Escócia
O aeroporto de Oslo-Gardermoen estava movimentado, com um fluxo constante de viajantes e o som ambiente de anúncios e rodinhas de malas deslizando pelo piso polido. Mas no portão de embarque para Edimburgo,
o clima era de pura eletricidade concentrada em um pequeno grupo.
Sofie e Alana, vestindo conjuntos de moletom coordenados e confortáveis
para o voo, não conseguiam conter a energia. Elas davam pulinhos e
gritinhos abafados, abraçadas, ignorando os olhares curiosos.
— Escócia, amiga! Consegue acreditar? — Alana exclamou, os olhos brilhando com uma intensidade que parecia iluminar o terminal. — Tá feliz?
Sofie respirou fundo, olhou para Alana e depois para Arne, que observava as duas com um sorriso de canto de boca, encostado em uma coluna.
— Estou feliz, Alana. De verdade — respondeu Sofie, e seu sorriso, embora ainda carregasse a sombra das olheiras que a maquiagem cobria, era o mais honesto e leve que ela dava em dias. — Estou com vocês, e vamos para a Escócia. É tudo o que importa agora.
— Isso aí! — Arne interveio, aproximando-se e passando o braço pelos ombros de Alana. — O plano "Operação Resgate das Férias da Sof” está oficialmente em andamento. Próxima parada: Terras Altas!
Alana soltou um gritinho de empolgação e pegou o celular, estendendo-o para Arne. — Amor, tira uma foto nossa antes de embarcar! — ela pediu, ajeitando o cabelo rapidinho e puxando Sofie para perto. — Uma foto de "antes da Escócia".
Arne pegou o aparelho, afastou-se um pouco, agachou levemente para pegar o ângulo certo e começou a clicar. — Vai, faz pose de quem vai ver castelos! — ele instruiu, rindo.
As duas posaram, rindo espontaneamente enquanto Alana fazia biquinho e Sofie abraçava a amiga de lado. — Mais uma, de outro ângulo! — Alana pediu, mudando de posição. Arne tirou mais algumas fotos antes de Alana pegar o celular de volta e verificar os resultados.
— Ficaram ótimas! Mas falta a nossa — disse ela, esticando o braço para uma selfie.
Os três se amontoaram na tela do celular. Alana no centro, Sofie de um
lado e Arne do outro, fazendo uma careta engraçada atrás delas. O clique capturou três sorrisos.
— Perfeita! — Alana comemorou, guardando o celular na bolsa transversal. Nesse momento, o alto-falante anunciou o início do embarque para o voo de Edimburgo.
— Vamos nessa, meninas — disse Arne, pegando sua mala de mão e a de Alana. — A Escócia nos espera.
— E o Noah também — disse Alana, sorrindo.
O voo de Oslo para Edimburgo durou cerca de duas horas, um tempo que Sofie passou observando as nuvens e sentindo o peso no peito diminuir a cada quilômetro que a afastava da Noruega.
Quando o avião tocou o solo escocês e eles cruzaram o portão de desembarque do Aeroporto de Edimburgo, Noah já estava lá, esperando-os, o corpo alto e forte relaxado, parecendo um local com uma jaqueta jeans marrom e surrada pelo tempo, calças jeans escuras e botas. O cabelo loiro bem alinhado, a barba bem desenhada e um sorriso que iluminou o saguão. Arne foi o primeiro a chegar, e os dois se cumprimentaram com aquele abraço forte de homens, pontuado por tapas sonoros nas costas. Noah abraçou Alana rapidamente e, então, voltou-se para Sofie. O abraço dele foi diferente: mais apertado, mais demorado, o tipo de abraço que dizia "eu senti sua falta” sem precisar falar.
— Posso? — ele perguntou, estendendo a mão para a bolsa de viagem de Sofie.
— Claro, pode sim — ela sorriu, sentindo uma leveza reconfortante.
Eles seguiram para o carro, um jeep robusto antigo. Assim que Noah deu a partida, os acordes potentes de Alive, do P.O.D., preencheram o veículo. Arne e Alana iam atrás, de mãos dadas, enquanto Sofie olhava pela janela, vendo a paisagem mudar de prédios históricos para colinas de um
verde impossível, cobertas por uma névoa que abraçava a terra.
