Rondó 29 - A Alegria
Sem o amor, ó Glaura, tudo Era mudo e triste e feio; s Tudo cheio de alegria N'este dia o vê tornar. Vem comtigo a formosura E as delicias d'este monte : Dá valor ao prado, á fonte, A ventura de te amar. Noutro tempo a estéril serra Teve a côr das minhas magoas; Hoje brilha o sol nas agoas, Bi-se a terra, o céo e o mar. — 16O — Sem o amor, ó Glaura, tudo Era mudo e triste e feio ; Tudo cheio de alegria Neste dia o vê tornar. Rude fauno, que se esconde, E de amor a vóz escuta, Dobra os echos nesta gruta, E responde a suspirar. Quanto agrada ouvir d'esta ave O gorgeio harmonioso, E do zefiro amoroso O suave respirar! Sem o amor, ó Glaura, tudo Era mudo e triste e feio;/ Tudo cheio de alegria N'este dia o vê tornar. Coroada de mil flores, Mostra a linda Cytheréa Alvo pé na ruiva arêa, Que os amores vem beijar. D'esta rocha curva e alta Pela tarde com descanço Vejo, ó ninfa, no remanso Como salta o peixe ao ar! Sem o amor, ó Glaura, tudo Era mudo e triste e feio; Tudo cheio de alegria Neste dia o vê tornar. Desatando as trancas de oiro Surgirá brilhante a aurora, Para ver a bella Flora Seu thesouro derramar. Ah! não fujas destes prados, Onde amor ha de seguir-te; Mais não tenho que pedir-te, Nem os fados mais que dar. Sem o amor, ó Glaura, tudo Era mudo e triste e feio; Tudo cheio de alegria Neste dia o vê tornar.