respiração. O aroma era sofisticado, quente e levemente indomável. Colocou botas pretas e secou o cabelo, deixando-o solto.

Quando a campainha tocou, às 14:00 em ponto, Sofie não apenas parecia pronta; ela exalava uma presença que preenchia seu lar antes mesmo de abrir a porta.

— Uau! — Alana exclamou assim que entrou, estancando o passo.

— Se eu soubesse que a licença te deixava assim, eu teria te receitado férias meses atrás. Você está... perigosa, Sof.

Sofie riu, pegando a caneca de chá que já estava pronta. — Estou me sentindo assim, por isso hoje à noite vamos sair, então entra que o chá está quente e a fofoca está atrasada.

Ambas sorriram. Alana entrou e sentou no sofá, fofocaram bastante com chá e biscoitos. Mais tarde foram escolher outras roupas e qual lugar de fato iriam ir. Por volta das 19:00, o céu de Oslo já era um manto azul-escuro pontilhado de luzes. — Prontas! — Elas se olharam no espelho, sorrindo. — Precisamos de algo com mais personalidade — decretou Alana. — Vamos ao bairro Lokka. Quero ver você em um lugar que

tenha muitos motociclistas. Você está com cara de quem precisa de bebida, couro e barulho de motor.

— Então vamos com a minha moto. — Sofie sorriu com malícia. Escolheu um batom leve, seus cabelos soltos e vestiu uma jaqueta de couro, cujo interior é um forro de lã alta e macia que a manteria aquecida. As luvas de couro preto moldavam-se perfeitamente às suas mãos, finas o suficiente para não perderem a agilidade dos dedos.

Sofie estacionou sua moto em frente a um galpão de tijolos aparentes, onde a calçada estava tomada por fileiras de motocicletas: Harleys imponentes, Triumph clássicas e algumas Ducatis esportivas que brilhavam sob a luz dos postes. O ar ali não cheirava a perfume caro, mas a uma mistura inebriante de gasolina e tabaco de rolo.

— Agora sim — Sofie murmurou, tirando o capacete e sacudindo os cabelos pretos, sentindo a adrenalina encontrar finalmente o seu lugar. Alana fez o mesmo. O bar era escuro, iluminado por neons vermelhos e luminárias feitas de peças de motor reaproveitadas. O som ao fundo era um rock clássico do Iron Maiden. Homens e mulheres com braços fechados de tatuagens bebiam cerveja artesanal em canecas pesadas.

Sofie e Alana caminharam até o balcão de madeira rústica. Sofie sentiu vários olhares a seguirem, olhares de admiração pela mulher que chegou dominando o ambiente. — Duas IPAs locais, bem geladas — pediu Alana, gritando por cima da música. — Olha esse lugar, Sof — Alana disse, indicando um grupo de motociclistas ao fundo que riam alto enquanto discutiam sobre uma rota para os fiordes. — Aqui ninguém se importa com o nosso CRM. Aqui você é só a dona daquela Harley preta lá fora.

Sofie deu um gole generoso na cerveja. — É exatamente o que eu precisava. O hospital é tão... estéril. Aqui tudo é real, o suor, o metal, as pessoas. Estou cansada de ir a eventos de pessoas ricas, todos sempre parecem estar atuando.

De repente, um homem alto, de cabelos loiros com uma barba bem

aparada, de olhos claros, tatuado e uma camiseta cinza desbotada, aproximou-se. — Bela máquina aquela lá fora — ele disse, indicando a moto de Sofie com um aceno de cabeça. — Uma raridade em Oslo ver uma daquelas tão bem cuidada. Ele estendeu a mão para ela e falou:

— Eu sou o Noah e você é?

Sofie sorriu, um sorriso genuíno e descontraído, sem as defesas que usava com Philip. — Me chamo Sofie. Sobre a moto... ela dá trabalho, mas vale cada curva — respondeu ela, mantendo a conversa fluida, sentindo que a noite estava apenas começando a levá-la para longe do luto.

