A Viagem O Cheiro da Chuva · Capítulo 7 de 15
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A Viagem

A sexta-feira amanheceu com um céu de brigadeiro, um azul tão límpido que parecia pintado à mão. Alana, que passou a noite ali para facilitar a partida, terminava de trançar o cabelo, enquanto calçava as botas.

Às 09:02, o ronco grave e compassado de duas Harleys ecoou no pátio do prédio, fazendo os vidros da varanda vibrarem levemente.

Ao descerem, o encontro foi uma explosão de energia. Arne não perdeu

tempo e envolveu Alana em um abraço, erguendo-a do chão, selando o

bom dia com um beijo estalado e barulhento. Noah caminhou até Sofie

com passos lentos, a jaqueta de couro aberta revelando uma blusa grossa

por baixo. Ele a segurou pela nuca, os dedos firmes perdendo-se nos fios

pretos dela, e a beijou com uma intensidade que parecia ignorar completamente o fato de serem nove da manhã. Era um beijo quente,

com gosto de hortelã.

— Bom dia, Doutora — Noah disse ao se afastar apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, a voz ainda carregada pelo sono. — Como você está esta manhã?

Sofie ajeitou a gola do seu suéter, mantendo uma expressão sorridente. Ela consultou o horário na tela do celular com precisão teatral.

— Estou bem, mas quero informar que você está dois minutos atrasado — ela deu um sorriso irônico, arqueando uma sobrancelha. — Tirando seu atraso, você está bem?

Noah soltou uma risada anasalada, balançando a cabeça. — Estou bem também, embora agora um pouco triste por perder minha pontualidade — ele brincou, pegando a mochila de Sofie para prender na moto. — Mas vou compensar isso. Vamos parar em um lugar para um café da manhã reforçado e depois seguimos estrada.

The Baker's Forge

Eles pilotaram por vinte minutos até uma padaria rústica na saída da cidade, um antigo galpão de ferreiro transformado em café, onde as mesas eram feitas de toras de madeira maciça e o balcão exibia pães artesanais que pareciam esculturas. Eles se sentaram em uma mesa externa, protegida pelo sol, mas com a brisa fresca da manhã.

Pediram tábuas de Svele (panquecas norueguesas) com creme de nata e geleia de mirtilo silvestre, ovos mexidos com salmão defumado e cestas de pães de sementes ainda quentes. Para beber, grandes canecas de café

coado e suco de maçã local.

— Arne, se você pilotar como come essa panqueca, chegaremos a Jotunheimen antes do almoço — Alana provocou, limpando um pouco de geleia do canto da boca.

— O segredo é o peso, Alana. Mais panqueca, mais estabilidade na curva — Arne rebateu, fazendo todos rirem.

— E você, Sofie? — Noah perguntou, observando-a cortar o pão com precisão. — Já pensou que hoje o único som de emergência vai ser o meu estômago pedindo mais café.

— E uma sensação estranha — Sofie confessou, relaxando os ombros. — É como se eu estivesse desaprendendo a ser séria. Mas acho que posso me acostumar com essa "terapia de estrada”.

— Estou feliz que esteja saindo e vivendo um pouco fora do hospital, — disse Alana, segurando sua caneca com as duas mãos.

— Eu também estou feliz por viver um pouco mais esses últimos dias e por estarmos juntas nessa viagem louca com pessoas que mal conhecemos. — Ela disse, sorrindo ironicamente de novo e dando um selinho em Noah.

Após o banquete, eles limparam as mãos, ajustaram as luvas e subiram nas motos. O destino era o Lago Gjende, no coração do Parque Nacional de Jotunheimen, uma viagem de aproximadamente duas horas que cortava vales e subidas sinuosas. O cenário começou a mudar rapidamente. O asfalto urbano deu lugar a estradas cercadas por paredões de rocha e pinheiros altíssimos que filtravam a luz do sol em feixes dourados. Sofie não estava no comando do guidão desta vez; ela era a passageira de Noah. Sentada na garupa da Harley imponente, ela sentia a vibração bruta do motor de 1800cc reverberar por todo o seu corpo.

Suas mãos estavam firmemente entrelaçadas na cintura de Noah. A cada curva acentuada, ela inclinava o corpo com o dele, uma dança de confiança cega onde o equilíbrio de um dependia do outro. O vento cortante de 100 km/h batia contra seu capacete, mas o abrigo do corpo de Noah à sua frente criava uma proteção.

