Rondó 66 - O Sol
Quando vejo o sol doirado Desmaiado sobre as agoas, Crescem magoas n'alma afflicta, E palpita o coração. Oh memória ! oh desventura! Glaura aqui se demorava, E comigo respirava A frescura no verão. Infeliz! já n'estes montes Deu á parca o seu tributo; Com saudade e eterno luto Estas fontes chora ráõ. Quando vejo o sol dóirado Desmaiado sobre as agoas, Crescem magoas n'alma afilieta, E palpita o coração. Rizos, graças, que tormento! D'estes valles se apartarão, E fugindo, me deixarão Só lamento e confusão. Falta ás dryades mimosas A belleza que perderão; Pelos troncos se esconderão... Lagrimosas inda estão! Quando vejo o sol doirado Desmaiado sobre as agoas, Crescem magoas n'alma afflicta, E palpita o coração. Ah depois que meus amores Virão Glaura em férreo somno, Não me alegra mais o outono, Nem das flores a estação! Busco fúnebres lugares Nos penhaseos desabridos : Levo a dôr, levo gemidos, E pezares e afflição. Quando vejo o sol doirado, Desmaiado sobre as agoas, Crescem magoas n'alma affliçta, E palpita o coração. É tão bárbaro e tão fero O rigor da minha sorte; Que a funesta e surda morte Triste espero e chamo em vão. Doce amor, ah que esta pena Meus prazeres não restaura; Ou me torna a linda Glaura, Ou modera tal paixão! Quando vejo o sol doirado, Desmaiado sobre as agoas, Crescem magoas n'alma affliçta, E palpita o coração.