O Fogo O Cheiro da Chuva · Capítulo 10 de 15
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O Fogo

Fazia exatamente dois meses desde que o furacão chamado Philip havia entrado na vida de Sofie, transformando sua rotina morna em uma sequência de adrenalina, couro e beijos roubados. O relógio marcava o fim de seu último turno antes das férias. Ao cruzar as portas automáticas do hospital, o ar fresco de Oslo pareceu saudar sua liberdade. Sofie caminhava com um brilho no olhar que nenhum cansaço de doze horas conseguia apagar; ela finalmente teria quinze dias inteiros de férias e dez dias viajando com o amor da sua vida.

Chegando em casa, o apartamento foi tomado por uma energia vibrante. Ela não perdeu tempo: jogou as chaves na mesa e correu para o quarto. Em poucos minutos, o cenário era de uma doce antecipação. Sofie estava de meias brancas, uma camiseta larga que pertencia a Philip, que mal cobria suas coxas, e o cabelo preso em um coque bagunçado, com fios caindo sobre o rosto radiante.

Duas malas estavam escancaradas sobre a cama, e ela dobrava roupas com uma agilidade alegre, selecionando vestidos leves e sapatos para a viagem de carro que haviam planejado. Passariam por três lugares diferentes, dez dias de estradas desconhecidas e hotéis charmosos. Ela se abaixou para dobrar uma camiseta e o brilho da aliança de prata em seu dedo anelar capturou a luz. Ela parou por um segundo, sentindo o relevo dos galhos gravados no metal. Um sorriso radiante iluminou seu rosto, ela se sentia uma mulher completa.

O som da chave girando na fechadura a fez pular de alegria. — Amor! Chegou cedo! — ela exclamou, correndo para a sala com um par de shorts na mão.

Mas o sorriso de Sofie morreu no instante em que viu Philip. Ele estava parado na entrada, as mãos vazias, os ombros caídos e o rosto

pálido. Seus olhos castanhos, geralmente tão intensos, estavam vermelhos e marejados.

Doomed - Maphra. Música de fundo

— Cadê suas malas, Philip? — ela perguntou, o tom de voz caindo para um sussurro confuso. — A gente sai em duas horas.

Philip desviou o olhar, uma lágrima solitária escapando e descendo por cima de uma de suas tatuagens no rosto. — Desculpa, Sofie... — ele secou o rosto com as costas da mão, mas o choro era incontrolável. — Eu

não vou poder ir. Tudo isso aqui... tudo o que a gente viveu...

O mundo de Sofie inclinou. O par de shorts caiu de suas mãos. — O quê? Por quê? Do que você está falando? — Ela caminhou até ele, a voz subindo de tom pela agitação.

— Acabou, Sofie. Eu espero que um dia você possa me perdoar. — O que houve? Philip, fala comigo! O que está acontecendo?!

Ele tentou abraçá-la, mas Sofie recuou, empurrando o peito dele. Ela segurou os braços dele com força, as unhas cravando-se na jaqueta.

— Me fala, por favor! Por que você está terminando comigo agora? Por favor, me diga o que houve de errado? — Sofie perguntou com seus olhos marejados e lágrimas escorrendo pela sua face.

— Você não fez nada de errado. A culpa é só minha, Sofie. Inteiramente minha. — Com as mãos trêmulas, ele levou os dedos à mão esquerda. Ele puxou a aliança de prata, o símbolo do casamento deles no hotel, e a colocou sobre a mesa. O som do metal batendo na madeira pareceu um soco no estômago de Sofie, lágrimas não paravam de cair de seus olhos arregalados.

— Espero que um dia você possa entender.

— Entender o quê?! — Sofie gritou, o peito subindo e descendo, as lágrimas começando a borrar sua visão.

Philip abraçou Sofie de novo e ela se debateu para sair daqueles braços, ele a segurou com força, ignorando os protestos dela, e a envolveu em um abraço ainda mais desesperado. — Eu vou ser pai, Sofie. Ela está de dois meses.