O ar no bar The Engine Room estava carregado com o cheiro de malte, cigarro e o som metálico de Led Zeppelin ecoando nas paredes de tijolo. Alana já estava em seu elemento, rindo e trocando olhares com um sujeito de colete de couro encostado na jukebox.

— Sof, eu vou ali ver se o papo dele é tão bom quanto o porte.

— Alana piscou, inclinando-se para o ouvido da amiga. — Fica bem com o seu viking aí. Juízo é para quem está de plantão!

Sofie riu, sentindo-se leve sob o efeito da IPA gelada. Ela voltou-se para o Noah. Ele era alto, com ombros largos que pareciam ocupar um espaço imenso e olhos azuis que brilhavam com uma curiosidade genuína sob a luz do neon vermelho.

— Então, Sofie... — Noah inclinou-se, a voz rouca sobrepondo-se à música. — Você pilota como se estivesse fugindo ou como se estivesse indo ao encontro de algo?

Sofie sorriu de canto, girando o copo de cerveja. — Um pouco dos dois, eu acho. Na estrada, o vento é tão alto que eu não consigo ouvir meus próprios pensamentos. É o único momento em que eu não preciso ser a solução para ninguém.

Ele soltou uma risada baixa, um som vibrante, e tamborilou os dedos no balcão de madeira. — Cuidado, Sofie. O silêncio da velocidade é viciante, mas ele costuma cobrar um preço alto quando a gente finalmente decide estacionar.

Noah se aproximou um pouco mais, com uma confiança tranquila. — O problema de fugir de si mesma a duzentos por hora é que, quando você para, o destino costuma estar te esperando com um sorriso irônico.

— Faz parte do destino, não é mesmo? Disse Sofie, sorridente.

A conversa fluía fácil, sem o peso da expectativa. Noah falava sobre as estradas de terra no norte da Noruega e como o motor de uma moto era a batida de coração mais honesta que ele conhecia. Sofie sentia o calor do corpo dele perto do seu, uma distração física necessária, um anestésico para a semana que a esmagou. De repente, o som pesado de uma moto estacionando do lado de fora. A porta de ferro do galpão rangeu ao ser aberta. Sofie não precisou olhar para saber. Ela sentiu um arrepio subir antes mesmo de girar o rosto. Pelo canto do olho, ela viu: Philip.

Ele entrou no bar sorridente, apertando a mão dos conhecidos, simpático com todos. Ele estava de jaqueta de couro preta, o braço livre de gesso agora movendo-se com confiança. E ao lado dele, com os dedos entrelaçados nos dele em um gesto de posse pública, estava a esposa. Do outro lado do bar, Alana estancou o movimento, o copo paralisado no ar. Seus olhos encontraram os de Sofie em um choque de puro pânico. Um sinal de olhares foi trocado: ele está aqui.

O coração de Sofie disparou como um motor em pane. O pânico de ser vista como a "outra" solitária, a médica que esperava por cafés de terça, a atingiu em cheio. Em um impulso de puro nervosismo e uma necessidade visceral de criar um escudo contra a presença de Philip, ela se voltou para

Noah... — ela sussurrou, levemente nervosa.

Antes que Philip pudesse focar os olhos nela entre a multidão, Sofie encurtou a distância. Ela segurou o rosto de Noah com as duas mãos e o beijou. Noah, pego de surpresa, mas com os reflexos de quem vive no limite, não hesitou. Ele soltou o copo no balcão e envolveu a cintura de Sofie com as mãos grandes, puxando-a para si com uma força que quase a tirou do chão. O beijo foi intenso, uma colisão de desejo dele e desespero dela. Nesse exato segundo, Philip parou. Seu olhar, que varria o bar em busca de um lugar para sentar, travou na cena. Ele viu o perfil de Sofie, o cabelo preto caindo pelas costas, as mãos agarradas na nuca de outro homem. Ele viu Noah apertando a cintura de Sofie, marcando o couro da calça dela com a força dos dedos.

