Pecados Sob a Pele
O dia nasceu com a luz nublada de Oslo, mas o despertador foi ignorado com um prazer quase rebelde. Era o dia de folga de Sofie e Philip decidiu que o estúdio ficaria fechado no dia de hoje. O único compromisso de ambos era não se perderem de vista. Eles se olharam com aquela preguiça deliciosa de quem não tem para onde ir, e o caminho até o banheiro foi o início de um novo capítulo.
Debaixo da água morna, entre o vapor que embaçava os vidros, eles começaram o dia fazendo amor. Foi um encontro suave, regado a beijos lentos e confissões murmuradas que se misturavam ao som da água. Não havia pressa ou medo, apenas o reconhecimento de dois corpos que agora sabiam exatamente onde pertencer.
— Achei que você fosse um delírio do vinho de ontem — ele sussurrou contra a pele úmida do ombro dela, a voz ainda rouca de sono.
— Se for, não me acorda, quero continuar delirando — ela respondeu, virando-se nos braços dele, os olhos brilhando.
Na cozinha, o cenário era de uma domesticidade caótica e charmosa. Philip, vestindo apenas a calça jeans do dia anterior, assumiu o fogão. O som dos ovos estalando na frigideira e o aroma de café forte. Ela circulava pelo ambiente usando apenas uma camiseta grande e larga, deixando os ombros à mostra enquanto o observava apoiada no balcão, comendo morangos.
— Você cozinha tão bem quanto tatua? — perguntou ela, aproximando-se e dando a ele um pedaço de morango.
— Eu faço o necessário para manter minha deusa alimentada — ele brincou, puxando-a pela cintura para um beijo rápido que tinha gosto de café e desejo. — E você, ficaria melhor sem roupas sentada nesse balcão. Sobre tatuar, quando vou poder riscar sua pele?
— Humm... gostei da ideia, temos que falar sobre isso, tenho alguns desenhos em mente, depois eu te mostro. — Disse Sofie com um sorriso largo que mal podia conter.
Passaram a tarde entre o sofá e a cama; os filmes passavam na TV sem que nenhum dos dois prestasse atenção, meros ruídos de fundo para as carícias que, inevitavelmente, os levavam a fazer amor outra vez. Em um desses momentos, deitados de qualquer jeito no tapete da sala, Philip confessou: — Eu sempre achei que o amor fosse uma algema, Sofie. Mas com você, parece que finalmente ganhei uma moto nova e a estrada está livre.
Ela riu, acariciando a barba grossa e escura dele. — Então não tente me manter no acostamento, Philip. Eu passei tempo demais estacionada em uma vida que não era minha — ela confessou, a voz suave, mas carregada de uma nova determinação. — Se somos dois fugitivos, que a nossa única regra seja nunca olhar pelo retrovisor.
Philip segurou a mão dela contra seu rosto, fechando os olhos por um segundo para absorver o toque. — Eu não planejei isso, sabe? — ele murmurou, voltando a encará-la. — Eu vivo de traços definitivos, de agulhas e tinta que não apaga. Mas com você, eu sinto que estou redesenhando meu próprio mapa. Tenho vontade de te levar para todos os lugares que eu já passei sozinho, só para ver como eles ficam com você por perto. Eu quero até escutar 'Sextape' do Deftones, uma música de que gosto desde adolescente, e minha regra é: nunca escutar ela com ninguém, para não estragar... e agora eu estou aqui, querendo escutar essa música com você!
Sofie sorriu e respondeu — Então vamos entregá-la. E sobre os lugares... então me leva — ela desafiou com um sorriso provocante. — Me leva para as estradas que não estão no GPS, para o seu estúdio e para as florestas onde ninguém vai nos encontrar. Eu quero conhecer o mundo através dos seus olhos.
Ele a puxou para mais perto, o peito vibrando com uma risada curta. — Cuidado com o que deseja, doutora. Minha ideia de "passeio" geralmente envolve vento no rosto, poucos hotéis cinco estrelas e a
cereja do bolo, que é devorar você em todos esses lugares.
— Ótimo — Sofie selou os lábios nos dele, um selinho demorado. — Eu cansei de lençóis brancos e luzes fluorescentes. Eu quero o resto da vida com cheiro de asfalto e o gosto da sua liberdade.
