Rondó 18 - O Amor Armado
Gira amor feroz e armado Neste prado e valle e serra : Tudo é guerra, e com seus tiros Mil suspiros já causou. Entre míseras affrontas Pendurou n'um tronco a aljava; Pois das settas, que estimava, Glaura as pontas lhe quebrou. Por vingar-se d'esta injuria Triste emprega ferro e fogo; Mas ao ver-me o impio logo Mágoa e fúria disfarçou. Gira amor feroz e armado ' Neste prado e valle e serra: Tudo é guerra, e com seus tiros Mil suspiros já causou. Meu soccorro e meu desenho Brando pede, e humilde approva: Com vaidade em setta nova Meu empenho se esmerou. Tinha a ponta aguda e forte, E três farpas bem polidas, Negras pennas embutidas, De que a morte se assustou. Gira amor feroz e armado Neste prado e valle e serra : Tudo é guerra, e com seus tiros Mil suspiros já causou. Dei-lhe o aço luminoso, E o traidor louvar-me finge :. Em cruel peçonha o tinge, E aleivoso assim fallou :' « Fico alegre e satisfeito... Oh que setta! vê se é boa: » Curva o arco, a setta vôa, E o meu peito traspassou. li. Gira amor feroz e armado Neste prado e valle e serra : Tudo é guerra, e com seus tiros Mil suspiros já causou. Em tormentos e pezares Exclamei, quando cabia : « Glaura... Amor...» o amor se ria, E dos ares me bradou : « O Vesuvio não se apaga : Ser ditoso mereceste; Do farpão, que me fizeste, Leva a paga, que te dou. » Gira amor feroz e armado Neste prado e valle e serra : Tudo é guerra, e çom seus tiros Mil suspiros já causou.