Rondó 67 - Adeos a Lyra
Adeos, lyra; a mão cançada Pendurada aqui te deixa, E se queixa da ventura; Ai, ternura, ai, doce amor! Já o Anfriso em rude teto Te escutou, ó lyra d' oiro, Quando vio o moço loiro, Que de Admeto foi pastor. Pelas grutas esquecido, Mudo satyro te ouvia : Brando zèfiro attendia, Suspendido e sem rumor. Adeos, lyra; a mão cançada Pendurada aqui te deixa, E se queixa da ventura; Ai, ternura, ai, doce amoi! Arrojado ao pego turvo, Arion harmonioso Foi comtigo venturoso Sobre o curvo nadador. Vio nos humidos lugares Entre a turba sem limite, Glaura, Doris e Amphytrite, E dos mares o senhor. Adeos, lyra; a mão cançada Pendurada aqui te deixa, E se queixa da ventura; Ai, ternura, ai, doce amor! C os teus sons, mais do que humano Commóveo os duros troneos, Arrastou rochedos broncos O thebano fundador. Tu venceste o carrancudo, Negro Averno, sempre afflictò; E abrandaste do Cocyto O sanhudo ladrador. Adeos, lyra; a mão cançada Pendurada aqui te deixa, E se queixa da ventura; Ai, ternura, ai, doce amor! Geme agora; se é que viste Espirar... e nos meus braços... Glaura... ohcéos! oh puros laços! Dia triste! horrível dôr! y Rouca a voz... o peito frio... Vista incerta... ai, Glaura! oh! sorte! Tremo... choro... insulto a morte, Desafio o seu rigor. Adeos, lyra; a mão cançada Pendurada aqui te deixa, E se queixa da ventura; Ai, ternura, ai, doce amor!