Philip a envolveu em um abraço esmagador, como se quisesse fundir seus corpos de forma definitiva. Ali mesmo, sobre o tapete da sala, sob a luz suave do fim de tarde. Foi um amor diferente do despertar da manhã; agora havia uma entrega mansa, uma exploração detalhada de cada curva e tatuagem. Philip deslizava as mãos pela pele de Sofie, enquanto ela se perdia no ritmo seguro e profundo que ele ditava. Os corpos moviam-se em uma química perfeita, embalados pela conexão que os unia.
O sol já havia se despedido por completo, e as luzes da marina de Oslo piscavam lá fora, indiferentes à melancolia que se instalava dentro do apartamento. A atmosfera, que durante o dia foi de uma leveza quase onírica, agora pesava. A realidade do relógio era implacável: Philip precisava ir, e Sofie tinha um turno de doze horas esperando por ela ao amanhecer. Philip estava junto à porta, já com as luvas de couro e a jaqueta pesada por cima. Sofie estava encostada no batente, os braços cruzados sobre o peito, tentando conter a sensação de que o ar estava ficando mais rarefeito a cada segundo.
Aos 29 anos, ambos já tinham vivido outras despedidas, mas aquela despedida doía de um jeito ridículo, uma pontada aguda no centro do peito que desafiava a maturidade de dois adultos bem-sucedidos.
— Eu odeio essa parte de ter que ir embora. — Philip confessou, a voz mais baixa. Ele deu um passo à frente, segurando o rosto de Sofie com as mãos enluvadas. — É ridículo. Parece que estou sendo arrancado de
algum lugar onde finalmente me encaixo.
Sofie fechou os olhos, aproveitando o toque, e cobriu as mãos dele com as suas. — Eu sinto que vou passar o dia inteiro amanhã operando no piloto automático, contando as horas para o hospital me libertar — ela admitiu, abrindo os olhos e encontrando o castanho intenso dos dele. — Não demora a voltar, Philip.
Ele sorriu, mas era um sorriso triste, carregado de uma saudade antecipada. — Eu vou estar no seu celular, na sua mente e, se você fechar os olhos, ainda vai conseguir sentir meu cheiro.
Philip aproximou-se e selou seus lábios nos dela em um beijo lento, demorado. Quando se afastaram, ele encostou a testa na dela.
— Trabalha bem, doutora. Salve o mundo para poder voltar para o meu — ele sussurrou.
— Vê se não corre demais com essa moto. Eu não saberia como costurar o meu próprio coração se você partisse — ela rebateu, segurando o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a ver o caos em suas pupilas. — De nada adianta eu salvar o mundo se você não estiver nele, Philip. Por mim, preciso que exista um "nós" entre os escombros. Que tudo exploda e vire cinzas, eu só preciso de você.
Philip parou com a mão na maçaneta, o corpo tenso e o olhar que lançou a Sofie era puro fogo, segurou seu pescoço com uma pressão leve e disse contra os lábios dela: — Então deixe que queime, Sofie. Porque se o mundo explodir, eu vou usar as chamas para iluminar o caminho até você. Eu só preciso de oxigênio para te beijar, e você é o único ar que eu necessito. Se você está disposta a ser minha ruína, eu serei o seu inferno particular.
Ele a beijou uma última vez, um beijo que selava o pacto de que agora eles pertenciam um ao outro e a mais ninguém. Após a partida de Philip, Sofie deitou-se, mas o sono demorou a vir; ela se aninhou no lado da cama onde o cheiro dele ainda estava impregnado no travesseiro. Fechou os olhos e deixou-se levar pelo replay sensorial das últimas horas: a firmeza das mãos dele, as confissões roucas entre um beijo e outro, e a entrega absoluta que os unia. Adormeceu sorrindo, embalada por uma
memória quente que a protegia do frio de Oslo.
O dia seguinte no hospital foi o caos habitual. Entre suturas, diagnósticos e bipes de monitores, Sofie operava com uma energia renovada. Na hora do almoço, o refúgio foi a mesa de canto com Alana.
— Acho que emagreci uns três quilos só nas últimas vinte e quatro horas, Alana — Sofie confessou, os olhos brilhando enquanto mexia na salada.
Alana soltou uma risada alta, entendendo perfeitamente o subtexto. —
Então foi bom mesmo, pelo visto.
