Rondó 24 - A Tarde
Já serena desce a tarde, Já não arde o sol formoso : Vem saudoso o brando vento Doce alento respirar. Pelos fins d'aquelle monte Vejo, ó ninfa, luzes bellas Entre purpura amarellas No horisontefluctuar. Que gigante os céos adorna Com chuveiros de oiro e prata! Sobe e cresce e se desata E se torna todo em ar! Já serena desce a tarde, Já não arde o sol formoso : Vem saudoso o brando vento Doce alento respirar. Surge ali vistosa serra De mil vários esplendores, A quem íris deu as cores Para a terra enamorar. Nuvens claras e redondas Deixa Phebo accelerado, Que o semblante avermelhado Sobre as ondas vai banhar. Já serena desce a tarde, Já não arde o sol formoso : Vem saudoso o brando vento Doce alento respirar. Pouco a pouco a luz desmaia; Mas não cede á noite fea : Inda vejo a solta arêa Nesta praia branquejar. Cordeirinhos manteúdos Traz pastora diligente : Elles brincão frente a frente, Vem felpudos a saltar. Já serena desce a tarde, Já não arde o sol formoso : Vem saudoso o brando vento Doce alento respirar. Como chora enternecida Triste flauta! ó bella, escuta... Lá repete aó longe a gruta, E convida a suspirar. Ai de mim! teu peito ingrato Não conhece o que é suspiro, E eu por ti de amor espiro, E só trato de te amar! Já serena desce a tarde, Já não arde o sol formoso : Vem saudoso o brando vento Doce alento respirar.