A cidadezinha era um vilarejo saído de um conto de fadas, com ruas de paralelepípedos e casas de pedra cinzenta com telhados pontiagudos. A casa dos pais de Noah ficava um pouco mais afastada, cercada por
muros baixos de pedra e um jardim imenso. Assim que estacionaram, dois
Border Collies vieram correndo, latindo com alegria e rodeando as pernas
de todos.
— Esses são Angus e Bonnie! — Noah apresentou, rindo enquanto os cães pulavam. Sofie agachou-se imediatamente, deixando que Bonnie lambesse seu rosto enquanto fazia carinho atrás das orelhas peludas dos animais. Na porta da casa, um casal de idosos com rostos radiantes e bochechas rosadas os aguardava. Malcolm e Elspeth. O sotaque escocês deles era carregado e musical, um som que exigia atenção, mas transbordava hospitalidade.
— Come in, come in! You must be famished! (Entrem, entrem! Devem estar famintos!) — exclamou Elspeth, abraçando cada um deles como se fossem filhos que voltavam para casa.
A mesa estava posta na cozinha, um ambiente rústico com um fogão a lenha antigo e janelas que davam para os campos. O "chá da tarde” era, na verdade, um banquete. Havia scones quentinhos servidos com nata batida e geleia de frutas vermelhas, shortbread amanteigado que derretia na boca e o tradicional Dundee Cake, um bolo de frutas rico decorado com amêndoas. Eles se sentaram à mesa redonda de madeira pesada. Malcolm servia o chá com mãos firmes e calejadas, enquanto contava histórias sobre a juventude de Noah naquelas terras, seu sotaque fazendo Sofie rir mesmo quando não entendia algumas palavras.
— Noah sempre falou muito de você, Sofie — Elspeth disse, inclinando-se para frente com um olhar doce, enquanto servia mais nata no prato
Sofie sentiu o rosto esquentar e olhou para Noah, que estava concentrado em sua xícara de chá, mas com um sorriso de canto de boca que o traía.
O ambiente era tranquilo, não havia o desejo doentio ou o peso da decepção.
Havia apenas o som da chuva fina começando a bater no vidro, o calor do chá, o latido ocasional de Angus debaixo da mesa e a sensação de que, finalmente, ela estava em um lugar onde o fogo não podia alcançá-la.
Noah olhou para Sofie por cima da xícara e piscou.
O tilintar das colheres de prata nas xícaras de porcelana criava uma
melodia doméstica e acolhedora, e pelo som da chuva que agora batia
com mais força contra as vidraças de madeira. Na mesa, o banquete
escocês ia desaparecendo entre garfadas e risadas.
— Ah, é? Ele falou bem de mim? — Sofie perguntou, inclinando levemente a cabeça, os olhos brilhando com uma ponta de diversão enquanto observava Noah de soslaio.
— Ah, sim! Falou muito bem — Elspeth respondeu prontamente, espalhando uma camada generosa de nata em um scone ainda fumegante. — Disse que você é uma médica brilhante, mas que trabalha demais. Quase não dorme, não é, querida?
Noah limpou a boca com um guardanapo de pano xadrez, tentando manter a compostura enquanto o pai, Malcolm, soltava uma risada rouca e grave.
— Ele disse que você precisava vir para cá, conhecer a paz e descansar um pouco do hospital — Malcolm completou, dando um gole longo em seu chá preto bem forte. — Ficamos muito felizes de receber vocês aqui. Este ar das Highlands cura qualquer cansaço.
— Obrigada, vocês são muito gentis — Sofie disse, sentindo uma gratidão aquecer seu peito. Ela pegou um pedaço de shortbread amanteigado, sentindo-o derreter na boca. — Eu e minha amiga somos médicas e estávamos mesmo precisando desligar. Ficamos felizes por nos receberem, ainda mais com esse banquete maravilhoso.