Logo atrás, o ronco igualmente grosso da moto de Arne completava a sinfonia. Alana ia agarrada a ele, soltando risadas que o vento carregava e espalhava pelos vales.

Após quase duas horas de estrada, o horizonte se abriu. Diante deles, o Lago Gjende surgiu como uma joia impossível: uma massa de água de um azul-turquesa tão vibrante que parecia emitir luz própria, cercada por picos nevados que furavam as nuvens.

Noah reduziu a marcha gradualmente, o som do escape "pipocando" de forma grave enquanto eles entravam no acostamento de cascalho à beira do mirante. Assim que ele desligou o motor, só se escutava o estalar do metal quente esfriando e o som distante de uma queda d'água.

Noah desceu primeiro e, com um movimento ágil, estendeu as mãos para ajudar Sofie.

Seus dedos envolveram a cintura dela, segurando-a com firmeza enquanto a trazia para o chão. Ele não a soltou imediatamente.

— Sobreviveu à carona, doutora? — ele perguntou, a voz rouca e os olhos azuis fixos nos dela.

Sofie retirou o capacete, sacudindo os cabelos. Ela estava ofegante, com as bochechas coradas pelo frio e pela adrenalina.

— Sobrevivi. Mas confesso que a vista daqui de trás... — ela fez uma pausa dramática, olhando para a imensidão do lago e depois voltando o olhar para ele com um sorriso de canto —...é muito mais interessante do que eu imaginava.

Noah sorriu, aproximando-se ainda mais, sentindo o cheiro bom que emanava dela. — O lago ou as minhas costas? — ele provocou, baixando o tom de voz.

— Os dois, bonitão. — Ela disse, acariciando o rosto dele.

Arne e Alana chegaram fazendo barulho, jogando as luvas sobre as motos e correndo em direção à margem.

— Meu Deus, isso aqui é real?! — gritou Alana, maravilhada. — Sofie, olha essa cor! Parece que alguém jogou tinta no degelo.

O grupo se reuniu à beira da água. O ar era tão puro que ardia nos pulmões de um jeito bom. Eles se sentaram em pedras polidas, compartilhando bebidas e aperitivos que trouxeram, observando os pequenos barcos que cruzavam o lago lá embaixo.

Ali, cercada por amigos e pela grandiosidade da natureza, Sofie sentiu que a "Dra. Bergan” estava a quilômetros de distância. Ela se permitiu encostar a cabeça no ombro de Noah, fechando os olhos por um momento, e a imagem de Philip não foi a primeira a aparecer em sua mente.

Em vez disso, ela viu o rastro da estrada que acabou de percorrer e o azul infinito que se estendia à sua frente. Alana e Arne, trocavam risos e empurrões de brincadeira, começaram a caminhar pela margem pedregosa, as botas estalando no cascalho até que as suas figuras se tornassem pequenos pontos coloridos contra a imensidão verde e azul do outro lado do lago. O som da água batia suavemente nas rochas, acompanhado pelo assobio do vento entre os picos. Sofie permanecia sentada numa rocha alta, com os joelhos abraçados, sentindo o sol de altitude aquecer-lhe o rosto apesar da brisa gelada. Noah estava sentado ao lado dela, mas não disse nada de imediato. Ela reparou em suas mãos grandes, com as articulações marcadas, enquanto pegava uma maçã.

— Está muito silenciosa, Sofie — ele disse com a voz grave. — É o lugar ou a tua cabeça que não para?

Sofie soltou um longo suspiro, a névoa da respiração dissipando-se rapidamente. — Os dois. Estar aqui faz a gente se sentir muito pequeno, não acha? Todos os nossos "grandes problemas” parecem

ridículos diante destas montanhas que estão aqui há milênios.

Noah inclinou-se um pouco mais, o ombro dele roçando no dela. — Às vezes, ser pequeno é a melhor parte. Significa que não tem que carregar o mundo nas costas o tempo todo. Pode só... ser. Ele virou o

rosto para ela e Sofie notou como os olhos dele pareciam ter roubado a

cor do lago Gjende.

— No bar, na outra noite... — Noah continuou, a voz baixando um tom. —

Eu senti que estava me usando. E eu aceitei o papel, e acabei tendo a oportunidade de te conhecer melhor e gostaria de conhecer mais.

Mas aqui, onde não há ninguém, quem é a Sofie que está sentada

nesta pedra?