Sofie parou de respirar. Ela começou a se bater contra o peito dele, tentando se desvencilhar daquela verdade que parecia um ácido em seus ouvidos. Philip a segurou ainda mais forte, ancorando-a enquanto o mundo dela desmoronava. Lentamente, as forças de Sofie se esvaíram. Suas pernas fraquejaram e os dois deslizaram pelo chão, ficando de joelhos no tapete da sala. Sofie soluçava de forma agoniada, com o rosto escondido no ombro de Philip, molhando a jaqueta dele com as lágrimas de um sonho destruído.

— Meu sonho é ter uma família... e o mais certo é eu estar com ela agora. Não espero que você entenda isso agora, eu sei que dói — ele sussurrou, também chorando, o peso da culpa esmagando sua voz.

Sofie se afastou devagar. O olhar que antes era de adoração agora era de pura devastação e desprezo. Com toda a força que lhe restava, ela desferiu um tapa no rosto de Philip, mas ele nem sequer piscou.

— Saia daqui. Agora — ela ordenou, com a voz controlada, enxugando as lágrimas com as mãos.

Philip levantou-se em silêncio. Ele lançou um último olhar para a mulher que dizia amar, para as malas abertas no quarto e para a aliança solitária na mesa. Sem dizer mais nada, ele atravessou a porta e saiu. E, desta vez, o som da moto partindo não foi um até breve, foi o ruído de um coração sendo estraçalhado. Sofie ficou caída no chão da sala, ela chorou até que sua garganta doesse, até que não restassem mais lágrimas. Um tempo depois, após tanto chorar, ela foi até a cozinha, pegou uma garrafa de vinho e voltou para o sofá. Sentada ali, com a maquiagem totalmente borrada, os olhos inchados e vermelhos e as meias brancas que ele tanto gostava, ela virou o gargalo.

O vinho tinha gosto amargo do amor que sobra quando o outro vai embora, deixando seu coração estilhaçado. Sofie permitiu-se afundar naquela dor, bebendo e chorando tudo o que tinha para chorar, enquanto as malas feitas no quarto permaneciam como túmulos de uma vida que nunca chegaria a acontecer.

A fumaça do que fomos ainda arde nos meus pulmões. Eu sabia, desde o primeiro momento, que Philip não era um porto seguro; ele era um incêndio florestal. E eu, em toda a minha lucidez de médica e mulher, escolhi não correr.

Eu desejava o calor, desejava a combustão, queria que as chamas dele consumissem cada parte da minha vida monótona até que não sobrasse nada além de nós dois, fundidos em brasas.

Mas Philip soltou minha mão, deu um passo para trás, saindo do círculo de labaredas que havíamos criado, e me deixou lá, no centro exato do inferno. Ele partiu em busca da "família" que tanto sonhou, buscando a água e a calma em outro ventre, enquanto eu permanecia em combustão espontânea.

Ele partiu sem hesitação. Não houve um último olhar de

dúvida ou um rastro de arrependimento que o fizesse hesitar.

Philip simplesmente me entregou ao incêndio e fechou a porta

por fora, permitindo que eu me queimasse por completo e

sozinha.

Ele me empurrou para o fundo da cova que eu mesma ajudei a cavar. Enquanto ele caminha para a luz, eu sinto o peso da terra caindo sobre o meu corpo em chamas.

Sentada no sofá, o vinho descia como álcool jogado na ferida. O apartamento agora era apenas uma caixa de fósforos riscada. Sofie olhou para a aliança de prata sobre a mesa, olhou para o anel dela em sua

mão, o tirou e jogou longe.

Ela ainda chorava de soluçar, caminhou até o quarto, olhou para as malas abertas no quarto e sentiu o peso de cada promessa feita em hotéis de

beira de estrada. Cada "eu te amo” murmurado no escuro agora era uma labareda que lambia sua dignidade. Ela ficou parada ali, com a

maquiagem escorrendo pelo rosto e a camiseta de Philip. Ela percebeu a extensão da sua ruína.

Ele a levou para o topo da montanha apenas para soltá-la no abismo.

— Você me deixou queimar, Philip — ela sussurrou, chorando para o vazio. — Você fez eu me apaixonar por você, apenas para me deixar.

Ela fechou os olhos, mas não havia alívio. No escuro de suas pálpebras, ela só via o fogo. Sofie estava sendo reduzida a cinzas e Philip já estava longe, construindo um lar sobre os escombros do coração dela. Sofie adormeceu de tanto chorar.

