Rondó 51 - O Amor
Meu peito se inflamma, O ninfa, soccorro, Piedade, que eu morro Na chamma de amor. Se os dias serenas Com doces victorias, Serão sempre glorias As penas de amor. Enxuga o meu pranto Que fragoas accende: O céo já se offende De tanto rigor. Triunfe a ternura Nas cordas da lyra, Que branda me inspira Doçura de amor. Dá fim aos desgostos Que nutre o receio, E anima em teu seio Os gostos de amor. Enxuga o meu pranto, Que fragoas accende: O céo já se offende De tanto"rigor. Por ver, que te agrava Meu terno gemido, O tinha escondido Na aljava de amor. Mas entre pezares Suspira, e te roga Conforto, e se affoga Nos mares de amor. Enxuga o meu pranto, Que fragoas accende: O céo já se offende De tanto rigor. Cantou passarinho Com voz lisongeira, Que vio na mangueira O ninho de amor. Alegra os rochedos, E aprende d'esta ave No canto suave Segredos de amor. Enxuga o meu pranto, Que fragoas accende : O céo já se offende De tanto rigor. * O monte me escuta, Respondem as brenhas, Que busque nas penhas A gruta de amor. As magoas contemplo E a dôr, que me cança : Envio a esperança Ao templo de amor, Enxuga o meu pranto, Que fragoas accende : O céo já se offende De tanto rigor. Vem ver n'estes valles Os mimos de Flora, E o triste, que chora Os males de amor. Respire a minha alma, Que geme, que espera : E ganhe em Cythéra A palma de amor. Enxuga o meu pranto, Que fragoas accende : O céo já se offende De tanto rigor. Se amante annuncias Prazeres ditosos; Serão preciosos Os dias de amor. Ah deixa os rigores, Dar-te hei, Glaura bella, Em nova capella Mil flores de amor. Enxuga o meu pranto, Que fragoas accende: O céo já se offende De tanto rigor.