Rondó 64 - A Morte Glaura: poemas eróticos · Capítulo 65 de 122
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Rondó 64 - A Morte

O prazer, a singeleza, A belleza, que em ti via, Num só dia, ingrata sorte! Tudo a morte me roubou. Esculpido na memória Amo, ó Glaura, o teu semblante; N'elle vejo a cada instante Essa gloria que passou. Volve o rio as puras agoas, Vai correndo e não descança; Assim foi minha esperança, E só magoas me deixou. O prazer, a singeleza, A belleza, que em ti via, Num só dia, ingrata sorte! Tudo a morte me roubou. N'este bosque, em verde leito, Que já foi por ti ditoso, Leio o nome teu saudoso, Que em meu peito o amor gravou. Este monte, que já viste Pelas graças habitado, D'ellas hoje desprezado, Feio e triste se tornou. O prazer, a singeleza, A belleza, que em ti via, N'um só dia, ingrata sorte! Tudo a morte me roubou. Glaura chamo sem conforto, E só echo me responde : Glaura busco e não sei onde, Nem se morto ou vivo estou. Assim triste passarinho A consorte em vão procura, Que farpada setta dura Do seu ninho arrebatou. — 26O — O prazer, a singeleza, A belleza, que em ti via, N'um só dia, ingrata sorte! Tudo a morte me roubou. Voraz tempo não consome, Nem abranda meus pezares, Nem eu deixo estes lugares Que o teu nome eternisou. Entre os concavos rochedos Chorarei enternecido, Onde amor compadecido Meus segredos sepultou. O prazer, a singeleza, A belleza, que em ti via, Num só dia, ingrata sorte! Tudo a morte me roubou.

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