Rondó 28 - O Prazer
Sobre o feno recostado, Descançado affino a lyra, Que respira com ternura Na doçura do prazer. Amo a simples natureza: Busquem outros a vaidade Nos tumultos da cidade, Na riqueza e no poder; D'esse pélago furioso Não me assustão os perigos, Nem dos ventos inimigos O raivoso combater. Sobre o feno recostado, Descançado affino a lyra, Que respira com ternura Na doçura do prazer. Pouca terra cultivada Me agradece com seus frutos; Mas os olhos tenho enxutos, Quanto agrada assim viver! O meu peito só deseja Doce paz n'este retiro; Por delicias não suspiro, Onde a inveja faz tremer. Sobre o feno recostado, Descançado affino a lyra, Que respira com ternura Na doçura do prazer. Pelas sombras venturosas De fecundos arvoredos Ouve Glaura os meus segredos, .Quando rosas vai colher. Já o amor com ferro duro Não me assalta, nem me offende ; Já suave o fogo acende, E mais puro o sinto arder. Sobre o feno recostado, Descançado affino a lyra, Que respira com ternura Na doçura do prazer. Entre as graças e os amores Canto o sol e a primavera, Que risonha vem da esfera Tudo em flores converter. A innocencia me acompanha; Oh que bem ! oh que thesoiro! Vejo alegre os dias de oiro Na montanha renascer. Sobre o feno recostado, Descançado affino a lyra, Que respira com ternura Na doçura do prazer.