O rosto de Philip, antes sorridente, tornou-se sério. A mão que segurava a da esposa tensionou tanto que ela chegou a soltar. Ele estava em chamas, estático, observando a mulher que ele pintou com tanta devoção ser possuída pelo olhar e pelo toque de outro homem.

O silêncio entre os dois, através do bar lotado, era o grito mais alto que Oslo já ouviu. O bar ao redor de Philip perdeu subitamente o som. O rock

clássico que reverberava nas paredes do galpão tornou-se um zunido

distante, abafado pelo pulsar violento do sangue em seus ouvidos. Ele

estava tentando disfarçar, a bota pesada ancorada no chão de madeira,

mas sentia como se o piso tivesse cedido sob seus pés.

Seus olhos, acostumados a enxergar detalhes milimétricos em peles e

telas, capturaram a cena em alta definição.

Philip

Não é ela, não pode ser. Foi meu primeiro pensamento, uma negação instintiva que morreu no instante em que reconheci a curvatura do pescoço, o brilho do cabelo preto que passei horas tentando replicar com tinta e óleo. Depois, veio a fúria. Uma onda quente e ácida subiu por meu peito. Eu nunca a tinha visto fora do ambiente hospitalar, mas vé-la ali, em um dos meus lugares favoritos, parecia uma

invasão. Ela estava usando as roupas que eu imaginava e até mesmo vi nas fotos,

exalando a audácia que eu via escondida sob o jaleco.

Eu disse para ela não me procurar... mas eu não disse para ela se entregar a outro na minha frente. O que mais me machucava era o toque. Ver as mãos daquele

homem, mãos possessivas apertando a cintura dela, puxando-a para o corpo dele

com uma intimidade que eu desejava em cada uma daquelas terças-feiras.

Ele sentiu uma vontade primitiva de atravessar o bar e arrancar Sofie daquele abraço, de gritar que ela era sua, a sua tempestade, e que ninguém mais tinha o direito de tocá-la daquela forma.

A tensão física de Philip fez com que ele fechasse a mão com tanta força na mão de sua esposa novamente, ele não conseguia desviar o olhar. Era uma tortura masoquista; ele precisava ver o quanto ela parecia não sentir a falta dele. Ele precisava ver que a "doutora racional" foi substituída por uma mulher incendiária que não perdia tempo com lutos.

— Philip? — A voz da esposa veio como um estalido, quebrando o transe.

Ele não respondeu. Sua mandíbula estava tão travada que os músculos do rosto saltavam. O olhar dele permanecia fixo no balcão, onde Noah agora afastava levemente o rosto de Sofie, mas mantinha a testa colada na

dela, em uma cumplicidade que fez Philip sentir o gosto de bile na

garganta.

— Philip, você está me machucando — ela insistiu, puxando a mão com força. — O que está acontecendo com você? Por que você parou assim? É a segunda vez que aperta minha mão.

Philip sentiu o pânico dela começar a borbulhar. Ele precisava falar algo, precisava se mover, mas seus pés não se moviam.

— Nada — ele disse finalmente, a voz saindo como um rosnado baixo e rouco. — É só... o barulho. Está muito cheio hoje.

— Você está pálido — ela disse, tocando o braço dele, o braço recém-curado. — E está olhando o que ou quem, em direção ao balcão? O que tem lá? Ela não reconheceu a médica sem o jaleco e de lado com cabelo solto, tatuada e roupas diferentes...

Philip desviou o olhar finalmente, mas a imagem de Sofie nos braços de Noah já estava gravada em sua retina, queimando como uma tatuagem recém-feita.

— Eu estava procurando meu sócio, mas ele não está.

Ele mentiu, a palavra pesando como uma tonelada. — Vamos para o outro lado do bar. Preciso de uma bebida forte.

Philip sentia o suor frio escorrer pela nuca, mas a esposa disse de maneira firme: — Não vamos para outro lugar, Philip. Acabamos de chegar e o lugar é ótimo. Fica aí, eu vou pegar uma bebida para você — ela disse, soltando a mão dele mais uma vez e caminhando decidida em direção ao balcão.