Alana, que estava ocupada devorando uma fatia do bolo Dundee, sorriu com as bochechas levemente cheias e acenou positivamente. — Está tudo divino, Sra. Elspeth. Acho que não vou querer ir embora nunca mais!
— Pois podem vir sempre para cá! — a mãe de Noah exclamou, os olhos azuis brilhando por trás dos óculos. — Temos muito espaço, três quartos de visita prontinhos. Aqui é o lugar ideal para descansar e desligar a mente de toda essa correria do mundo.
Noah olhou para Sofie por cima da xícara mais uma vez, um olhar que parecia dizer: “Eu te avisei que eles iam te adotar”. Ele esticou a perna por baixo da mesa, tocando de leve o pé de Sofie com o seu, um gesto simples que a fez sorrir sem jeito, escondendo o rosto atrás da xícara de chá. Após o chá, o cansaço da viagem começou a pesar. Noah ajudou a carregar as malas escada acima pelo corredor de madeira que rangia levemente.
— Alana e Arne, vocês ficam no quarto do final do corredor, é o mais espaçoso — explicou Noah, abrindo a porta para o casal. — Sofie, o seu é o do meio. É o mais silencioso, ótimo para quem quer recuperar horas de sono.
Assim que as malas foram colocadas para dentro, Alana trocou um olhar rápido com Arne.
Ela já estava com sua jaqueta de volta nos ombros.
— Gente, a conversa estava ótima, mas eu e o Arne decidimos dar uma volta sozinhos para explorar o vilarejo e... bom, namorar um pouquinho sob a garoa escocesa — Alana disse com uma piscadela maliciosa.
— Já? Vocês acabaram de chegar — Noah comentou, rindo da pressa dos dois.
— O amor não espera, cara! — Arne brincou, dando um tapa no ombro de Noah. — Vejo vocês no jantar. Juízo, crianças!
Os dois desceram as escadas apressados, deixando um rastro de risadas
e o som da porta da frente batendo suavemente. Sofie ficou parada no corredor, segurando a alça de sua bolsa, olhando para Noah.
— Ficamos só nós — disse Noah, a voz soando mais profunda no corredor estreito. — Quer ajuda para desfazer a mala ou prefere desmaiar na cama por uma hora?
— Pode me ajudar, sim. — respondeu Sofie, sentindo o peso da viagem finalmente se transformar em relaxamento. — Aí eu durmo um pouco, aproveito esse silêncio maravilhoso e depois podemos andar por aí antes do jantar. O que acha?
— Como quiser, Sofie — Noah respondeu prontamente, com aquele jeito solícito que sempre a acalmava.
Eles entraram no quarto do meio, um ambiente aconchegante com paredes de pedra aparente e uma colcha de retalhos grossa sobre a cama. Enquanto Noah colocava a mala sobre o suporte e ajudava a organizar as roupas no armário, Sofie se aproximou de uma prateleira de madeira escura. Seus olhos pararam em um porta-retratos de prata envelhecida.
— Que criança mais linda! — ela exclamou, pegando a foto. Era um menino loiro, de bochechas coradas e um sorriso travesso, segurando uma vara de pescar. — Você não mudou nada, Noah.
— Obrigado — ele respondeu, ficando levemente sem graça e coçando a nuca. — Eu era bem mais agitado naquela época.
— E esses do seu lado, quem são? — Sofie apontou para outros jovens na fotografia.
— Meus três irmãos — explicou ele, aproximando-se para olhar a foto por cima do ombro dela. — Aquela é a Fiona, a mais velha, o Alastair, que é o do meio, e a caçula, a Isabel. Todos já são casados e moram espalhados pela Europa, mas de vez em quando a gente consegue reunir todo mundo aqui.
— Você tem uma família grande, então? — Sofie comentou, sentindo um calorzinho no peito.
— Sim, tenho. E eles são barulhentos — ele riu. — Adoram uma festa, comemorações, banquetes... qualquer motivo é desculpa para encher a casa.
— Eu percebi logo que cheguei — Sofie sorriu, colocando a foto de volta. — O banquete, a energia de vocês e dessa casa... é contagiante.