— Não foi "bom”. Foi inexplicável, surreal. Algo que transcendeu qualquer lógica — Sofie abaixou a voz, a seriedade tomando conta. — É fora da realidade, sabe? Parece que o mundo vai explodir quando estamos juntos.
Alana ficou pensativa, mexendo no copo de suco. — Não sei se já senti algo assim antes, para ser sincera. Mas fico feliz que finalmente estejam bem. Estão juntos de verdade agora.
— Amanhã vou sair com o Arne e o Noah, vamos para o bar juntos — comentou Alana, observando a reação da amiga.
Sofie suspirou, o semblante suavizando. — Espero que o Noah esteja bem. Mas, Alana, por favor... não comente nada sobre o Philip ainda. Seria confuso e cruel eu dar um fora nele num dia e no outro já aparecer com alguém. Não quero que ele fique triste. Saia, se divirta e... use seus dons. Apresente-o para outra mulher, alguém bem legal e merecedora.
— Pode deixar — Alana piscou. — Te conto tudo depois.
Às 18h, após doze horas exaustivas de plantão, Sofie não foi para casa. Tomou um banho rápido no vestiário do hospital, trocou o jaleco por uma roupa casual e seguiu direto para o estúdio de Philip. O ambiente tinha aquele cheiro característico de tinta, álcool e cerveja, envolto em uma luz âmbar industrial.
Ao vê-la cruzar a porta, os olhos de Philip se iluminaram. Foi um sorriso gigantesco e genuíno. Eles se cumprimentaram com um abraço apertado e um beijo discreto no rosto; era cedo demais para que os assistentes e clientes ao redor soubessem da intensidade que os consumia.
— Gostaria de lavar as mãos antes de mostrar os desenhos que eu trouxe — disse ela, bem discreta para quem observasse de longe.
— Claro, é naquela porta ali — Philip apontou, mas seus olhos nunca deixavam os dela.
Assim que Sofie entrou no banheiro e começou a ensaboar as mãos, a porta se abriu e fechou num estalo. Philip entrou rápido, trancando-a por dentro. Sem dizer uma palavra, ele a envolveu, sentou ela na pia e a beijou de forma apaixonada, um beijo profundo que a deixou tonta, buscando o ar que ele parecia roubar de seus pulmões.
— Eu precisava te beijar, amor — ele sussurrou contra os lábios dela, a voz carregada de um desejo que não podia esperar.
Sofie ficou tão desorientada que as mãos, ainda molhadas, tatearam a parede sem encontrar o papel para secá-las. O riso baixo de Philip vibrou contra seu pescoço antes de eles saírem dali, recompostos, para a área de tatuagem. Eles discutiram os desenhos e marcaram as datas para as sessões, mantendo o tom profissional enquanto os últimos funcionários iam embora. Assim que o estúdio ficou em silêncio e as luzes da frente foram apagadas, Philip a conduziu para sua sala particular, um espaço forrado de referências artísticas, pinturas dele, poltronas de couro e o cheiro dele.
Ao se apróximarem da mesa de trabalho, Philip, em um movimento ávido, acabou derrubando uma pasta marrom. Quando as folhas se espalharam pelo chão, Sofie travou. Não eram esboços de tatuagens comuns.
Eram dezenas de desenhos feitos a lápis grafite, todos com o mesmo tema: ela. Sofie, vendo-se em ângulos que nem sabia que tinha, a curva do seu pescoço enquanto examinava um prontuário, a mecha de cabelo
que caía sobre os olhos, a seriedade do seu rosto de médica. — Philip... — ela sussurrou, tocando o papel. — É lindo, amor. Posso ficar
com um?
Ele a encurralou contra a borda da mesa, os olhos escuros e fixos nos dela, sem nenhum traço de brincadeira.
— Pode ficar com todos, se quiser. Eu disse a verdade quando falei que achei que ia enlouquecer longe de você. Eu te via toda vez que fechava os olhos, Sofie. Pensei em você desde o segundo em que acordava até a hora de dormir. Cada traço desses foi uma tentativa de tirar você da minha cabeça para eu conseguir respirar, mas só me deixou mais viciado.
Sofie sorriu, um sorriso carregado de uma satisfação perigosa, sentindo-se a única religião de um homem que não acreditava em nada. Sem desviar o olhar, Philip a ergueu e a sentou sobre a mesa de trabalho, espalhando os rascunhos para abrir espaço para ela. O desejo dele era descontrolado. Ele começou a despi-la com movimentos desesperados, beijando cada centímetro de pele dela.