Philip travou. Ele viu, em câmera lenta, a esposa parar exatamente atrás das costas de Sofie. Elas estavam a centímetros de distância: a loira,

impecável e distraída, esperando o barman; e a morena, com os dedos ainda entrelaçados na nuca de Noah, o corpo colado ao dele em uma

farsa sensorial que queimava a retina de Philip.

O contraste era insuportável. A esposa pediu as bebidas, pegou os copos e voltou para Philip sem notar que acabou de roçar no ombro da mulher que habitava os pesadelos e os sonhos do marido.

No balcão, Noah se afastou apenas alguns milímetros da testa de Sofie. Ele tinha um sorriso enviesado, os olhos azuis brilhando com uma mistura de surpresa e puro deleite masculino.

— Uau... — Noah soltou um riso baixo, a voz vibrando perto do rosto dela. — Não estava esperando por isso. E não estou reclamando... Para registro, você beija muito bem.

Sofie sentiu o rosto arder. O coração ainda martelava, mas a necessidade de manter o disfarce era maior que o constrangimento. Ela forçou um sorriso lúdico, tentando sustentar a máscara de mulher fatal que decidiu vestir por puro desespero.

— Que bom que gostou — ela respondeu, a voz um pouco trêmula, mas firme o suficiente para ele não notar. — Gosto de homens assim como você. Eu simplesmente não resisti quando te vi.

Ela inventou a primeira coisa que veio à mente, embora, lá no fundo de sua mente, soubesse que Noah era sim extremamente atraente, com aquela beleza rústica de quem não teme o asfalto. Mas o beijo foi uma maneira de fuga desesperada.

— Vamos até a mesa da minha amiga? — Sofie sugeriu rapidamente, querendo sair da linha de tiro do olhar de Philip.

Eles caminharam até a mesa de canto onde Alana já estava devidamente instalada com o motociclista da jukebox. Alana olhava para Sofie com os olhos arregalados, um misto de "você é louca” e "isso foi brilhante”.

— Gente, esse é o Arne — Alana apresentou o rapaz, que por coincidência era amigo de Noah. — E essa é a minha amiga, a Dra. Sofie.

— Apenas Sofie, muito prazer. Ela cumprimentou o rapaz com um aperto de mão.

— Você então é médica? — Noah perguntou, puxando uma cadeira para Sofie.

— Somos médicas sim, e vocês, o que fazem?

Sofie fez questão de sentar-se de costas para o salão. Ela queria o canto mais escuro, o ângulo onde seus olhos não pudessem encontrar os de Philip novamente.

— Sou diretor de tecnologia — disse Noah — Eu sou engenheiro químico — respondeu o Arne.

— Então, Arne e Noah... vocês viajam muito com essas máquinas? — Alana puxou o assunto, tentando normalizar a vibração caótica da mesa.

— Todo fim de semana que o clima permite — Arne respondeu, enquanto Noah passava o braço por trás da cadeira de Sofie, em um gesto casual de proteção. — Estamos planejando subir para as montanhas de Jotunheimen no próximo mês, vamos todos juntos.

Alana, já empolgada com a ideia e com a proximidade de Arne, virou-se para a amiga com um brilho nos olhos: — Sexta estamos de folga, sábado estamos de plantão, né, Sof?

Sofie não respondeu de imediato. Seus ouvidos estavam sintonizados em outra frequência, captando o som das risadas forçadas e o tilintar de gelo que vinha da mesa de Philip, logo atrás de suas costas.

— Sof? — Alana insistiu, tocando seu braço.

— Ah, me desculpa... — Sofie sacudiu a cabeça, forçando um sorriso descontraído. — Eu viajei um pouco com essa música, o som está alto aqui. Outra mentira. A música era apenas o ruído de fundo para o caos

interno que ela tentava esconder.

— Eu estava dizendo — continuou Alana — que sexta é seu último dia

em casa e meu dia de folga. Podemos ir com eles! Mas eu não tenho

— Eu te levo — Arne respondeu prontamente, puxando Alana para perto e dando-lhe um beijo estalado na boca, selando o convite com uma informalidade que fez Alana rir.