O despertar foi a parte mais cruel. Por um segundo, o cérebro de Sofie buscou o conforto da rotina dos últimos dois meses, mas o peso nas pálpebras a trouxe de volta à realidade. No espelho do banheiro, o reflexo era de uma estranha: os olhos estavam tão inchados que eram apenas frestas de dor, a pele pálida e manchada pelo choro compulsivo da noite anterior. Ela caminhou lentamente até a cozinha, o som da cafeteira era o único sinal de vida no apartamento. Enquanto o café passava, o aroma atingiu suas narinas e, com ele, veio a lembrança sensorial de Philip cozinhando ovos e café forte naquela mesma bancada.

Foi quando ela percebeu: ainda carregava o peso dele sobre o corpo. A camiseta larga, o tecido que antes era um abraço, agora parecia sufocá-la. Com um gesto brusco e carregado de repulsa, Sofie arrancou a peça, ficando apenas de top e calcinha. Sem hesitar, jogou a camiseta no lixo, como se pudesse descartar o amor dele com o algodão. Mas o gesto não trouxe alívio, apenas mais dor. O choro voltou, impiedoso, fazendo-a

dobrar as pernas e voltar para a cama.

O bipe da cafeteira anunciou que o café estava pronto, mas a vontade de viver era nula. Ela desligou a máquina e voltou para os lençóis que ainda

tinham o rastro dele. Foi então que a mão, agindo por um impulso autodestrutivo que ela não conseguiu frear, buscou o celular. O sexto sentido gritava para ela parar, mas a obsessão de quem perdeu o chão falou mais alto. Ela entrou no perfil dele, o coração batendo como um animal encurralado. E ali, o golpe de misericórdia foi desferido.

Era um vídeo curto, esteticamente impecável, como tudo o que Philip fazia. Nele, a luz dourada do entardecer brilhava sobre o metal cromado das duas Harleys. De costas, Philip e a esposa vestiam suas jaquetas de couro em sincronia, coreografada. O mundo de Sofie parou quando as letras brancas surgiram no couro preto: "Vou ser mãe” nas costas dela; "Vou ser pai” nas dele. Em seguida, deram a partida e o rugido dos motores, o mesmo som que antes fazia o corpo de Sofie vibrar, agora soava como o bater de uma tampa de caixão.

A trilha sonora era uma melodia alegre, o tipo de música que se usa para anunciar começos felizes, ignorando o fato de que, para aquele começo existir, ele precisou incinerar tudo o que tinha com ela. O vídeo não mostrava apenas uma gravidez; mostrava uma vida da qual Sofie foi banida. Mostrava o sorriso dele que, há menos de quarenta e oito horas, era dela. Ver Philip acelerar para longe, levando consigo o futuro sem ela, foi sentir a terra daquela cova sendo finalmente compactada sobre sua cabeça. Aquilo foi o tiro final dele para terminar de devastá-la. O celular escorregou de sua mão e caiu sobre o colchão. Sofie não gritou... houve apenas o desabamento total. Ela se encolheu na cama, sentindo o vazio absoluto de quem foi apagada de uma história que mal teve tempo de escrever. Ali, em meio ao silêncio do seu quarto e ao brilho azul da tela do celular, Sofie permitiu que a última fagulha de esperança se apagasse, deixando-se ficar exatamente onde a dor a queria: no chão do próprio abismo.

O apartamento, que antes transbordava a luz dourada da expectativa, agora estava mergulhado em uma penumbra de tristeza. Sofie não sabia

se eram duas da tarde ou sete da noite; o tempo havia se tornado uma massa disforme de dor.

O som das batidas na porta cortou o seu choro com um grande susto. Por um segundo, o coração dela, estúpido e esperançoso, deu um solavanco.

Ele viu que cometeu um erro. Ele voltou.

Ela correu até a porta, o tropeço das meias brancas no piso de madeira denunciando sua pressa. Mas, ao olhar pelo olho mágico, a silhueta não era a jaqueta jeans preta. Era Alana. O ar saiu dos pulmões de Sofie em

um suspiro murcho.