— O que você faz comigo? — Ele murmurou no ouvido dela, a voz falhando. — Por que eu fico totalmente sem controle quando estou perto de você?
Sofie sorriu entre os gemidos, abraçando-o com ainda mais força, sentindo o calor do peito dele contra o seu.
— Não sei... eu sinto exatamente o mesmo — ela respondeu, a respiração quente contra a orelha dele. — Então não se controla... continua. Me fode, amor... aqui, em qualquer lugar, desde que seja com você.
Philip a obedeceu, e quando ele cedeu a ela, algo primitivo nele se soltou. Os beijos vieram rápidos e sem intervalo. Os movimentos tornaram-se mais intensos, as mãos de Sofie o prendiam a ela como se temesse que ele pudesse evaporar, enquanto as dele a guiavam, segurando-a com firmeza. A sala de trabalho agora guardava os gemidos sufocados, as declarações roucas e o som rítmico de dois corpos já irremediavelmente obcecados um pelo outro. Eles se devoraram como se fosse a primeira
vez, descobrindo cada nova reação. Como se fosse a última, com o desespero de quem sabe que tudo isso pode acabar a qualquer momento.
O bar estava cheio, uma mistura de música baixa e o burburinho constante de conversas que tentava, sem sucesso, mascarar o clima pesado na mesa. Arne e Alana trocavam olhares, aproveitando a leveza do início do relacionamento deles, mas Noah era o ponto destoante. Ele estava visivelmente abatido, os ombros levemente caídos e o olhar fixo no copo de cerveja gelada à sua frente, observando as gotas de condensação escorrerem pelo vidro.
Após alguns goles em silêncio, ele não aguentou mais e soltou a pergunta que estava engasgada desde o início do encontro:
— E como a Sofie está? — Ele tentou soar casual, mas a voz saiu carregada de uma expectativa melancólica.
Alana sentiu um aperto no peito. Ela via a dor genuína no rosto de Noah e, por um segundo, sentiu o peso da mentira que precisava sustentar. Ela lembrou do pedido de Sofie, lembrou de Philip e de ambos juntos, uma conexão que, aos olhos de Alana, começava a parecer perigosa de tão intensa.
— Ela está bem... — Alana começou, escolhendo as palavras como quem pisa em ovos. — Trancada no mundo dela de novo. Hospital e casa, casa e hospital. Mas logo ela vai perceber a realidade.
Noah franziu a testa, desviando o olhar do copo para encarar Alana com curiosidade. — Que realidade? — perguntou ele, buscando qualquer migalha de esperança.
— A realidade de que não dá para viver só trabalhando, Noah, — mentiu ela, forçando um sorriso compreensivo.
No fundo, enquanto tomava um gole de sua cerveja, Alana sentia um calafrio. Ela sabia que a "realidade" de Sofie agora tinha nome, cheiro de tabaco e uma intensidade que beirava o doentio. Para Alana, o que estava acontecendo entre Sofie e Philip não era apenas um romance de tirar o fôlego; era uma obsessão sem limites, um incêndio que poderia
consumir os dois se eles não tivessem cuidado.
— Ela só precisa de um tempo para colocar a cabeça no lugar,
— acrescentou Arne, tentando ajudar a aliviar o clima, enquanto colocava a mão sobre a de Alana por baixo da mesa.
Noah assentiu vagamente, mas o vazio em seu olhar dizia que ele sentia, instintivamente, que a distância de Sofie não era apenas física ou profissional. Havia um muro sendo erguido e ele estava do lado de fora. O bar parecia ficar mais barulhento à medida que a noite avançava. Alana, percebendo o vazio nos olhos dele, inclinou-se sobre a mesa, tocando levemente seu braço em um gesto de encorajamento.
— Noah, por que você não tenta conhecer outra mulher? — Ela perguntou, a voz suave, mas direta. — Você é bonito, gentil... e, para ser sincera, tem algumas garotas aqui te olhando há um bom tempo. Pode dar chance a algo novo. Não se prenda às esperanças sobre a Sofie. Ela tomou o caminho dela agora e você precisa seguir o seu.