Alana olhou para Sofie mais uma vez, as sobrancelhas erguidas: — Vamos?

— Vamos sim, claro. Por que não? — Sofie respondeu, sentindo que cada palavra sua era um tijolo a mais no muro que a separava do passado.

Noah, sentindo a abertura, inclinou-se para mais perto de Sofie. O cheiro do perfume dela misturava-se ao perfume da barba dele.

— E você? Vai agarrada comigo ou vai com sua própria moto? — ele perguntou, a voz baixando para um tom mais íntimo.

Sofie virou o rosto lentamente para ele. A centímetros de distância, ela sustentou o olhar azul de Noah, permitindo que uma centelha de malícia genuína surgisse. — O que você prefere, "diretor"? — ela perguntou, usando o apelido em um tom provocante que fez Noah sorrir de canto.

— Eu quero que vá comigo, doutora — ele afirmou, sem hesitar, a mão na nuca dela descendo levemente para tocar o ombro. — Quero sentir você segurando na minha cintura quando a estrada apertar.

— Então, combinado — Sofie disse, sentindo um prazer vingativo ao imaginar Philip ouvindo aquele arranjo. — Sexta-feira, que horas?

— Buscamos vocês às 9h na sexta-feira. Depois é só passar o endereço.

Arne e Noah começaram a combinar os detalhes do trajeto, discutindo pontos de encontro e o horário em que o sol começaria a baixar nas montanhas. Sofie só pensava que era abraçada com o Philip, ela gostaria de estar viajando, mas sua situação civil não permitia tal aventura. conversa fluía com a facilidade de quem já se conhecia há anos, enquanto Sofie se forçava a permanecer presente, bebendo sua cerveja como se fosse o néctar da liberdade.

Após duas horas de risadas e planos, Alana levantou-se, ajeitando o casaco. — Amiga, vou embora com o Arne. Ele está sóbrio, não bebeu nada hoje, então pode ficar tranquila.

— Ela disse, inclinando-se para dar um abraço apertado em Sofie.

— E você, peça uma água agora, mocinha. Juízo.

As duas se despediram com um sorriso. Sofie viu Alana sair de braços dados com Arne, deixando-a sozinha na mesa com Noah. Mas ainda evitando olhar para trás e fazer contato visual com ele.

Noah ergueu a mão para o barman, pedindo uma garrafa de água mineral para Sofie. O gesto era protetor, contrastando com a selvageria do bar. Enquanto ela bebia, sentindo a água gelada limpar o gosto da cerveja e da mentira, Noah se aproximou, apoiando o queixo na mão, observando-a com uma curiosidade densa.

— Você não é o tipo de mulher que frequenta esses lugares toda noite, é, Sofie? — ele perguntou, um sorriso de canto brincando em seus lábios. — Tem algo em você que brilha demais para esse escuro.

— Talvez eu só estivesse precisando de um pouco de sombra para descansar do excesso de luz do hospital — ela respondeu sorrindo, sentindo-se estranhamente confortável na presença dele. — Mas confesso, a Alana me trouxe, eu não saio nunca, apenas trabalho e a trilha sonora daqui é imbatível.

Eles riram, uma conversa leve sobre bandas de rock e estradas sinuosas que parecia flutuar sobre o clima tenso do bar. Noah era magnético, e Sofie se permitia ser atraída.

— Vamos sair daqui? — Noah sugeriu, a voz baixando. — O ar aqui dentro está ficando pesado, e eu adoraria ver como você pilota aquela máquina sob as luzes de Oslo.

Ele não esperou resposta. Colocou algumas notas de coroas sobre a mesa, pagando a conta com um movimento decidido. Sofie respirou fundo, ela sabia que aquele era o momento. Levantar significava sair da

proteção da sombra, significava que o olhar de Philip seria inevitável.