— Oi, Alana — Sofie disse ao abrir, a voz áspera, esticando o braço em um convite para que a amiga entrasse. Alana entrou, o olhar varrendo o rosto devastado da amiga, os olhos que mal se abriam de tão inchados.

— Oi, Sof. Eu vi o vídeo dele... e tive que vir ver como você estava.

— Eu não liguei porque fiquei aqui no escuro... chorando. Com vergonha — Sofie admitiu, desviando o olhar. — Porque, no fundo, a gente sabia que isso aconteceria. Era bom demais para ser verdade.

— Não precisa se justificar — Alana interrompeu com firmeza, mas com uma doçura. — Você fez o que achou que tinha que fazer. Aproveitou algo que nunca teve, algo que a fez se sentir viva. Eu não estou aqui para te julgar, Sofie. Estou aqui como sua amiga.

Os olhos de Sofie marejaram instantaneamente. Transbordando de novo. — Estou arrasada, Alana. Triste demais para aproveitar as férias... triste demais para comer, para tomar banho, para escovar os dentes. Triste demais para tudo.

Alana não disse mais nada; apenas a envolveu em um abraço apertado, permitindo que Sofie soluçasse contra seu ombro. — Tudo bem, pode chorar. Eu estou aqui. Mas agora... banho e dentes. Você está cheirando a bebida e a tristeza. Eu vou pedir algo para a gente comer e vamos beber outra coisa que não seja esse vinho barato.

Enquanto o som da água caindo no banheiro preenchia o corredor, Alana entrou em modo de operação. Ela viu o anel de prata sobre a mesa e o guardou em uma gaveta do escritório, junto com o quadro que ele pintou. No quarto, ela fechou as malas que eram monumentos ao fracasso, deixando as roupas empilhadas no puff para que o ambiente voltasse a ter a cara de Sofie, e não a de uma fuga planejada.

Sofie saiu do banho envolta em vapor, a pele avermelhada pela água quente. — Deixei seu conjunto de moletom preto separado ali — apontou Alana.

— Obrigada. Você é demais — Sofie vestiu a blusa, sentindo o conforto do tecido limpo, e depois a calça.

— Se sente melhor? — Alana perguntou enquanto terminava de pendurar algumas roupas no cabide.

— Melhor — Sofie respondeu, sentando-se para pentear o cabelo ainda úmido. — Obrigada por me obrigar a tomar banho.

— E vou te obrigar a comer também. São suas férias, e você não vai desperdiçá-las chorando por ele ou por ninguém.

Quando a entrega chegou, elas espalharam os potes de comida chinesa na mesa da sala, o cheiro de gengibre, shoyu e óleo de gergelim exalava no ar. Alana ligou a TV em um canal local, apenas para que o som de vozes estranhas trouxesse uma sensação de normalidade ao apartamento. Sofie manuseava os hashis com uma lentidão melancólica, mas o sabor do yakisoba parecia aos poucos despertar seus sentidos.

— Ele postou aquele vídeo com uma trilha sonora de comédia romântica, Alana — Sofie comentou, a voz mais estável, embora amarga. — Como se os últimos dois meses tivessem sido um rascunho que ele simplesmente apagou.

— Redes sociais são vitrines de mentiras, Sofie. Ele está tentando se convencer de que fez a escolha certa — Alana respondeu, servindo um pouco de chá gelado para ambas. — Mas a gente sabe que esse fogo que vocês tinham não se apaga com um post no Instagram.

Elas conversaram sobre o hospital, sobre Arne e sobre os planos. A conversa fluía, servindo como um curativo improvisado. Entre uma garfada e outra, o ambiente deixava de ser um cenário de crime emocional para voltar a ser apenas a sala de duas amigas. O peso no peito de Sofie ainda estava lá. A luz da TV projetava sombras trêmulas nas paredes da sala, enquanto o vapor dos potes de comida chinesa ainda subia. Sofie estava sentada de frente para a amiga, mordendo um rolinho primavera. A presença de Alana ali, com sua franqueza habitual e seu jeito prático de cuidar, era a única coisa que impedia as paredes de se fecharem sobre ela.