Noah suspirou, desviando o olhar para a multidão. Foi então que ele viu uma mulher de cabelos escuros e traços que remetiam vagamente ao rosto de Sofie o observando. Quando seus olhares se cruzaram, ela fez um gesto discreto com a mão, chamando-o. O coração de Noah deu um solavanco, mas não por interesse real. Foi um reconhecimento doloroso. Ele olhou para Alana e Arne, que o incentivavam.
— Vai — disse Alana, com um aceno encorajador.
Noah levantou-se lentamente. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, sabia que cada passo em direção aquela estranha era uma tentativa desesperada de preencher um buraco que tinha o formato exato de Sofie. Ele caminhou sabendo que aquilo era errado, que estava usando uma desconhecida como um curativo mal colocado para uma ferida aberta. Ao se apróximar, ele deu um sorriso que não alcançava seus olhos. Ele estava disposto a se permitir aquela pequena ilusão, a tomar uma dose de mentira para amortecer a dor de saber que, naquele exato momento, o pensamento de Sofie não estava nele...
SOFIE E PHILIP
O primeiro mês foi uma descida vertiginosa ao abismo.
Eles não estavam apenas namorando; estavam se consumindo.
Para Sofie, a assepsia branca do hospital tornou-se apenas o intervalo
necessário para a próxima dose de adrenalina na pele.
A presença de Philip era como uma droga de efeito rápido e abstinência devastadora; sem ele, o mundo de Sofie perdia a cor, tornando-se um
cenário cinzento.
Ele a despia nos fundos do estúdio, em becos escuros ou no banco de trás do carro, como se tivesse pressa de gravar seu nome em cada
centímetro dela.
Música de fundo God Is a Weapon - Falling in Reverse
Nas semanas que se seguiram, o apartamento ficou vazio na maioria dos finais de semana. Philip a buscava na porta do hospital, o ronco da moto anunciando sua chegada antes mesmo de ele aparecer. Sofie trocava o
jaleco pelo couro e, em minutos, eles eram apenas dois vultos negros
cortando as estradas que serpenteavam as montanhas norueguesas.
Eles não buscavam destinos turísticos, buscavam isolamento e adrenalina.
A obsessão era tamanha que, às vezes, Philip encostava a moto em um acostamento qualquer, escondido por pinheiros altos e névoa. Ali mesmo,
entre a terra úmida e o motor ainda quente, eles se entregavam a um
desejo selvagem, as mãos de Philip marcando o corpo dela enquanto o
frio da montanha contrastava com o calor febril de seus encontros.
Os hotéis de beira de estrada tornaram-se o cenário de suas maiores
loucuras. Eram lugares anônimos, com luzes de neon piscando e lençóis
ásperos, onde ninguém os conhecia.
Em um desses quartos, em uma noite de chuva torrencial, a obsessão atingiu um novo patamar. Philip a prensou contra a janela embaçada, o reflexo dos raios iluminando o desespero em seus olhos. — Você é o meu vício, Sofie — ele rosnou, os dedos enterrados no cabelo dela. — Eu sinto que, se eu parar de te tocar por um segundo, eu vou entrar em colapso.
Eles eram como gasolina e fogo: uma combinação feita para brilhar intensamente e reduzir tudo ao redor a cinzas. Não havia conversas sobre o futuro ou planos domésticos; havia apenas o agora, o toque, e a necessidade quase patológica de estarem fundidos um ao outro.
A chuva caía com força no telhado do pequeno hotel de beira de estrada, criando uma cortina de isolamento que os separava de todo o resto do mundo. Dentro do quarto, a penumbra era cortada pelas luzes de velas que Sofie acendeu. O cheiro de asfalto molhado ainda pairava no ar, misturando-se ao calor dos corpos deles.
Sofie buscou em sua bolsa um pequeno rolo de lã vermelha que trouxe consigo. Philip a observava, curioso, enquanto ela se sentava na cama, puxando-o para perto. Com movimentos lentos e quase rituais, ela cortou dois fios.
— Na antiga tradição pagã — ela começou, a voz baixa e vibrante — existe o Handfasting. O fio vermelho não é apenas uma corda; é o destino que se torna visível.
Ela cortou dois pedaços, amarrou o primeiro fio no punho de Philip e, depois, pediu que ele fizesse o mesmo no dela. Em seguida, ela retirou dois anéis de prata envelhecida de um estojo de veludo preto. Não eram alianças convencionais; tinham gravuras que lembravam galhos entrelaçados. Sofie segurou a mão dele e deslizou o anel no dedo anelar dele, prendendo o olhar nos olhos de Philip.
