Rondó 65 - A Saudade
Tudo, ó Glaura, tudo existe Feio e triste de saudade : Vôa a idade e não consome O teu nome e o meu amor. Ai de mim, a noite escuta Pavorosa o som das agoas! Turbarei co' as minhas magoas ,Desta gruta o mudo horror. Vem, ó morte, eu não m' espanto; Vem cruel, armada e fera : Rouco e fúnebre te espera O meu pranto, a minha dôr. 15. Tudo, ó Glaura, tudo existe Feio e triste de saudade : Vòa a idade e não consome O teu nome e o meu amor. Entre as mãos do fado acerbo Eu te vi desfalecida, Qual a pomba já ferida Do soberbo, iniquo açor. Tal a ovelha mais formosa Levas, tigre ensangüentado: Assim rompes, tosco arado, A mimosa e tenra flor. Tudo, ó Glaura, tudo existe Feio e triste de saudade : Vòa a idade e não consome O teu nome e o meu amor. Com pezar, e com desgosto Espiritou minha alegria Quando, ó céos! no infausto dia O teu rosto vi sem côr. Os teus olhos... ah! que eu sinto Mais intensa a magoa dura! Eu os vi em sombra escura, Já extincto o esplendor. Tudo, ó Glaura, tudo existe Feio e triste de saudade : Vòa a idade e não consome O teu nome e o meu amor. Sobre a penha afflicto e terno Gravarei funesta historia; E das ninfas na memória Fique eterno o meu ardor. Cercarei de roxos lyrios O lugar em que descanças : Ai, perdidas esperanças, Vãos delírios do pastor! Tudo, ó Glaura, tudo existe Feio e triste de saudade; Vôa a idade e não consome O teu nome e o meu amor.