A pergunta atingiu Sofie. Ela desviou o olhar para o horizonte, sentindo o coração acelerar. — A Sofie que está aqui... — ela começou, hesitante — ...é alguém que esqueceu como se sente o vento sem ter de pensar no próximo turno. Alguém que está tentando perceber se o que sente é liberdade ou apenas uma fuga muito bem planejada. Sofie olhou para ele, segurou a mão direita de Noah e continuou: — Eu não beijava alguém há anos, eu não saía, eu só trabalhava dia e noite e pedi cinco dias para descansar, e estou fazendo coisas novas... Sofie respirou fundo. — Me desculpa se você se sentiu usado, não foi minha intenção.

Noah apertou a mão de Sofie gentilmente, afastou uma mecha de cabelo preto do rosto dela. Os dedos dele tocaram-lhe a bochecha, subindo até a têmpora. — Que bom que está se permitindo viver novas experiências, fico feliz em fazer parte disso.

Ele aproximou o rosto e Sofie não recuou. Desta vez, não havia o letreiro

de néon do bar, não havia a plateia de motociclistas e, acima de tudo, não

havia a vidraça com o olhar de Philip a vigiá-la. Era apenas o cheiro de

pinheiros, o som do degelo e a presença sólida de Noah. Ele a beijou de

novo, mas não foi o beijo impetuoso do balcão. Foi um beijo lento,

profundo, que parecia querer saborear a paz do momento. Sofie sentiu as

defesas caírem. Por um instante, o peso do que nunca poderia ter com o

outro homem dissolveu-se na água turquesa à sua frente.

— Não pense tanto, doutora — ele sussurrou contra os lábios dela, a mão descendo para a nuca, prendendo-a num abraço protetor.

— Deixa que a estrada decida por nós.

Noah levantou-se com um movimento fluido, estendendo a mão para Sofie. — Vamos dar uma volta — ele sugeriu, fechando os dedos sobre os dela com firmeza. — Olhar essa paisagem.

Eles conversavam sobre várias coisas enquanto caminhavam por uma trilha estreita que serpenteava entre rochas cobertas de musgo e pequenas flores silvestres que teimavam em crescer no frio. Contornando um paredão de pedra acinzentada, encontraram a entrada de uma pequena caverna natural. Assim que cruzaram o limite da penumbra, a tensão que vinha acumulando desde a manhã explodiu. Sofie o agarrou ali. Ela segurou as lapelas da jaqueta de Noah e o empurrou contra a parede irregular da caverna. Ela o beijou ardentemente, e sabia que toda aquela vontade era um desejo de ter feito com outra pessoa. Mas hoje a vida seguia, ele fez a escolha dele.

Noah soltou um rosnado baixo, a voz vibrando no peito dele contra o dela, e envolveu a cintura de Sofie. O beijo tornou-se excitante e ofegante.

As mãos de Sofie abandonaram a jaqueta e escorregaram para dentro da camiseta dele, subindo pelo peitoral firme e quente, sentindo a textura da pele e a batida acelerada do coração de Noah.

Ele, por sua vez, deslizou as mãos por baixo da blusa dela, o contraste do toque firme dos dedos contra o calor da pele das suas costas fazendo-a estremecer.

Com uma audácia que a pegou de surpresa, ele afastou levemente o sutiã dela, expondo a pele sensível ao ar gelado da caverna e envolveu o seio dela com a boca. O rastro úmido da língua dele provocou um arrepio no corpo de Sofie. Ela arqueou o corpo instintivamente, os dedos emaranhando-se com força nos cabelos loiros dele, enquanto um gemido abafado escapava de sua garganta, ecoando suavemente nas paredes de pedra. O desejo ali era uma combustão de tudo o que ela vinha reprimindo. O mundo lá fora, o hospital, o Philip, a lógica deixava de existir. Naquele instante, o único universo real era o calor da boca dele e a pressão de suas mãos.

Foi então que o som do mundo exterior invadiu o lugar. Vozes distantes, ecos de risadas e o som de botas batendo no cascalho

começaram a se aproximar da entrada da caverna. Turistas.

— Droga... — Noah murmurou entre dentes, afastando o rosto com relutância, a respiração pesada ainda batendo contra a pele úmida dela. Eles se separaram freneticamente, as mãos tateando tecidos para ajustar

as roupas desalinhadas. Sofie ajeitou a blusa, enquanto Noah soltava um

suspiro profundo, tentando domar a própria biologia que protestava

contra a interrupção. Com um movimento rápido, Noah tirou a jaqueta e a segurou casualmente à sua frente, para disfarçar a elevação evidente em

sua calça. No exato momento em que ele se posicionou, um grupo de

trilheiros apareceu na entrada.