Alana limpou o canto da boca com um guardanapo e inclinou-se um pouco mais para perto, o olhar brilhando com aquele tom de confidência. — Amiga, eu não te contei antes, mas deixa eu te soltar uma fofoca... — Alana começou, baixando o tom de voz. — Lembra daquela noite no bar, que saí com o Arne e o Noah? O Noah estava lá, arrasado. E aí, do nada, ele foi falar com uma mulher. Mas, Sof... ela era a sua cópia. Exatamente igual a você.

Sofie parou o hashi no meio do caminho, um pedaço de brócolis suspenso. Ela piscou, processando a informação. — Ele foi em alguém parecida comigo? Sério? — perguntou, tomando um gole longo de chá gelado para desentalar a surpresa. Um rastro de culpa, misturado a uma estranha melancolia, passou por seu rosto. — Sinto muito por ele. Mas também não o julgo. De verdade, espero que ele esteja bem... e feliz.

Ela suspirou, deixando os ombros relaxarem contra o encosto da cadeira. — Como você disse, Alana... eu fiz minha escolha. Fiz sabendo do perigo. Naquele momento, era o que eu precisava para me sentir viva. Eu só desejo que ele encontre o caminho dele também.

Alana deu um gole em seu chá, assentindo.

— Eu e o Arne não o vimos mais este mês, então não sei se ele ainda

está com a sua "sombra". Mas a gente comentou na hora... parecia

aquele episódio de Friends, sabe? Quando a Rachel termina

Ross, mas ainda gosta dele, e começa a sair com o Russ, o cara que

é a cópia cuspida e escarrada do Ross.

As duas se entreolharam, soltaram uma risada genuína.

— Eu adorava essa série! — Sofie riu, balançando a cabeça. — E o pior

de tudo é que eu tinha um crush enorme no Ross quando era

nova. Um nerd, paleontólogo, todo certinho... e olha para mim agora.

Estou aqui, com o coração em frangalhos, chorando por um

motociclista tatuado, barbudo e com aquele olhar de "vilão de filme”.

— O seu gosto evoluiu para o perigo, amiga. O problema é que o

perigo cobra a conta — Alana brincou, pegando mais um pouco de

frango xadrez.

O peso da tragédia com Philip não desapareceu, mas ficou mais

suportável sob a luz daquela conversa. Elas continuaram comendo,

trocando memórias de séries antigas, fofocas, ex-namorados e

personagens de ficção. Sofie, embora estivesse em ruínas depois de

praticamente dois dias chorando sem parar, ainda tinha momentos em

que ela podia simplesmente respirar. O clima na sala tinha mudado.

menção a Friends e as risadas bobas trouxeram uma cor que Sofie achou

que não veria tão cedo.

— Me diga, o que vai fazer com todos esses dias de férias? — Alana perguntou, observando a amiga.

— Não sei ainda — Sofie respondeu, enquanto o recheio de um rolinho primavera ameaçava cair do palito. Sem cerimônia, ela o pegou com a mão, deu uma mordida e sorriu de lado. — Realmente não sei.

— Vou pensar em algumas coisas e te dar umas dicas — Alana piscou, mas foi interrompida pela vibração do celular sobre a mesa.

Ela leu a mensagem de Arne em silêncio:

“À noite vamos sair? O Noah está pensando em chamar a Maya, e não queremos ficar só em três. Está livre?”

Alana bloqueou a tela rapidamente, a mente trabalhando rápido. Olhou para Sofie, que ainda mastigava devagar.

— Quem é? — perguntou Sofie, curiosa.

— Mensagem da minha mãe, perguntando se amanhã vou jantar com ela — mentiu Alana, com uma naturalidade invejável.

— Pergunta a ela se posso ir junto? — Sofie comentou, voltando os olhos para a TV, prestando atenção na previsão do tempo.

Aproveitando o desvio de atenção, Alana digitou furiosamente para Arne: "Estou na Sofie. Venham para cá. Digam que foram à minha casa, eu não estava e vocês deduziram que eu estaria aqui. Não digam que eu convidei! E diga para o Noah não trazer a 'Russ' dele. Venham sozinhos.”

Arne respondeu segundos depois:

"Certo, baby. Estamos indo. Levamos cerveja?"

"Com certeza”,

Alana finalizou, guardando o aparelho.