Ela se levantou com uma elegância lenta, colocando sua jaqueta. Como se fossem puxados por um fio magnético, seus olhos buscaram os dele. Philip não estava mais fingindo beber; ele estava com o corpo voltado para a direção dela, os olhos fixos, escuros e carregados de uma tempestade que nenhuma floresta de Nordmarka poderia conter. Sofie sustentou o olhar dele, sentindo a eletricidade estalar entre as mesas. Não era mais o olhar do paciente para a médica; era o olhar de um homem que via algo seu sendo levado.

Nesse instante, Noah se posicionou atrás dela com um sorriso largo. Ele envolveu a cintura de Sofie com um abraço, puxando-a para trás até que as costas dela colassem em seu peito robusto. Noah inclinou a cabeça e depositou um beijo demorado e carinhoso no topo da cabeça de Sofie, deixando rastro de sua fragrância no corpo dela, o perfume parecia algo como Geir Ness.

Sofie fechou os olhos rapidamente, sentindo o calor de Noah, e quando os abriu, desviou o olhar de Philip, deixando um sorriso de canto, vitorioso e levemente malicioso, escapar.

Ela via a fúria no olhar de Philip, uma raiva crua, impotente, que fazia os ombros dele ficarem rígidos. E, no fundo daquela cratera que ele abriu no peito dela ao dizer adeus, Sofie sentiu uma pontada de prazer. O ciúme dele era a prova de que a "racionalidade" dele estava desmoronando, e que, embora ele estivesse de mãos dadas com outra, a alma dele ainda estava acorrentada a ela.

— Vamos? — Noah sussurrou contra o seu cabelo.

— Vamos — ela respondeu, saindo do bar sem olhar para trás, sentindo o olhar de Philip até a porta de ferro se fechar.

O som das botas de couro no asfalto úmido era o único ritmo antes da ignição. Sofie caminhou até sua moto com uma postura inabalável, sentindo o olhar de Noah, mas era outro olhar que ela buscava. Ao montar em sua moto, ela sentiu o metal gelado entre as coxas, um contraste brusco com o calor que ainda subia por seu pescoço.

Ela pegou o capacete preto fosco, mas antes de encaixá-lo, permitiu-se um último ato, ela girou o rosto em direção à grande vidraça do The Engine Room. Philip estava em pé, a poucos centímetros do vidro, com as luzes vermelhas do letreiro de neon projetando sombras dramáticas em seu rosto. Ele parecia uma estátua de dor e possessividade, o braço bom apoiado no marco da janela, observando cada movimento dela com uma intensidade que beirava o insuportável. Não havia mais a esposa ao lado dele naquele quadro; havia apenas o vácuo que Sofie deixava.

Sofie olhou por alguns segundos. Ela viu a mandíbula dele cerrar, viu o brilho de uma pergunta não formulada em seus olhos escuros. Então, com um movimento deliberado e lento, terminou de colocar o capacete. O mundo de Philip desapareceu quando ela baixou a viseira escura. O estalo do acrílico fechando foi o ponto final.

Quando ela girou a chave e acionou o motor, o escape customizado liberou um ronco grave, grosso e imponente, que ecoou pelas paredes do galpão, engolindo qualquer rastro do que fora dito naquele bar. Noah fez o mesmo, o som das duas motos criando uma sinfonia de libertação.

Ela engatou a primeira marcha com um estalo metálico satisfatório e arrancou. O som da moto foi ficando mais grave à medida que ela ganhava velocidade, sumindo na noite de Oslo, deixando para trás apenas o cheiro de combustível queimado e o silêncio atordoado de quem ficou para ver a partida.

As duas motos serpenteavam pelas ruas desertas. Sofie sentia a adrenalina vibrar no guidão, mas sua mente era um campo de batalha. O vento gelado batia contra seu peito, mas o calor que sentia vinha do que deixou para trás no bar. Eles seguiram para o alto de Ekebergparken, um dos pontos turísticos mais bonitos da cidade à noite. De lá, Oslo parecia um tabuleiro de luzes douradas e azuis refletidas no espelho escuro do fiorde.