Terminada a arrumação, o cansaço bateu de vez. Eles sentaram na beirada da cama para terminar de olhar um álbum de fotos antigo que Noah puxou de uma gaveta. A voz dele, explicando quem era cada primo e tio, foi se tornando um murmúrio reconfortante para Sofie. Sem perceber, a cabeça dela pendeu e se acomodou no braço forte de Noah. Ele parou de falar, sentindo o peso suave dela. Noah suspirou, fechou o álbum com cuidado e não se moveu, para não acordá-la. Ele encostou a cabeça na cabeceira da cama, ouvindo o ritmo da respiração dela e o som da chuva lá fora... acabou cochilando minutos depois, protegendo-a em seu abraço.
Duas horas depois, Alana e Arne voltaram da caminhada. Eles entraram na casa rindo baixo, com os rostos vermelhos do frio e as jaquetas úmidas da garoa escocesa. Ao passarem pelo corredor em direção ao quarto de visitas, notaram a porta do quarto de Sofie aberta. Alana parou e espiou, seu rosto se iluminou instantaneamente ao ver Sofie dormindo profundamente, aninhada no braço de Noah, enquanto ele repousava a cabeça sobre a dela.
— Olha, amor... — Alana sussurrou, puxando a manga de Arne e apontando para a cena. — Nosso plano está funcionando.
Arne sorriu, vendo a paz que emanava dos dois. — Espero que dê certo mesmo, amor. Eles merecem — ele cochichou de volta, dando um beijo rápido no topo da cabeça de Alana. — Agora vamos para um banho quente, que eu estou congelando. Depois a gente acorda os dois.
Eles seguiram pelo corredor na ponta dos pés, deixando Noah e Sofie dormindo.
As três batidas leves de Alana na porta foram o despertador para aquele momento de paz. Sofie abriu os olhos devagar, sentindo o calor do braço de Noah. Ao perceber onde estava, sentou-se num salto, o rosto corando instantaneamente. — Me desculpa... acabei dormindo em cima de você — ela murmurou, ajeitando a blusa.
Noah soltou um suspiro baixo, despertando com um sorriso tranquilo enquanto esticava a camiseta e sentia os músculos relaxarem.
— Tudo bem, Sof. Eu também apaguei. O ar daqui faz isso com a gente.
— Vocês estão aí faz um tempão! — Alana provocou da porta, com os cabelos ainda úmidos do banho. — Em uma hora, os pais do Noah vão servir o jantar. Vamos descer para ajudar.
O jantar foi uma extensão do acolhimento da tarde: tortas de carne suculentas, batatas rústicas e o som constante de risadas. Após ajudarem a limpar a mesa, os homens saíram para buscar lenha, enquanto as mulheres ficaram na cozinha. Sofie sentia uma leveza que há muito não experimentava, ouvindo as histórias de Elspeth sobre como era criar quatro filhos naquelas colinas.
Momentos depois, Noah voltou para a cozinha, o frio da noite ainda emanando de sua jaqueta. Ele parou diante de Sofie e estendeu a mão. — Vamos? Quero te mostrar um pouco de como é a noite aqui.
Sofie segurou a mão dele, sentindo os calos familiares e a firmeza de seus dedos. Eles caminharam sob um céu coalhado de estrelas, onde a Via Láctea parecia quase ao alcance da mão. Noah a levou até um antigo anexo de pedra, um celeiro reformado que cheirava a madeira seca e feno. Lá dentro, ele acendeu uma lanterna, revelando um "esconderijo" da adolescência: pilhas de revistas de rock dos anos 2000, desenhos feitos à mão nas paredes e um rádio velho. Ele falou bastante sobre sua infância, sobre o celeiro ser seu refúgio. Sofie prestava atenção em todos os detalhes... Ele não conseguia mais conter o desejo que havia guardado sob camadas de paciência e respeito. Quando suas mãos encontraram o rosto de Sofie, Noah a beijou com uma vontade que parecia vir de anos
de espera.