As duas decidiram deixar a TV de lado. Alana sugeriu uma playlist de música suave e trocaram o chá por taças de vinho. Estavam relaxadas no sofá quando o ronco de motores ecoou lá embaixo, no pátio do prédio. Sofie parou a taça a caminho da boca. O som de motos era um gatilho doloroso, mas Alana agiu rápido. Correu até a janela com a maior cara de pau do mundo.

— É o Arne! Aposto que ele foi lá em casa, não me achou e veio atrás de mim. — Ela se virou para Sofie, fingindo surpresa. — Ele pode subir?

O pânico e a vaidade lutaram no rosto de Sofie. — Eu vou me maquiar! — exclamou ela, levantando-se num salto. — Pode subir, mas não quero que ele me veja assim e conte tudo para o Noah.

— Sobre isso... o Noah está com ele — Alana disse com um sorriso sem graça. — Eles sobem, dão um oi e eu vou embora com eles depois, se ficar ruim para você?

— Não! Não quero ficar sozinha hoje. Deixa eles entrarem — Sofie correu para o banheiro. A reação dela foi mais calma do que Alana esperava.

Em tempo recorde, aplicou um corretivo estratégico para esconder as olheiras de choro, blush, um rímel leve e um perfume de baunilha que era sua marca registrada. Quando voltou para a sala, eles estavam entrando. Arne entrou primeiro, cumprimentando Sofie com um beijo carinhoso no rosto. Noah, no entanto, parecia um homem novo. Ele ainda não sabia nada da vida de Sofie. Arne e Alana decidiram não contar nada.

O cabelo estava com um corte mais curto e moderno, a barba perfeitamente desenhada destacava seu maxilar, e ele vestia uma jaqueta e uma calça escura impecável. Ao entrar, ele seguiu o costume nórdico e tirou as botas, ficando apenas de meias brancas. Noah ficou parado por um momento, as duas caixas de cerveja pesando em suas mãos, incerto se devia avançar. Alana, percebendo o impasse, pegou as caixas rapidamente.

— Pode dar oi para ela, Noah. Ela não morde — provocou Alana, levando as bebidas para a cozinha.

Noah caminhou até Sofie. O cheiro dele, algo cítrico e limpo, sem o rastro de tabaco a que ela se acostumou recentemente. Ele a envolveu em um abraço longo e protetor. — Que bom te ver, Sof — ele sussurrou perto do ouvido dela.

— Bom ver você também, Noah — ela respondeu, retribuindo o abraço com uma força que nem ela sabia que ainda tinha. O peito dele era largo e seguro, um contraste com o caos que ela sentia por dentro.

Na cozinha, Alana trocou um olhar vitorioso e malicioso com Arne. O plano do "acaso" estava funcionando melhor do que qualquer roteiro de série. Todos se acomodaram: Arne e Alana dividiam o sofá em meio a sussurros e risadinhas apaixonadas, enquanto Noah ocupava a poltrona ao lado de Sofie.

Ele estendeu uma lata de cerveja gelada para ela e abriu a sua própria, o som do metal abrindo pontuou o início de uma trégua na tristeza de Sofie. Noah quebrou o gelo, levantando a latinha num brinde. Sofie correspondeu, batendo sua lata na dele.

— Você está bem? — Noah perguntou, o tom de voz carregado de

gentileza.

— Estou bem... estou de férias agora — Sofie respondeu, tentando forçar uma leveza que começava a parecer menos fingida. — E você, como está?

— Estou bem também. Suas férias começaram quando? — Hoje mesmo — ela sorriu, dando um gole generoso na cerveja.

Alana, que não perdia uma oportunidade de arquitetar o destino, interveio rapidamente. — Ela não sabe o que fazer nem para onde ir. Podíamos ajudá-la a decidir, o que acham? — Alana deu uma piscadela rápida para ele, garantindo que Sofie, distraída com a bebida, não percebesse.

Sofie cruzou as pernas no sofá, relaxando um pouco mais. Ao descer a lata, um rastro de espuma ficou nos seus lábios. Antes que ela pudesse limpar, Noah inclinou-se com um movimento ágil e limpou a marca com o polegar. O toque foi rápido. Sofie sorriu, sentindo o rosto esquentar.