Ao estacionarem, Noah desceu da moto com a agilidade de um predador e, antes que Sofie pudesse tirar as luvas, ele já estava ao lado dela. Ele a puxou pela cintura e a beijou. Sofie correspondeu. O beijo de Noah era direto, seguro, com gosto de aventura e liberdade. Ela se forçou a mergulhar naquele toque, tentando apagar a imagem de Philip.

“Ele é solteiro, é atraente, é livre e me quer aqui, agora”, pensava ela, um ódio surdo crescendo no peito por ainda sentir o fantasma de um homem casado assombrando seus sentidos.

Pelo menos, ela estava se permitindo. Ela merecia aquele momento, mesmo que ele fosse apenas uma distração. Eles caminharam e conversaram por mais uma hora.

— Você é um mistério, Sofie — Noah sussurrou contra os lábios dela, os olhos azuis brilhando sob as luzes.

— Talvez eu só esteja cansada de ser previsível — ela respondeu, afastando-se um pouco, a respiração formando uma pequena nuvem de vapor. — Noah... foi uma noite incrível. Mas eu preciso ir para casa. A adrenalina está começando a baixar e o frio está ganhando. — Ela disse, olhando para cima, com os braços em volta da nuca dele.

Noah sorriu, compreensivo. — Eu te acompanho. Não vou deixar a dona daquela moto cruzar a cidade sozinha a essa hora. Vou até a sua porta para garantir que você entre em segurança.

— Claro — ela sorriu, sentindo um conforto genuíno na proteção dele. — Vamos lá.

O passeio de volta foi mais lento, quase contemplativo. Eles cruzaram a ponte de Barcode, com os prédios modernos de vidro refletindo o luar, até chegarem ao prédio de Sofie em Aker Brygge.

Ao estacionarem na frente do edifício, Noah a ajudou a tirar o capacete. Ele a prensou suavemente contra a moto, as mãos subindo pelo rosto dela. O beijo que se seguiu foi ardente e um desejo que fez as pernas de Sofie fraquejarem. A vontade de convidá-lo para subir, de se perder naquela pele tatuada e esquecer o mundo, subiu como uma maré.

Mas ela não podia, não hoje. Havia um bloqueio, uma lealdade teimosa a um sentimento que não lhe pertencia. Ela não sabia se Noah queria algo sério ou se era apenas sexo também. Por mais que Sof só quisesse algo carnal nesse momento, ela não estava 100% mesmo que fosse apenas para isso.

— Hoje já foi adrenalina demais para um coração só — ela murmurou, recuperando o fôlego e sorrindo contra o peito dele.

— Sexta-feira, doutora — Noah piscou, dando um último beijo casto na testa dela. — Não se atrase.

— Pode nos encontrar às nove em ponto, eu costumo ser bem pontual. Sofie sorriu e deu um último beijo nele.

Após estacionar sua moto, Sofie subiu o elevador sentindo o corpo trêmulo. Assim que entrou, a primeira coisa que fez foi trancar a porta e encostar a testa na madeira.

Ela foi direto para o banheiro. Ligou o chuveiro no máximo e deixou a água quase fervendo aquecer seu corpo, expulsando o gelo da noite. O vapor preencheu o box, ela fechou os olhos e imaginou que não era Noah quem a abraçava no bar.

Ao sair, vestiu um pijama quentinho. Passou um café forte e sentou-se no sofá de frente para a TV, tentando assistir a qualquer filme.

O celular estava ali, em cima da mesa de centro. Algo dentro dela, uma esperança irracional, gritava para receber uma mensagem. Ela queria que Philip tivesse ficado tão transtornado a ponto de quebrar suas próprias regras. Queria um “Quem era aquele?" ou um “Como você pôde?”.

Ela olhou para a tela, cinco minutos, dez minutos. O celular permanecia escuro. O "Diabo" não mandou sinal. O mundo de Sofie estava girando, mas o coração dela ainda esperava por uma notificação que o silêncio de Philip se recusava a entregar.

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