— Philip... eu passei a vida toda curando feridas externas, mas eu estava morrendo por dentro. Você não apenas me acordou; você me incendiou. Eu entrego essa prata a você nesta noite de tempestade porque não quero ser salva do fogo. Eu quero queimar com você. Se o mundo acabar amanhã, que o último rastro de fumaça seja o nosso encontro. Eu te amo de um jeito que desafia minha própria medicina, porque você é a única doença que eu nunca quero curar. Você é o meu dono, o meu caos e o meu único destino. Ela o beija gentilmente após sua declaração.
A chuva lá fora castigava as janelas e Philip parecia paralisado, a vulnerabilidade rasgando sua armadura. Ele pegou o segundo anel, segurando a mão de Sofie com firmeza e com medo de soltar e ele perder tudo isso que ele sempre quis. Ao deslizar a prata no dedo dela, ele se aproximou tanto que suas testas se tocaram.
— Sofie... — a voz dele saiu como se fosse dolorido dizer o nome dela, carregado de uma verdade que ele nunca permitiu que saísse de seu peito. — Eu sempre vivi nas sombras, marcando a pele das pessoas para que elas se sentissem vivas, enquanto eu mesmo era apenas um fantasma na estrada. Eu achava que esse tipo de amor era algo que eu não podia ter. Mas você... você entrou na minha vida mostrando que tudo pode ser diferente. Ele apertou a mão dela, os olhos brilhando com uma intensidade que parecia transbordar.
— Este anel é a minha rendição. Eu não estou apenas te dando meu corpo; estou te dando as chaves do meu inferno e do meu paraíso. Eu te amo tanto que sinto que minha pele não é suficiente para
conter o que eu sinto por você. Se eu tiver que percorrer todas as
estradas escuras do mundo, eu farei isso, desde que você esteja na garupa. Você é a minha redenção e minha obsessão. Eu sou seu, inteiramente seu, Sofie. Até que não reste mais nada de mim além
O beijo que selou a união pagã foi calmo e apaixonado, carregado com o peso absoluto daquelas confissões. Suas línguas se buscavam com uma sede milenar, no reconhecimento faminto de quem finalmente encontrava o seu porto no escuro. Philip puxou os cabelos de Sofie com possessividade, puxando-a para si como se quisesse fundir as duas estruturas ósseas em uma só. Sofie soltou um suspiro que se transformou em um gemido abafado contra os lábios dele. A paixão que os inundava era uma força da natureza, transbordando paixão, obsessão, calor e desejo.
Eles eram agora marido e mulher sob as leis de um destino que eles mesmos escreveram com prata e lã. A entrega ali não era apenas carnal; era uma comunhão sombria e magnífica. Philip a apertava contra o peito com tamanha força que o ritmo dos corações se sincronizou, um tambor ecoando na penumbra do quarto.
— Agora você está marcada em mim, Sofie... muito além da pele — ele rosnou entre beijos, a respiração quente e descompassada.
Ela o abraçou pelo pescoço, os olhos marejados de uma alegria que doía. — Eu sou sua, Philip. Em cada momento e em cada estrada. Você é meu, inteiramente meu.
Mais uma vez, eles se entregaram ao vício mútuo, devorando-se de forma deliberada até que o mundo lá fora deixasse de existir.
Algumas horas depois, só eles dois na cama, as velas, chamas que dançavam no teto e com a chuva que caía lá fora. Philip olhou para ela
por um longo tempo antes de falar.
— Agora que estamos casados... — começou devagar, como quem saboreia a palavra — em alguns anos, podemos ter um filho, ter nossa família... meu sonho é ser pai e ter uma família.
Sofie sorriu, virou o rosto para ele, a luz das velas brincando nos seus olhos.
— Vamos nos aproveitar um pouco primeiro. Depois a gente pensa nisso. — Ele aceitou com um sorriso.
Sofie ficou olhando para as chamas depois que ele fechou os olhos e pensando sobre como ser mãe nunca havia ocupado seus sonhos, não da forma que ocupava os dele. Era uma ideia distante, sem forma definida. Sofie o amava mais que tudo, mas nunca desejou ser mãe. Mas talvez seus pensamentos mudassem ao longo dos anos, ela não sabia, então resolveu não se precipitar.