O beijo começou gentil e carinhoso, logo se transformou em algo intenso. Noah a pressionou contra a parede do celeiro, sentindo o corpo de Sofie. Suas mãos grandes desceram pelas costas dela, puxando-a para mais perto, querendo eliminar qualquer centímetro de ar que ainda os separava. Ele sentia o calor emanando da pele dela e o ritmo descompassado de seu coração contra o dele.
Noah começou a mapear o corpo de Sofie com os lábios. Ele beijou a linha de sua mandíbula, descendo para o pescoço, onde se demorou, sentindo o pulsar da artéria sob sua língua. Cada gemido baixo que escapava da garganta de Sofie era como um combustível para ele.
— Você não faz ideia — ele sussurrou contra a boca dela, a voz rouca — de quantas vezes eu fechei os olhos e imaginei você exatamente assim.
— Então realize toda a sua imaginação — ela disse, olhando nos olhos de Noah.
\nEle a levantou com uma facilidade impressionante, acomodando-a sobre uma bancada coberta por mantas de lã grossas. Noah se posicionou entre as pernas dela, penetrando-a após beijar cada centímetro do seu corpo. Ele a beijava com uma intensidade que a fazia esquecer de onde estava e de tudo o que havia sofrido. Diferente da experiência destrutiva de antes, o toque de Noah era uma construção. Ele explorava cada detalhe, o contorno do seu ombro, a curva da cintura, as tantas tatuagens espalhadas por seu corpo, com uma fascinação que a fazia se sentir a única mulher no universo. Noah estava radiante; a felicidade transbordava em seus olhos claros quando ele se afastava para olhar para ela. Finalmente, ele estava diante da mulher que amava.
Ela tinha plena consciência de que aquela não era a química devastadora que tinha com o Philip, que a deixava sem fôlego e sem juízo, não havia a eletricidade perigosa que arde antes de destruir. Mas, ao olhar para Noah, ela viu algo mais precioso: a devoção. Decidiu, então, soltar as últimas amarras do caos e se entregar àquela calmaria, permitindo que o amor calmo dele fosse o seu guia.
Noah a tratava como se ela fosse feita de vidro. Cada movimento seu era carregado de carinho e paixão. Ele se deleitava ao ver a pele de Sofie arrepiar sob seus dedos e ao escutar os gemidos de prazer que ela
tentava, sem sucesso, abafar contra seu pescoço. Ver Sofie se
contorcendo sob seu toque, entregue e vulnerável, trazia a ele uma
satisfação que ia muito além do físico. Ele explorou cada centímetro dela
com uma lentidão deliciosa, gravando na memória o sabor da sua pele e a textura do seu cabelo entre seus dedos. Para Noah, se o mundo acabasse naquele instante, sob o teto de madeira daquela propriedade escocesa,
ele morreria como o homem mais feliz da terra.
O sábado amanheceu com um sol pálido e frio. Sofie foi acordada por gritos e gargalhadas másculas vindas do jardim. Ela se arrastou até a janela e perdeu o fôlego. Lá fora, sob a névoa matinal, Noah, Arne e o pai, Malcolm, estavam usando apenas seus kilts xadrez e botas pesadas. Sem camiseta, os torsos expostos ao frio, eles empunhavam machados, rachando lenha com uma energia bruta. A pele deles brilhava com o suor frio, e a fumaça saía de suas bocas a cada respiração pesada. Noah exibia um físico impressionante, os músculos das costas se contraindo a cada golpe. Alana apareceu no quarto, parando ao lado de Sofie.
— Você viu essa cena, Sof? — Alana perguntou, com um sorriso malicioso.
— Estou vendo... e apreciando muito — Sofie respondeu sem desviar os olhos da janela. — É uma visão e tanto, não posso negar.
Após uma ducha rápida, elas desceram. Os três homens entraram na casa logo em seguida, rindo alto, o vapor saindo de seus corpos quentes no contraste com a cozinha aquecida. O café da manhã era um espetáculo escocês: Mingau de aveia (Porridge) cremoso com mel, ovos fritos, linguiças locais, tomates grelhados e os famosos Tattie Scones (scones de batata).