— Desculpa... força do hábito — Noah murmurou, voltando para o encosto da poltrona.

— Tudo bem — ela respondeu, a vergonha pintando suas bochechas de um rosa suave.

— Então, qual é a primeira ideia de viagem? — Arne perguntou, mudando de assunto para salvar o amigo do constrangimento.

— Você tem quantos dias? — perguntou Noah.

— Quero viajar pelo menos por uns dez dias — explicou Sofie.

Alana, jogando a cartada final, soltou: — Noah, você não vai para a Escócia passar uns dias? Sof, não era seu sonho conhecer a Escócia?

Sofie sentiu o peso da armação no ar, mas a ideia de sair de Oslo, de se afastar das ruas que cheiravam a Philip e arrependimento, pareceu subitamente irresistível. Ela decidiu entrar no jogo. — Sério? Quando você vai, Noah? — perguntou, os olhos brilhando com uma curiosidade genuína.

— Vou em dois dias. Vou visitar meus pais, eles são escoceses.

— Ah, que legal! Eu não sabia que você era escocês. — Sofie riu, a primeira risada leve da noite. — Vai usar aquela saia?

— Isso é uma ofensa lá, não se chama saia! É um kilt. — Ele a corrigiu, rindo junto, o semblante muito mais iluminado do que na noite do bar.

— Eu só vou se prometer usar uma, ela disse, sorrindo para ele.

— Eu prometo que vou usar Sof. — Ele sorri, bebendo o último gole de cerveja da sua lata, levantando-se para pegar outra na geladeira.

— Então eu vou... pega mais uma para mim, por favor. Sof pede, girando o corpo no sofá, olhando para a cozinha enquanto ele abre a geladeira.

— Pega seu celular, Sof — Alana incentivou, animada. — Vê se tem voos disponíveis. Talvez eu vá com o Arne também para passar um final

de semana. Também não conheço, vou ver se consigo folga e

encontramos vocês lá!

— Seria muito bom estarmos todos juntos de novo — Arne concordou, abraçando Alana de lado.

Sofie sentiu uma onda de ânimo percorrer seu corpo. O futuro não parecia uma estrada solitária ou um incêndio inevitável, mas sim uma paisagem verde e enevoada, cheia de castelos e, quem sabe, uma nova chance de respirar sem sentir o peso de uma obsessão. Antes de comprar

as passagens.

Sofie se levantou e buscou na cozinha o que restou do jantar chinês, além de alguns pacotes de salgadinhos que estavam guardados no fundo da despensa. Ela e Alana espalharam tudo na mesa de centro, entre latas de cerveja e garrafas de vinho, criando um banquete improvisado que convidava ao relaxamento. Enquanto os minutos passavam, a ideia da Escócia deixava de ser um plano vago para se tornar um projeto real. Arne, empolgado com a animação de Alana, pegou o notebook de Sofie e, entre um gole e outro, anunciou: — É oficial! Comprei as nossas passagens para o final de semana. Vamos invadir a terra dos pais do Noah!

As risadas explodiram na sala e brindaram com latas de cerveja. Noah, sentindo-se o anfitrião honorário, começou a listar os pontos turísticos com paixão. — Vocês precisam ver a Ilha de Skye — dizia ele, gesticulando com um pedaço de rolinho primavera na mão. — As névoas descendo sobre as montanhas... parece algo saído de um filme épico. E as destilarias nas Highlands? O uísque de lá faz qualquer um esquecer de como chegou e como vai embora.

— Eu quero esse uísque, quero ver os castelos — comentou Sofie, os olhos brilhando depois de tanto chorar. — Quero me perder naquelas ruínas de pedra e fingir que estou em outro século.

— E eu quero ver o Arne de kilt! — Alana exclamou, batendo palmas e rindo da cara do namorado. — Arne, se você não usar aquela "saia" xadrez e fizer uma pose de guerreiro escocês, eu nem entro no avião.

— Eu vou usar! — Arne rebateu, entrando na brincadeira. — Mas com uma condição: vamos usar com uma cueca por baixo. Vamos precisar filmar cada segundo desse momento.