Sofie olhou de relance para a "estratégia" da jaqueta e para a expressão de autocontrole tenso no rosto dele. Uma risada involuntária e deliciada escapou de seus lábios.

— A jaqueta, Noah? Sério? — Ela sussurrou, tentando recuperar a compostura.

Ele deu um sorriso torto, os olhos ainda escuros de desejo. — Segurança pública, Sofie. Segurança pública.

Eles voltaram para o ponto de encontro, rindo baixo, a cumplicidade entre eles agora marcada pelo segredo do que quase aconteceu sob as sombras de Jotunheimen.

O entardecer em Jotunheimen trouxe uma luz âmbar que parecia incendiar os picos nevados. O grupo se reuniu novamente à beira do Lago Gjende, onde Noah e Arne já haviam improvisado um piquenique rústico sobre uma manta.

Havia garrafas de vinho tinto, queijos curados da região e pequenos potes com geleia. Eles brindavam com taças de plástico.

— Aos novos caminhos — brindou Arne, com um brilho malicioso no olhar. — E às surpresas da estrada — completou Noah, batendo sua taça na de Sofie, os olhos dele ainda mantendo aquele rastro de fogo que começou na caverna.

Sofie observou Alana. A amiga estava radiante, com o cabelo levemente desarrumado e um sorriso que não cabia no rosto enquanto se aninhava no braço de Arne. “Aposto que ela conseguiu fazer o que eu não consegui”, pensou Sofie, sentindo uma pontada de inveja saudável, mas também uma satisfação nova. Ela mesma sentia o corpo mais leve, os ombros relaxados e a pele ainda formigando onde a língua de Noah havia tocado.

Comeram doces de canela e trocaram histórias sobre viagens passadas, risadas fluindo tão naturais quanto o degelo das montanhas. Havia uma harmonia entre os quatro: dois casais que, por algumas horas, haviam esquecido que o mundo real possuía horários e responsabilidades.

A volta foi feita em um ritmo contemplativo. A estrada de asfalto escuro brilhava sob a luz da lua crescente. O ronco das Harleys agora era um murmúrio constante e reconfortante. Sofie, abraçada à cintura de Noah, encostou o rosto em suas costas, sentindo o cheiro dele e do vento frio, deixando-se embalar pelo movimento sinuoso das curvas.

Na entrada de Oslo, Arne e Alana sinalizaram com um aceno, desviando em direção à casa de um deles.

Quando ele estacionou em frente ao prédio dela em Aker Brygge, o motor deu um último suspiro grave antes de silenciar.

— Obrigada pelo dia incrível, Noah. De verdade — ela disse depois de retirar o capacete.

— Eu que agradeço, doutora. Acho que as montanhas ficaram mais bonitas com você lá — ele respondeu, a voz rouca e baixa, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o calor dele. Sofie olhou para a entrada do prédio e depois para ele. O desejo de convidá-lo para subir era uma pressão física em seu peito, mas a realidade do hospital já começava a bater à porta.

— Eu te chamaria para subir... de novo — ela começou, com um sorriso de desculpas —...mas tenho plantão daqui a pouco. Preciso dormir pelo menos duas horas antes de encarar as emergências. Podemos marcar para a semana que vem?

Noah deu um sorriso compreensivo, mas seus olhos brilharam. — Claro que sim. Vou passar a semana pensando exatamente no que podemos fazer para compensar essa interrupção.

— Fico no aguardo do convite, Noah — ela respondeu com um tom de desafio suave.

Sofie ficou na ponta dos pés, envolvendo o pescoço dele com os braços. Ela o beijou com lentidão, um beijo que carregava o sabor do vinho. Noah a apertou contra si, as mãos firmes em suas costas, prolongando o contato até que o ar se fizesse necessário.

Ela se afastou devagar, deslizando as mãos pelo peito dele antes de soltá-lo. Noah a observou caminhar até a porta de vidro, esperando até ela acenar uma última vez do saguão.

Sofie entrou no elevador sentindo o corpo vivo. A "Dra. Bergan" estava de volta, mas agora ela carregava o segredo de uma fênix que aprendeu a voar entre as montanhas. O plantão seria longo, mas o café do hospital não seria a única coisa a mantê-la acordada.

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