Rondó 63 - As Cordeirlnhas
Cordeirinhas innocentes, Descontentes na espessura A ventura já perdemos Comecemos a morrer, i Pôde, ó Glaura, o fatal dia Arrancar-te dos meus braços! Ai amor, ai ternos laços Onde eu via o meti prazer» Só por Glaura se alegrâvão Faunos, dryades, pastores: Estes campos, estas flores Respiravão só de a ver. Cordeirinhas innocentes, Descontentes na espessura, A ventura já perdemos, Comecemos a morrer. Neste misero destroço Vem, ó parca endurecida, Corta os fios d' uma vida, Que não posso já soffrer. O silencio triste e mudo Vive nesta soledade, Vive a fúnebre saudade, Que faz tudo enternecer, Cordeirinhas innocentes, Descontentes na espessura, A ventura já perdemos, Comecemos a morrer. Geme Glaura; mas não chora, Ai de mim que o seu gemido, Na minha alma repetido Inda agora a faz tremer! Quasi immovel e turbada Co' a mão trêmula m' acena; Eu a vejo, q céos, que pena! Descorada esmorecer. Cordeirinhas innocentes, Descontentes na espessura, A ventura já perdemos, Comecemos a morrer. Disse em fim : « Adeos, ó prados, « Ah pastor! as crias bellas... « Que momento!... ah possão ellas « Teus cuidados merecer! » Falta a voz... não lhe permitte Fria morte; acerbas mágoas! Já meus olhos não tem agoas, Nem limite o padecer. Cordeirinhas innocentes, Descontentes na espessura, A ventura já perdemos, Comecemos a morrer.