Noah riu, balançando a cabeça. — Não se preocupem, eu cuido da logística dos kilts. Mas preparem o fígado, porque meu pai não

deixa ninguém sair da mesa sem provar o estoque particular dele.

A conversa fluía com uma leveza curativa. Sofie percebeu que, por horas, não tinha pensado no vídeo de Philip ou no cheiro de fumaça de sua vida.

O ambiente estava impregnado com o som de gargalhadas, o barulho de pacotes de salgadinhos e o calor humano de amigos que se recusavam a deixá-la afundar. Ali, sentada do lado da poltrona de Noah, no mesmo

sofá onde o casal se abraçava, Sofie sentiu que o "fogo" que a consumia

estava finalmente sendo substituído por uma brisa fresca vinda das montanhas escocesas. Ela deu mais um gole na cerveja, olhou para Noah,

que a observava com um sorriso discreto e acolhedor. A madrugada já se

estendia lá fora, e o relógio na parede marcava duas da manhã quando o

cansaço e o álcool finalmente cobraram o preço. O clima de euforia tinha

dado lugar a uma moleza confortável. — Já está tarde, temos que ir

embora, — disse Arne com a voz mole.

— Não, nada disso. Ninguém vai embora agora — decretou Sofie, levantando-se com um pouco de tontura, mas decidida. — Ninguém vai pilotar moto bêbado. Alana e Arne, vocês ficam no quarto de visitas. Noah, você pode escolher entre o sofá ou o colchão de ar.

— Por mim, o sofá está ótimo — Noah respondeu, a voz arrastada pelo álcool, mas com um sorriso grato.

— Amanhã eu preparo um café da manhã digno para nós... se eu conseguir acordar, claro — Sofie brincou, arrancando risadas gerais enquanto todos concordavam, rendidos pela exaustão.

— Obrigado por nos deixar ficar, Sof — disse Noah, enquanto a ajudava a organizar o espaço.

Alana e Arne desapareceram para o quarto de visitas num piscar de olhos. Sofie foi até o seu quarto, pegou travesseiros extras e uma manta macia. Juntos, ela e Noah puxaram o mecanismo do sofá da sala, transformando-o em uma cama larga e convidativa. O ambiente estava imerso em uma luz baixa, e o silêncio da madrugada trazia uma intimidade pacífica.

— Durma bem, Noah — ela sussurrou, entregando o travesseiro.

— Você também, Sof — ele respondeu suavemente, aproximando-se e dando um beijo carinhoso na testa dela, um gesto que aqueceu o coração de Sofie de uma forma que o álcool não conseguiu.

O dia seguinte começou com uma insistente ressaca batendo à porta. Sofie acordou com a cabeça latejando levemente, mas foi o aroma inconfundível de café fresco que a fez finalmente abrir os olhos.

Ela tomou uma ducha rápida e quente para despertar os sentidos, vestiu uma calça de moletom confortável e uma regata básica, seguiu o perfume que vinha da cozinha. Lá estava Noah, de costas, concentrado diante do fogão. Ele ainda tinha o rosto ligeiramente inchado de sono e o cabelo bagunçado, o que lhe dava um ar estranhamente doméstico e sexy.

Sofie aproximou-se sem dizer nada e o envolveu em um abraço rápido por trás, encostando o rosto em suas costas. — Bom dia, Noah... — ela murmurou, a voz ainda rouca de sono, dando um forte abraço em seu corpo grande e alto.

— Bom dia, dorminhoca — ele respondeu. Ele se virou, pegou uma xícara e serve café para ela.

Pouco depois, Alana e Arne surgiram do corredor, ambos com aquela expressão clássica de quem exagerou na diversão, esfregando os olhos e buscando a cafeína como se fosse um elixir mágico. Noah havia preparado um banquete de sobrevivência: ovos mexidos cremosos, torradas douradas e muito café. Os quatro se acomodaram ao redor da mesa redonda da cozinha. O sol da manhã iluminava os pratos e as xícaras, enquanto o som dos talheres batendo na louça se misturava a conversas baixas. Naquela mesa, a dor dos dias anteriores parecia ter sido deixada em algum canto escuro da sala, substituída pelo conforto de estar entre pessoas que sabiam exatamente como cuidar dela, sem precisar dizer uma única palavra.

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