— Agora temos muita lenha! — Malcolm exclamou, batendo no peito, ainda em forma apesar da idade.
— Bom dia — disse Noah, a voz ainda grave pelo esforço físico, dando um beijo no topo da cabeça de Sofie. — Dormiu bem?
— Como nunca — ela respondeu, retribuindo o sorriso.
O vapor do café se misturava à fumaça que ainda emanava dos corpos aquecidos dos homens. O som das cadeiras arrastando no piso de pedra pontuava a transição do trabalho bruto para o aconchego do desjejum. Arne, ainda com a pele brilhando pelo esforço e o kilt levemente desalinhado, caminhou até Alana. Ele inclinou o corpo, deixando um beijo rápido e estalado nos lábios dela, os dedos gelados tocando a nuca da namorada. — Gostou do que estava vendo lá fora, amor? — ele perguntou, com um sorriso convencido.
Alana, que segurava uma xícara de porcelana com as duas mãos, não desviou o olhar. Com uma audácia divertida, ela o mediu de cima a baixo. — Eu amei. Muito sexy... — ela deu um gole no café quente, sustentando o olhar. — Vai levar esse figurino para casa, né?
A gargalhada foi geral, preenchendo o ambiente. Malcolm deu um tapa sonoro na mesa, apreciando a espontaneidade da Alana, enquanto Noah escondia um sorriso atrás da mão. Sofie, sentada ao lado da cadeira vazia de Noah, aproveitou o momento de descontração para lançar a ele um olhar malicioso, percorrendo lentamente o peito largo e os ombros do homem que, na noite anterior, a redescobria de forma tão doce e intensa. Noah puxou a cadeira e sentou-se ao lado dela, exalando testosterona. Ele buscou a jarra de suco de laranja, servindo-se de um copo grande enquanto tentava acalmar a respiração.
— Vocês estão muito sorridentes hoje, principalmente você, Noah — provocou Alana, deslizando a cesta de pães.
— Estou apenas feliz que vocês estão aqui — Noah respondeu, enquanto lançava um olhar intenso para Sofie, que precisou se concentrar na própria xícara de chá para não vacilar.
Eles começaram a comer com a fome de quem havia vencido a manhã.
Arne atacava um prato de ovos mexidos cremosos, usando uma fatia de
pão para limpar o prato. Alana cortava pequenos pedaços de Tattie Scones, mergulhando-os na geleia de frutas vermelhas enquanto comentava sobre a luz perfeita para as fotos que tirariam depois.
Noah mantinha uma mão sobre a mesa, próxima à de Sofie, enquanto comia uma linguiça artesanal bem temperada. De vez em quando, seu joelho roçava o dela por baixo da mesa.
Sofie alternava entre o chá Earl Grey e o mingau de aveia com mel. Ela se sentia bem e feliz pela segurança que emanava de Malcolm e Elspeth, que observavam a cena com a satisfação de quem vê a casa cheia e a vida pulsando.
A cada risada de Malcolm e a cada história de Elspeth sobre os clãs da região e todas as outras... Sofie ia esquecendo aos poucos do Philip, do hospital e de tudo.
Após o café, eles saíram para o gramado extenso. O clima de descontração era total. Sofie, sentindo-se travessa, roubou o chapéu de Noah e saiu correndo pela grama.
— Volta aqui, Sofie! — ele gritou, rindo, disparando atrás dela.
Noah a alcançou rapidamente, passando os braços fortes pela cintura dela e a erguendo do chão. Ele a girou no ar enquanto ela ria alto, os dois parecendo crianças sob o céu infinito da Escócia. Quando ele a colocou no chão, não a soltou. Ficou ali, abraçado a ela, enquanto Angus e Bonnie corriam ao redor deles, latindo de alegria.
Naquele momento, enquanto Alana e Arne tiravam fotos bobas ao fundo, Sofie percebeu que a felicidade não precisava ser um incêndio incontrolável; ela podia ser exatamente aquilo: um sol de inverno, lenha cortada e o abraço seguro de alguém que nunca a deixaria queimar sozinha.